segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Capítulo 27 - Vida de escrava

Algumas semanas se passaram e consegui intercalar trabalho e as leituras do diário. Passou-se pouco mais de um mês, quase dois no diário. E Kazuko, se recuperou psicologicamente e fisicamente do aborto. Então ela marcou uma consulta com a Rin para ver se estava tudo bem e voltar a tomar o remédio.
E esta era mais uma leitura escondida na hora do almoço.
Olá diário,
Acabei de chegar a casa, vindo da consulta com a Dra. Rin e também de uma tarde agradável com ela.
Makoto me levou até o consultório e seguiu para o trabalho. Minha consulta era no meio da manhã e também um encaixe. O consultório estava cheio. Pensei que não sairia de lá tão cedo e foi isso mesmo que aconteceu. Passei horas sentada e entediada alternando meu olhar entre a TV e as outras pessoas por ali. Por sorte, acabei passando despercebida por todas aquelas ricas. Então, minha espera foi mais tranquila. Uma a uma, foram entrando e saindo, esvaziando a sala de espera. E final fui chamada. Quando entrei, ela falou comigo:
-Esperou muito, Kazuko?
-Um pouco, Rin. - sorridente
-Peço desculpas por isso. É que hoje eu só atendo de manhã. - foi só ai que ela notou – Veio sozinha ou Makoto está te esperando lá fora?
-Vim sozinha. Eu ganhei “liberdade diurna”.
-Ah, sim. Já ouvi falar sobre isso. É raridade! Realmente é sortuda.
-Todos me dizem isso.
Ela sorriu, achando engraçado e continuou:
-Bem, vamos logo ver como você está e se seu corpo se recuperou. E também ver os exames que eu pedi, ai voltará a tomar seu remédio.
Fui a outra sala e ela fez os mesmos procedimentos de rotina. Fez um outro exame em mim e viu os outros que eu trouxe. Disse que estava tudo bem e que me recuperara bem. Entregou o remédio, exatamente igual ao antigo. As recomendações, as mesmas. Sai da sala sendo seguida por Rin. A recepcionista já tinha ido embora.
-Como vai voltar, Kazuko?
-Pegarei o transporte. Talvez almoce lá em casa mesmo. - era a minha casa agora
-Aproveite o seu dia livre! Que tal darmos uma volta? Te dou carona depois.
-Acho que Makoto não vai gostar disso.
-Sua liberdade não é diurna?
-Sim. A única regra é que a noite esteja de volta.
-Então pode ficar fora durante o dia. Ele não vai poder falar nada.”
Olha a Rin incitando a rebeldia da Kazuko! Haha.
Mas claro que ela tem razão. Desde que Kazuko cumprisse a regra, pouco importava o que ela fez durante o dia.
Se bem que ia querer saber de qualquer forme. Ia mesmo perguntar.
Bem, ela realmente tinha razão. Só liguei para a Keiko avisando que voltaria mais tarde. E depois, seguimos para um shopping próximo.
Ainda era um pouco cedo para comer, acabamos caminhando pelos corredores, conversando, distraídas, olhando as vitrines.
-Tem pouco tempo que foi seu aniversário, não é, Kazuko?
-Foi quase uns três meses atrás.
-E eu não te dei presente e nem enviei nada. Ainda mais depois do que houve.
-E nem precisa, Rin. Não se incomode com isso.
-Mas eu sempre presenteio as minhas pacientes. Tudo bem que eu escolho um presente padrão para todas, mas eu vou te dar algo diferente.
E como nesses lugares tem lojas de tudo quanto é coisa, também tem uma sexshop. Esse tipo de loja já existe há séculos, porém nunca entrei em uma.
Rin parou e indicou que entrássemos lá. Abri a porta e ela veio atrás. Uma moça simpática nos deu boas vindas e perguntou o que estávamos procurando.
-Um vibrador para ela. - Rin respondeu, apontando para mim
-Tem alguma preferência, querida? - indagou olhando para mim
-Acho melhor ela ir na “salinha” para escolher.
A vendedora me levou a um local através de uma das cortinas. Era uma sala lotada de vibradores, organizados em prateleiras. Fiquei paralisada, sem reação àquilo tudo. Percebi que a vendedora sorriu, quase rindo e falou:
-Nunca entrou em um lugar desses, não é? Pela sua careta, notei.
-Pode nos deixar sozinhas um pouco, por favor. - Rin pediu
A moça assentiu e saiu. Rin chamou minha atenção e eu soltei:
-Por que eu preciso disso?
-Porque pode haver um dia que esteja com vontade, mas não tem escravo para te satisfazer. - pôs as mãos em meus ombros – É sempre bom aprender a fazer sozinha e também conhecer melhor o seu corpo e o que gosta ou não. Pode escolher qualquer um, vai ser o meu presente de aniversário para você.
Rin saiu, me deixando solitária com aquelas centenas de pênis de silicone. Impressionante como a tecnologia ainda é quase a mesma. (Já li um pouco sobre.) Tinham de várias cores e tamanhos. Alguns com bolinhas no meio, outros com duas extremidades. Enfim, vários tipos. Olhei por um tempo e acabei por escolher um bem simples, de cor roxa. Sai pela cortina e me encontrei com Rin e a vendedora.
-Ótima escolha. Deixa eu ir lá pegar um lacrado para você.
Enquanto esperávamos, Rin falava com alguém no telefone. Parecia que a pessoa localizava-se próxima a nós, pois ela disse onde estávamos. Pouco depois, já fora da loja, perguntei, curiosa:
-E você, Rin, tem um desse também?
-Não. Eu não gosto da mesma coisa que você. Sou casada com uma mulher.
-Nossa! Não sabia.
-Isso é outra coisa que me causaria alguns problemas se descobrissem. Eu ter virado ginecologista não tem nada a ver com a minha sexualidade.
Uma mulher muito bonita olhou em nossa direção e sorriu. Era a esposa de Rin. Elas se abraçaram e trocaram um selinho.
-Quem é essa? - perguntou ela
-Esta é uma das minhas pacientes: Hirasawa Kazuko. É aquela escrava que te contei.
-Ah, sim. Prazer, Srta. Hirasawa. - estendeu a mão – Eu sou Kondo Namie. Esposa da Dra. Saho.
-Muito prazer.
-Bem, devidamente apresentadas, vamos comer. - Rin falou
Entramos em um restaurante de renome. Pois é, era convidada especial da Rin. Sentamos e fizemos o pedido através da tela projetada na própria mesa. Logo, a garçonete chegou com a comida. Conversávamos enquanto comíamos:
-Queria saber a história de vocês. Como se conheceram? - indaguei
-Foi um encontro de escravas trancafiadas. - Namie respondeu sorrindo
-Nossos donos eram amigos e quando o dono dela veio visitar o meu, trouxe-a junto. E nos colocaram no mesmo quarto. - explicou Rin
-E assim foi por muitas vezes. Até que... Acabou acontecendo.
-Ah? - fiz careta – Entendi!
-Mas perdemos contato ao sermos libertas. Apenas nos reencontramos na faculdade. Assim, finalmente namoramos e nos casamos.
Sorri. Era uma boa história, apesar de estar um bocado resumida.
-E a vida de escrava de vocês? - perguntei
-Fui comprada com dez anos. - Rin começou – E tinha muito nojo quando o meu dono fazia comigo, até porque eu nunca gostei do tipo dele. Acho que me entende, né?- assenti e ela prosseguiu -Foram anos de tortura, fazendo algo que eu não gostava. Sendo totalmente obrigada. Os únicos momentos bons eram quando estava na companhia da Namie. - olhou e pegou na mão da esposa – Fui alforriada com dezesseis e segui com os meus estudos. Tentei esquecer o que passei. E por sempre estar preocupada em me cuidar naquela época e sempre, também decidi ajudar outras mulheres e me formei em ginecologia.”
Uma escrava que foi alforriada e ainda é menor de idade não pode ser comprada de novo. Cada escravo só pode ser comprado uma única vez. Nada impede que ele seja passado de um dono a outro, como um objeto. Sendo revendido ou dado de presente. Mas, no centro de escravos é apenas uma vez!
Rin foi liberta numa idade em que deu tempo de recuperar os estudos. Bem, ela quis assim. Algumas até desistem de seguir em frente por conta do trauma vivido.
A história de Namie era bem semelhante. Ela foi comprada também aos dez anos e foi liberta aos dezessete. Ela é formada em música.
O encontro delas realmente foi coisa do destino e elas aproveitaram os momentos juntas e construíram sentimentos recíprocos entre si. A separação abrupta fora apenas temporária, porque os sonhos de um bom futuro as levaram a faculdade e ao reencontro. Dava para ver como elas eram felizes. Fiquei encantada de vê-las dessa forma. Um casal feliz! Espero que um dia eu possa saber o que é isso também!
E elas disseram em uníssono:
-E a sua? Sua vez de contar.
-Mas... Não aconteceu nada.
-Uma gravidez não é nada? - Rin retrucou
-Fora isso, nada demais.
-Conta! - Namie pediu – Como o seu dono reagiu?
Acabei contando toda essa história para elas e também a passagem do meu aniversário.
-Ele fez isso mesmo, Kazuko? - Dra. Saho questionou
Fiz sim com a cabeça.
-Ele gosta de você! - falou a esposa
-Muitas dizem isso. Mas eu sei lá...
-Ele te deu liberdade diurna. Você não entende o que isso quer dizer? - ela continuou
-Nunca parei para pensar nisso.
-Mas é bom que o faça. - e completou
Senti o meu coração dar uma vacilada. Talvez pelo choque de realidade.
-Sua mãe foi escrava também? - Rin, dessa vez
-Foi sim. Inclusive foi liberta porque engravidou de mim.
-Nada além do normal!
Nunca contei a história da mamãe, que tecnicamente é o início da minha. Ela foi comprada com onze anos e por um homem casado. Por muitos anos, ela foi maltratada e dormia com o dono e a esposa dele. E em algumas vezes, quando o casal brigava, o dono ia no quarto da minha mãe e descarregava nela. Quando tinha minha idade, percebeu que estava grávida. Conseguiu esconder por uns quatro meses, até que a esposa do seu dono notar que ela havia engordado. Antes de ser alforriada, ou melhor, despejada, foi agredida e jogada na parte pobre da cidade apenas com roupa do corpo. Por sorte, encontrou alguns conhecidos que a levaram de volta à casa de vovó, que morreu quando ainda era criança. Minha vó a recebeu e ficou feliz com a novidade. Eu nasci e passamos a viver nós três. Ela sempre dizia que eu me parecia muito com a minha mãe. Sinto falta dela!
Os anos correram e chegamos onde estou hoje. Por enquanto minha história está melhor do que a delas duas. Pois é, minha mãe é “filha de um rico”, assim como eu.”
Eu ouvi essas coisas da própria boca da Saiko, mãe de Kazuko. E infelizmente não é um tipo de coisa rara, é muito comum e normal de ocorrer.
Mudamos de assunto e continuamos conversando em um clima agradável. Acabamos de comer e ganhei uma carona. Cheguei ao apartamento no meio da tarde.
-Se divertiu, Kazuko? - indagou Keiko
-Sim. Estava precisando disso. Deixa eu tomar um banho e me trocar que eu venho te ajudar.
E cá estou eu.
Espero que o Makoto não brigue por ter feito isso. Até breve!”
E não, não soltei um ai sobre este passeio da Kazuko. Queria que ela tivesse um pouco de liberdade e fazer o que quisesse.
Fechei o diário. O horário de almoço acabara.

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