domingo, 12 de fevereiro de 2017

Capítulo 33 - Dono comprometido

Passaram alguns dias, diria até semanas. Eu não tive como ler tanto o diário, porque logo em seguida outro caso grande apareceu no escritório. Só que não fiquei mais ocupado, pois estava apenas no apoio dessa vez. Mas, é um outro caso que dará muito mérito a quem o ganhar, assim como aconteceu comigo semanas atrás.
Saí no meu horário e logo cheguei. Aproveitei o resto do dia com Kazuko e Takumi. Somente antes de dormir que eu peguei o diário para ler. Também passaram algumas semanas no tempo dele e as suposições de Kazuko estavam corretas: eu estava saindo com a Kana. E bem, essa nossa volta dera em algo. A passagem do diário é justamente sobre o dia em que contei sobre meu relacionamento com a Kana. Fiz um jantar em minha casa, como uma forma de anúncio a todos.
Assim começou o trecho:


Querido diário,
Sinceramente, não sei o que pensar sobre tudo o que acabou de acontecer neste jantar surpresa que Makoto planejou e chamou a família inteira. O anúncio era muito importante. Entenda importante como: Mal para a Kazuko.
Tive que colocar uma roupa mais “arrumada” do que o pijama que uso normalmente a essa hora. Logo, chegaram Koishiro, Minami, Minori, Shiori, Kyosuke e Akira. Eu e Makoto os cumprimentamos.
Meu dono apresentava um sorriso de felicidade que já estava me dando nos nervos de não saber do que se tratava com exatidão. Então, a campainha tocou e lá foi ele atender o interfone. Minutos depois bateram a porta. Ao abrir, lá estava. Uma garota loira de cabelos compridos, acompanhada dos pais. Eu a conheço pelo nome de Kana. Então, ficou mais do que óbvio o motivo dele estar me evitando na maioria das noites. (Inclusive comentei com a Rin sobre e ela cogitou exatamente isso.)
A disposição da mesa me fez lembrar qual é o meu lugar. Estava afastada do centro, isolada no cantinho das escravas e crianças. Senti-me só mais uma naquela sala, enquanto as famílias estavam do outro lado. Makoto na cabeceira, Kana à direita, seguida dos pais. Koishiro à esquerda e as esposas depois. Só depois vínhamos eu e as crianças. Keiko nos serviu. Então, o que eu temia foi dito após comermos:
-Bem, pessoal, eu e Kana queremos dizer algo importante a vocês: oficialmente, estamos namorando.
Os pais de Kana quase saltaram de felicidade. Koishiro levantou-se, abraçou o filho e lhe desejou parabéns.
-Tem muito tempo já? – indagou a mãe dela
-Pouco mais de um mês.
-Isso é tão maravilhoso. – sorriu – Que bom que vocês reataram.
E depois, aquilo virou uma reunião de família e eu não fazia parte dela. Sou uma intrusa aqui. Senti-me sozinha, mesmo com as madrastas de Makoto conversando comigo. E não tardou para a família de Makoto partir e a de Kana, incluindo a própria também. Makoto fechou a porta e olhou para mim, soltando em seguida:
-Precisamos conversar!
E meu sangue gelou. O que pode vir após uma frase assim? Nunca se sabe.”


A bendita frase que deixa qualquer um aflito. Pode ser a coisa mais boba, mas quem escuta acaba levando mais a sério do que deveria. Eram “apenas” sobre as novas regras.


-Sobre o quê exatamente? – foi a única coisa que consegui perguntar
-Novas regras. – sentou-se ao meu lado no sofá – Mas, primeiro, peço desculpas.
-Pelo quê? – olhei-o surpresa
-Por não ter contado sobre o meu namoro com a Kana antes. Eu tenho te tratado mal por conta disso. Te evitado, chegado tarde, mal falado com você.
Mas o que diabos foi isso? Eu não tenho um dono normal, definitivamente. Acabei ficando um pouco irritada e disse, incisiva:
-Sabe que não tem necessidade disso, Makoto.
-Eu sinto que sim, Kazuko.
-E as novas regras? – bufei
-Bem, como estou comprometido com a Kana, é melhor a gente ficar sem transar. Sentir-me-ia traindo-a ao dormir com você.
-Acabei de me tornar completamente inútil. – sussurrei
-O que disse?
-Nada!
-Mesmo? Parece irritada.
-Já disse que não é nada. – aumentei o tom – Eu vou pro meu quarto.
Porém, Makoto veio atrás, insistindo e me segurando pelo braço:
-Se não fosse nada, não estaria assim. Não me enrola! Fala logo!
-Ai, Makoto. – virei-me para ele – Não é óbvio? Qual será a minha função se não posso cumpri-la mais? Por que não me alforria de uma vez, me esquece e segue a sua vida?
-Não te liberto porque não quero e não tenho certeza se essa relação dará certo.
-Ah é. A válvula de escape, a segunda opção, como sempre.
Desvencilhei-me da prisão dele, entrei e tranquei a porta. Ele tentou abrir, bateu, me chamou.
-Makoto, me deixa sozinha. – gritei e segurando o choro continuei – Por favor!
-Tá bem! Boa noite.
Voltei ao local de escrava em apenas uma noite. Não sei nem o que pensar ou sentir sobre, a não ser as palavras usada e objetificada.”


A outra anotação era do dia seguinte, na primeira noite que Kana passou comigo em casa.


Olá diário,
Estou escrevendo com sons perturbadores vindos do quarto a frente como fundo.
Makoto se mostrou preocupado comigo de manhã. Então, respondi assim:
-Só me senti isolada de tudo o que ocorreu ontem. Estava sentada do outro lado da mesa, praticamente alheia a tudo. Depois, fiquei mais excluída ainda, com todos conversando e eu sentada lá. Só isso!
-É verdade! Eu mal te vi ontem à noite.
-Claro. Tive que esticar o pescoço para te ver falar.
Ele sorriu.
- Te deixo perto de mim da próxima vez.
-Assim espero.
-Alias, Kana virá aqui hoje.
-E pela sua cara, ela vai passar a noite aqui também. Não se preocupe, preparei os tampões de ouvido para o caso dela ser escandalosa.
Makoto gargalhou. Admito, o que eu falei foi engraçado. Depois, me assustou:
-Não me diga que tem inveja dela.
-Por que eu teria, Makoto?
-Você sabe, Kazuko.
Senti meu coração acelerar. Espero que não seja pelo motivo que estou pensando. Isto durou um milissegundo, quando me defendi:
-Vocês instaurou as novas regras, quem sou eu para falar algo? Só devo me manter na minha posição de escrava e apenas concordar.
-Você só é minha escrava só quando lhe convém. Tipo agora!
-Você também só é meu dono quando lhe convém.
-Merda! – bufou, sentindo o “tapa”
-Já prestou atenção no quanto nossa relação é estranha, Makoto. Todo mundo se espanta com o jeito que me trata.
-Expliquei o porquê de fazer isso.
-Eu sei! É só que... – hesitei, pelo mesmo motivo: coração acelerado
-Fala. – disse, quase num sussurro
Ia falar “acabo ficando confusa”, mas isso seria declarar o que não queria. Então, fugi, falando outra coisa:
-Minhas amigas e parentes me chamam de sortuda. Só que não concordo com eles.
-E eu te trato tão mal assim?
-Não. Só não é “aquelas mil maravilhas” que muitos pensam.
Ele apenas assentiu e o assunto terminou. Foi ao trabalho e já retornou acompanhado. Ela sorriu ao cumprimentar Keiko e fez careta ao me ver sentada no sofá. Falou comigo por mera educação. Ficamos os três assistindo ao filme que escolhi. Kana reclamou o tempo inteiro. Em seguida, fomos jantar. Os outros dois conversavam com tanto entusiasmo que até cogitei entrar na conversa. O telefone os interrompeu. Enquanto Makoto foi atender, Kana resolveu me atacar:
-Querida, o que você está fazendo aqui?
-Jantando. – respondi, irônica
-Engraçadinha. Estou falando sobre estar fora do seu quarto.
-Só vou a meu quarto para dormir, assim como vocês.
-Aposto que manipulou o Makoto para ter essa liberdade. Também sei que pode sair durante o dia.
-Eu nunca pedi nada a ele. Que isto fique bem claro!
-Então por que ele trataria bem uma escrava pobre como você?
-Porque ele quer assim, são as regras dele. Conforme ele diz: Você é humana também.
-Não admito isso! Não é agradável jantar com alguém como você. Mandarei Makoto proibi-la de sentar a mesa conosco.
-Eu devo estar atrapalhando tanto o seu jantar romântico. Por isso está tão enfezada!
-Não fale comigo assim.
-Ora, mas quem começou?
-O que está acontecendo? – Makoto voltara
-Nada, querido. Só estamos conversando.
E o assunto que falavam antes retornara.
Quando terminamos de comer, Kana foi para o quarto na frente. Makoto e eu tiramos a mesa e arrumamos tudo, já que Keiko nos serviu e voltou para casa. Seguimos juntos pelo corredor e nos despedimos na porta dos quartos.
-Boa noite, Makoto. – disse indo beijá-lo, mas ele me impediu
-As novas regras valem para os beijos também, Kazuko. – deu-me um beijo na testa – Boa noite. – e entrou
E cá estou agora com aqueles sons que já citei. Só me resta dormir. Boa Noite!”


A mim também. Só resta o sono e preguiça.

Fechei o diário, apaguei o abajur e fui dormir.

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