terça-feira, 31 de outubro de 2017

Capítulo 38 - Briga

A semana de viagem passou mais rápido do que percebi. É sempre assim!
Voltei a trabalhar quase me arrastando de tanta preguiça. Chegar a casa foi uma alegria, ainda mais com Takumi feliz ao me ver. Tomei um banho e fui à sala junto com minha esposa, aproveitando para ler. Busquei pelo diário em minha maleta e ele não estava lá. Procurei uma, duas vezes. Depois indaguei:
- Kazuko, você viu o caderno? – chamamos assim para ninguém notar
- Não levou para o trabalho hoje? Eu não mexi, tem que estar ai.
- Não está. Já olhei três vezes.
- Será que não esqueceu na gaveta?
- Só o coloco aqui, leio e guardo.
- Pode ter caído, amor. Amanhã você pergunta por lá.
- Eu não posso perdê-lo. Sabe disso!
- Sei, Makoto. Fique calmo que logo acha.
- Assim espero.
Sem poder ler, fui assistir a um filme com minha esposa.
No dia seguinte, perguntei ao meu chefe se não vira, procurei nos achados e perdidos, procurei na minha mesa e nada. Já estava sem esperança, provavelmente caiu na rua e alguém está lendo cenas eróticas entre eu e minha esposa.
Estava aceitando a situação, quando sinto alguém cutucar em mim. Era um dos meus colegas de trabalho, o mesmo que me pegou lendo o diário e eu menti para ele dizendo que era um livro. Ele segurava algo na outra mão e disse:
- Está procurando isso? – e me mostrou o caderno
- Onde encontrou?
- Na verdade, caiu de sua maleta ontem. Você foi embora e ela ficou ao lado da sua cadeira, caído. Como vi que era aquele livro, levei para casa, ia te devolver hoje de qualquer forma. Mas acabei lendo também e, bem... Acho que me entende!
- Obrigado! Não sabia o quanto estava louco atrás disso.
- E me perdoe ter lido coisas tão pessoais da sua escrava. Mas, como ela te deixou ler isto?
- É da minha esposa, que era minha escrava.
- Ah, sim. – riu – Vê se guarda direito da próxima vez.
-Claro!
E fala com ela que daria um bom livro. – e voltou para sua mesa
Respirei aliviado, pelo menos não o perdi tão longe. Eu tinha muito trabalho naquele dia, então, coloquei o diário na minha bolsa e só fui ler mesmo em casa, antes de dormir. O trecho do dia era sobre o momento mais conturbado da relação (se é que podia se chamar assim) entre Kana e Kazuko.
“Querido diário,
É madrugada e só agora consegui me acalmar e conter o choro por conta do que aconteceu. Estou cheia de roxos e cortes feitos por vidro em meu corpo. O motivo? Eu e Kana tivemos uma briga, fisicamente falando. Ela quis tirar satisfação comigo, por razões de: ‘eu sei que você dormiu com o Makoto, sua puta.’
Porém, vamos por ordem cronológica. Saí para almoçar com a Rin e a Namie de novo.  E claro, elas me contaram como ia o bebê e o quanto estavam ansiosas com tudo. Eu contei-lhes sobre o ocorrido na festa de trabalho do Makoto. Rin comentou, por fim:
- Ele não te puniu pelo que fez?
- O que faria se estava bêbado? – retruquei
- E você, - era Namie – não ficou na vontade?
- Fiquei e muito, tanto que até usei o vibrador.
- É sério? – ambas indagaram curiosas – E como foi a experiência?
- Boa. – respondi com desânimo – Fantasiei com ele e quando gozei, me senti vazia, estranha. Faltava algo.
- Você está apaixonada por ele, não é? – questionou Rin, pegando em minha mão
- Queria muito dizer que não. – senti uma lágrima cair – Mas estou.
- E logo neste momento em que ele está compromissado. – Namie completou
- Sei que deve ter relutado muito contra este sentimento e percebeu o quanto lhe é ruim. E claro, falar para ele não é uma opção.
Neguei com a cabeça, concordando com ela.
- Fico imaginando se a Kana descobre, tanto disso quanto das duas noites. – desabafei
- Ela é mais perigosa que o Makoto agora. Pode manipulá-lo para fazer tudo contra você.
- Sei disso. Mesmo com a promessa dele de que isso não ocorreria.
- Só podemos lhe desejar forças, Kazuko. – Namie segurou minha outra mão
- Eu sei. Só de poder contar tudo para alguém, já me sinto melhor.
Após esta conversa, mudamos de assunto.
Fiquei a tarde inteira fora, só cheguei perto de escurecer, ela já estava lá, com todas as pedras na mão dela.
- Onde estava, queridinha?
- Passeando com umas amigas.
- Amigas é? Achei que fosse sozinha e pelo visto chegou fora do horário estipulado.
- Na verdade, não! Está escurecendo agora.
- Falarei com Makoto sobre isso. Não pode quebrar as regras. – levantou-se e me pegou pelo braço e continuou, em tom mais baixo – E eu sei que está descumprindo uma.
- E qual seria? – ironizei, louca para destilar o veneno
- Não se faça de sonsa, garota. Acha que não sei o que houve naquele ‘aniversário de escrava’ e não deixarei isto barato.
- Tire satisfação com o Makoto e não comigo. E para sua informação, nós também transamos quando voltamos da festa do trabalho. – menti
- Como é que é? – ela apertou meu braço
- Isso que você ouviu. Não se faça de surda! Ele voltou completamente bêbado e acabou acontecendo.
- Sua puta maldita! – gritou
E ela fez algo que me assustou. Jogou-me para frente e eu cai em cima da mesa de centro, que é de vidro, e que acabou quebrando com o impacto. Eu senti os cacos cortarem algumas partes das minhas costas.
Não tive nem tempo de reagir, Kana veio para cima de mim, puxando meus cabelos e me dando diversos tapas. Não tinha como me defender. Keiko até tentou tirá-la, mas foi afastada e xingada:
-Não se meta, sua empregada de merda!
Tentou de novo e de novo, mas sem sucesso. Enquanto isso, não via nada por entre meus cabelos, estava presa pela cintura e tomava tapas e mais tapas. Só uma pessoa poderia me salvar e nem sei se demoraria a chegar.
A porta abriu e Kana estagnou, apavorada com o som. Era ele entrando. Para tentar se safar, pegou um caco de vidro e cortou o próprio supercílio. E como ela deixou de prestar atenção em mim, foi a minha única chance. Minhas pequenas brigas ao decorrer dos meus dezoito anos me serviram para esse momento. Encaixei um soco na base do nariz dela, que reclamou de dor e afrouxou a prisão. Empurrei-a para a lado e me levantei, ajeitando os cabelos. Então, Makoto falou, se aproximando:
- O que está acontecendo?
- Ela me atirou na mesa de centro sem motivo aparente, por sorte só machuquei o supercílio e o nariz. – Kana foi mais rápida
- Keiko, pode me dizer o que houve?
- Só as ouvi conversando lá da cozinha. Ouvi o estrondo do vidro se partindo e corri para cá. Kana estava em cima da Kazuko, batendo nela. Tentei separar, mas acabei sendo ferida também.
Eu vi o olhar que ela lançou a Keiko, com um ódio tremendo por trás. Nem sei qual era o meu estado, mas Makoto me abordou:
-Você está bem? – limpando algo da minha boca
- Ei, claro que ela está bem. Olha só o meu nariz! – de novo, ela me atropelou
- Keiko, traz o kit de primeiros socorros e gelo, por favor. – disse sentando a Kana no sofá – Kana, qual foi a razão dessa briga?
- Não sei, querido. – respondeu chorando falsamente – Acho que ela tem inveja de mim ou talvez tenha ciúme de você. Até as duas coisas!
A falta de noção dela é impressionante. Eu era a vítima, mas ela fazia aquele teatro ridículo. Era a minha palavra contra a dela. E mesmo com minhas costas ardendo, ele quis ouvir a ela. E continuei acompanhando aquele monólogo de merda dela.
- Ela chegou toda esquentada e nervosa da rua, resolveu descontar em mim.
Keiko chegou com a maleta de socorros e o gelo.
- Cuida da Kazuko para mim, por favor. E pode deixar que eu arrumo isso. – ele pediu e me olhou – Depois conversamos sobre isso.
- Vamos, Keiko. Não quero ficar aqui.
Fomos até o meu quarto. Tirei a minha blusa para ela poder limpar os cortes com uma toalha molhada. E como ardeu quando passou o remédio. Enquanto isso, conversávamos:
- O que fez para ela te atirar na mesa?
- Você viu?
- Vi. Só não escutei a conversa.
- Menti sobre uma coisa: que eu e Makoto transamos na noite da festa.
- Por que fez isso?
- Não sei! Eu queria ver a cara dela, acho.
- Essa moça é perigosa, Kazuko. Não mexa com ela!
- Não vou fazer como os outros e apenas aguentar calada. Se ficarmos quietas, ela continua rebaixando a mim e a você. Faço por nós duas.
- Obrigada! – ela sorriu – Só não falo por medo de ser demitida.
-Keiko, - me virei para ela – acha que Makoto faria isso?
- Ele não, mas ela sim. E se eles casarem?
- Não me fale sobre isso. Acho que iria sofrer mais ainda. Não suporto vê-la ao lado dele. Makoto ficou tão diferente perto dela.
- Por que está falando isso? Sente algo por ele?
- Está tão na cara assim?
- Eu vejo como olha para ele todos os dias no café da manhã. Não lhe culpo, o Makoto é um ótimo rapaz. E vocês ficariam lindos juntos.
- O Koishiro também pensa assim.
- Então, por que convidou a Kana para o aniversário dele?
- Foi a pedido dos pais dela.
- Entendo. Mas precisa falar a ele o que sente.
- Não, Keiko. Tenho medo do que pode acontecer se fizer isso.
- Nunca vai saber se não tentar.
- Não enquanto ele estiver com a Kana.
Fiquei em meu quarto e jantei ali mesmo. Dormi cedo e fui acordada com uma voz masculina me chamando. Era Makoto!
- Desculpe te acordar agora. É que a Kana não desgrudou de mim até adormecer.
- Tudo bem. – bocejei
- O que aconteceu de verdade?
- Achei que tivesse acreditado nela.
- Você não a agrediria a não ser para se defender. Bem ou mal, você sabe dos limites.
- Diferente dela. – ele pôs a mão em meu rosto e eu comecei – Eu cheguei e ela já estava aqui, achando que estava atrasada. Falou comigo sobre as regras e me pressionou sobre a regra de não dormimos juntos. Sabia que a descumpri.
- Espera! Ela comentou algo sobre o dia da festa do trabalho. Você mentiu para mim sobre?
- Não, menti para ela. Para descarregar essa raiva dela. Só não esperava que ela me jogasse na mesa. Subiu em mim e começou a me bater. Quando você chegou, ela ficou sem ação, se feriu com um dos pedaços de vidro e aproveitei a distração para acertar o nariz. Dai para frente, já sabe.
- O que faço com vocês duas? – ele soltou
- Desculpe tê-la provocado de propósito.
- Eu podia te punir por isso.
- Pode me punir, se quiser. Não me arrependo do que fiz.
- Vou tirar sua “liberdade diurna” por um mês.
- Tudo bem.
- E tem mais uma coisa: a noite do meu aniversário, você passará aqui.
Baixei a cabeça, segurando o choro.
- Ei! – falou levantando meu queixo – foi você quem pediu.
- Eu sei, mas, poxa, logo o seu aniversário?
- Eu passo o dia com você.
- A Kana vai deixar muito.
- A gente foge dela.
E rimos.
- Ela vai dar um jeito de nos encontrar.
- Eu juro que almoço com você no meu aniversário. Alias, vai ter tanta gente aqui que vai gostar de ficar no quarto.
- Se você diz...
- Preciso voltar. Senão ela acorda. – se levantou e antes de sair, questionou – Vai ficar bem? Eu não gosto de te ver triste.
- Vou sim. Me recupero!
- Boa noite!
Respondi a tentei pegar no sono em vão, por isso vim escrever-lhe.
Até!”
Fechei o diário e coloquei na mesinha.
E é claro que contei o caso da “perda do diário” a Kazuko. E é claro que ela riu de mim. Safada!
Apaguei o abajur e fui dormir.

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