domingo, 2 de julho de 2017

Capítulo 37 - Reais Sentimentos

Por sorte ou pela graça do direito ao descanso, o final de semana chegou. E com ele veio uma viagem à praia, a mesma que minha família tem casa de veraneio e já vim com Kazuko diversas vezes.
Eu tirei uns dias de folga no trabalho para ficar uma semana inteira aqui, em família. Na verdade, apenas eu, Kazuko e Takumi.
Claro que não li durante o dia, estava aproveitando os momentos. Só fui fazê-lo a noite, antes de dormir. Kazuko já estava apagada ao meu lado de tão cansada.
Minha leitura para aquela noite era do evento de confraternização do trabalho, que é feito uma vez ao ano. Era para Kana ter ido comigo, mas ela acabou viajando no período e eu fiquei sem par. Ou melhor, Kazuko virou meu par.

“Diário querido,
Ontem a noite eu tive um autocontrole tremendo. Fico imaginando a merda que daria se eu tivesse cedido e fraquejado.
Como disse antes, era à festa do trabalho do Makoto que eu iria. Em virtude da viagem da outra, eu fui a sortuda.
Tomei um banho, sequei meus cabelos e logo Makoto trouxe o vestido que usaria. Um lindo longo azul, com detalhes prata nas alças e no busto. Os sapatos e outros acessórios também prateados.
Tirei o roupão que usava e fiquei seminua diante dele, que só faltou se esconder. Resmungou:
- Podia ter se trocado no banheiro, Kazuko.
- Aqui não tem nada que nunca tenha visto, Makoto. Não sei que graça é essa.
- As coisas são diferentes agora.
- Não vai trair a Kana só de olhar para mim
- Não me provoque. – ele retrucou
- Tá bem. Fecha para mim. – virei de costas para ele, que puxou o zíper – Que tal estou? – dei uma girada
- Linda! – sorriu – E o cabelo? Fará o quê?
- Irei com ele solto mesmo.
- Nada disso. Senta aqui. – foi até a escrivaninha, que é um penteadeira na verdade – O colar vai sumir em baixo dele. Tem algo para prender?
Sentei e lhe dei o que pediu. Estava curiosa sobre o que faria. Vi seus dedos indo de um lado para o outro no espelho. No final, prendeu.
- Pronto. Uma trança embutida para a senhorita.
- Não dá para ver. – ele pegou o espelho grande e colocou atrás de mim, então eu vi – Adorei!
- Só falta o batom agora!
- Mas, não tenho nada que combine com o vestido.
- Ou o rosa ou o cor-de-boca, que é quase rosa também.
- Você entende mais disso do que eu.
- Eu tenho três madrastas e convivi anos com elas. – ele olhou para meu rosto no espelho – Vai com o rosa, já que colocou marrom na sombra. E leve para retocar, caso necessário.
Iríamos junto com Hiro, chefe de Makoto e Yoko, a esposa dele. (Quando me livro de uma, a outra aparece.) Eu já esperava que Makoto não voltasse sóbrio para casa. As madrastas me contaram que ele bebia demais algumas vezes.
Logo a carona chegara e a viagem seguiu quieta, já que a conversa ficaria para a festa. Era em um hotel chique. O salão fora reservado apenas para o pessoal do escritório onde Makoto trabalha e que não é pequeno. O local estava cheio e tinha uma pista de dança mais abaixo e as mesas à frente. Fomos cumprimentando as pessoas. Eu fui apresentada como uma amiga de Makoto, a fim de evitar comentários. Yoko nem falou nada sobre isso. Escolhemos uma mesa e sentamos, logo a conversa começou:
- Uma pena sua namorada não vir, Makoto. – disse um dos que estavam na mesa conosco
- Ela viajou. – Makoto respondeu
- Mas, pelo menos temos uma companhia boa aqui. Não podia vir a este evento desacompanhado pelo terceiro ano seguido. – comentou Hiro
E eles riram. Eu e Yoko mantivemos o silêncio. Então, o chefe de Makoto sugeriu:
- Vão lá dançar, jovens. Eu não tenho mais ânimo para tal.
Levantamos e eu me diverti. Deixei a música me levar e Makoto me acompanhou. E, naturalmente, ele me puxava para perto de si. Olha que nem tinha bebido ainda. O garçom passou servindo e ele pegou champanhes para nós.
- Vamos brindar! – gritou no meu ouvido com a voz sendo abafada pelo som – Pela minha felicidade e a sua.
Batemos as taças e bebemos um gole. A dança continuou até a bebida acabar. Voltamos e jantamos com os outros que estavam à mesa conosco.
E não aconteceu nada de muito interessante, só dançar que foi divertido. Era apenas eu, Makoto e a música. Na mesa, me sentia excluída. Observei Makoto virar copos e mais copos de bebida. Já estava falando demais e não andava direito. Passadas algumas longas horas até dançar ficou chato, pois ele já estava completamente bêbado. Nunca na vida achei que fosse ver alguém nesse estado.
Hiro e Yoko nos chamaram para ir embora. Eu só agradeci mentalmente, por só ter que aguentar a ressaca dele agora.
Deixaram-nos na porta do prédio. Consegui subir e entrar no apartamento com muita dificuldade para carregá-lo. Arrastei-o até o quarto e ia apenas jogá-lo na cama da forma como estava, mas aí ele começou a agir por conta da bebida, dizendo:
- Kazuko, dorme aqui comigo. – sentei-o na cama – Tô com saudade de você.
- Pare de falar merda, Makoto.
- Transar com a Kana é uma merda. Ela é passiva demais.
Eu queria mesmo crer que era efeito do álcool.
- Tá bom. Agora só deita e dorme. Eu vou pro meu quarto. Boa noite!
Terminei minha fala e me virei, contudo ele me puxou pelo pulso e roubou-me um beijo. Numa situação normal, teria rejeitado. Só que todos meus sentimentos guardados falaram mais alto e eu retribui. Ignorei o gosto terrível da saliva dele e permiti ser abraçada.
Quando nos separamos, ele fez uma careta e pôs a mão no estômago. Tive de ser rápida.
- Pro banheiro. Depressa! – dei um empurrão nele
Não é preciso ser um gênio para saber que ele vomitaria. Por sorte, tudo foi para a privada. Segurei as costas dele para que não caísse. Quando terminou, se jogou no chão do banheiro. E ele olhou para mim com uma cara de sofrido e ficaria por ali mesmo até amanhecer. Levantei-o e o despi, colocando-o embaixo do chuveiro.
- Vai tomar banho comigo? – perguntou
Eu estragaria o vestido se fosse dar banho nele. Tirei minha roupa, desfiz o penteado e entrei. Ajudei-o a retirar aquele cheio horrível de bebida do corpo. Acabei me limpando também. Mais um beijo roubado embaixo do chuveiro. Eu o queria. Ele também me queria, mas estava fora do seu estado normal. Eu, por estar sóbria, devia manter as regras cumpridas. Mas, não consegui me controlar. Cada toque me enfraquecia mais.
Secamo-nos e fomos a cama. Estávamos atracados e chegando nos finalmentes. Só que minha consciência resolveu me perturbar.
- Por que parou, Kazuko?
- Eu não posso continuar com isso. É contra a regra que me impôs. Não devia nem estar aqui.
- Esquece a regra. – ele ordenou
- Você não está em seu estado normal, não vou obedecer.
- Kazuko, estou mandando: me satisfaça agora.
Por mim, tinha montado nele, mas só fiz um oral até ele gozar. Estava tão bêbado que nem se lembraria no dia seguinte. O corpo dele ficou mais mole quando acabou. Apenas me agradeceu e lhe dei um último beijo antes de sair. Nem minha saída foi reclamada.
Fechei a porta do meu quarto e me senti suja por ter feito aquilo. Estaria encrencada de manhã. Abri a gaveta da escrivaninha e olhei o presente que Rin me deu no meu último aniversário. Um fogo interno me consumia e eu relutei em usar aquilo, mas a vontade estava forte demais.
Olhei rápido no manual como colocar a bateria e fantasiei ser o Makoto. Não demorei cinco minutos para estar completamente acabada. Fiquei feliz por alguns segundos e depois chorei. Era bom, mas vazio.
Depois disso, eu dormi. Acordei com a luz do sol me incomodando. Guardei o vibrador no mesmo lugar, após limpá-lo. Vesti uma roupa e abri a porta do quarto do Makoto e vi que ele ainda dormia. Fui fazer o café da manhã, em seguida levei para ele no quarto. Chamei-o, que despertou resmungando:
- Ah, que dor de cabeça. Precisava mesmo me acordar agora?
- É só para o desjejum, depois você pode dormir.
- Acho que eu bebi demais ontem. – trouxe a bandeja – Aconteceu algo? Por que eu tô pelado?
- Você vomitou e eu te dei um banho. Mas não conseguiria te vestir de novo.
- É só isso mesmo? – esticou o pescoço – Suas roupas estão lá também.”

Eu lembrava vagamente do que aconteceu, em flashes de memória. Só que tudo era confuso. Sabia que saíra da festa carregado, lembro de vomitar, de estar embaixo do chuveiro e das sensações de prazer, após isso só de manhã. Foi por isso que perguntei.

“- Não podia molhar aquele vestido. Eu te coloquei na cama e sai.
- Não está contando a história toda! Tem uma lacuna, tenho certeza. Fala!
Olhei para baixo, respirei fundo e soltei receosa:
- Juro que não quebrei a sua regra de que não deveríamos transar, mas foi quase ontem. Você estava muito alterado.
- O que fizemos?
- Trocamos umas carícias e eu fiz um oral em você. – não podia olhar para ele – Já sei, não contarei à Kana.
- Acredito. Outra coisa: eu falei algo?
- Não. – menti, olhando convicta nos olhos dele, tomando coragem – Só me agarrou mesmo.
- Muito bem. – abocanhou um pedaço de bolo
Estava aliviada por dentro. A pior parte passou. O problema seria a Kana agora.
- Com licença, Makoto. Vou tomar café e meu banho matinal. – fui em direção à porta
- Ei, Kazuko. – me virei – Obrigado por cuidar do bebum.
- Não foi nada. Depois lhe trago um remédio para a dor de cabeça.
Estou aqui agora comendo e lhe contando o que ocorreu.
Achei que fosse ser punida pelo que fiz, porém Makoto compreendeu que não me aproveitei dele daquela forma.
Ainda estou com peso da mentira, mas é melhor que aquela fala morra comigo.”

Eu entendia e sabia o que tinha trancado naquele momento. Se não fosse por ela, provavelmente teríamos transado, porque eu queria isso. Lamentei de não lembrar, ou melhor, de não saber. Minha consciência não queria trair a Kana, contudo minha vontade era dormir como Kazuko, todos os dias que quisesse e terminar de vez com a insatisfação que tinha com a namorada.

Fechei o diário e Takumi, que dormia no meio da cama, se mexeu. Coloquei o diário na mesa de cabeceira, apaguei o abajur e fui domir.