quinta-feira, 30 de abril de 2015

Capítulo 24 - Depressão

Passaram-se alguns dias e eu não tive tanto tempo para ler o diário. As coisas no escritório me deixavam cansado. Só tinha disposição para ler uma anotação por dia. Minha sorte é que elas eram bem pequenas.
Kazuko estava passando por um momento depressivo, ainda se mostrava muito abatida com a perda do bebê. Os dias dela já eram sempre os mesmos, depois do acontecido ela não tinha ânimo para nada. Ela se comportava bem diferente do que realmente é. Agora ela está brincando com o nosso filho e ele só sorrisos.
Tirei o diário da gaveta, sentei na cama e fui ler outra anotação.
Querido diário,
Os meus dias parecem cada vez mais arrastados. Os minutos e as horas passam muito mais devagar do que realmente eu sinto. Fico bastante tempo devaneando ou tentando me distrair, quando acho que se passaram horas foram apenas alguns minutos.
O que aconteceu alguns dias atrás ainda perturba a minha mente. O pesadelo e depois todo aquele acontecimento onde perdi o bebê. Makoto em momento algum me culpou ou me deu um sermão, dizendo que não me cuidei direito e contrariei as regras explícitas dele.
Ele também não tem me chamado para o quarto nos últimos dias. Nós mal temos conversado, só nos cumprimentamos.”
Eu sabia que ela precisava desse tempo, desse espaço. O baque que ela tomou foi bem mais forte que o meu. Afinal, foi ela quem engravidou e perdeu depois. Eu apenas assisti tudo. Não queria importuná-la fazendo-a ficar no quarto comigo. Era óbvio, por conta das circunstâncias, que era algo que ela não gostava.
Ela realmente precisava de um tempo, mas já começava a achar que era “tempo demais”.
Ele até pergunta como estou e eu respondo com um “Bem”. Monossilábico, seco e que acaba com qualquer possibilidade de continuar a conversa. Apenas assente e continua a comer.
Apesar de tudo, a Keiko ainda é uma ótima companhia. Com ela o tempo não é uma coisa amarga como quando estou tentando pegar no sono. Keiko consegue arrancar alguns sorrisos e risadas minhas, porém ela sabe bem o quanto estou abatida. Até tenta me animar, só não adianta muito.
E desta forma, como descrevi nos outros dias, meus dias se passaram.
Eu realmente estou em um momento depressivo e não tenho ideia de como sair.”
Eu já não aguentava mais vê-la dessa forma. Kazuko sempre foi sorridente e cheia de palavras. Mesmo sendo pobre e ter virado escrava, ainda encontrava maneiras de sorrir. Não suportava mais vê-la com aquela cara triste, se arrastando daquele jeito. Sentia saudade do sorriso e da risada dela, daquelas palavras animadas que dizia.
Agora ela ficava com aquela cara fechada, monossilábica e séria. E até eu estava começando a ficar mal com aquilo. Tinha que fazer algo antes que começasse mesmo a me afetar ou Kazuko tomasse uma medida drástica.
Com tudo isso, eu também perdi noção do tempo. Olhei o calendário e notei que meu aniversário de dezoito anos é daqui alguns dias. E pela primeira vez na minha vida não estou nem um pouco animada quanto a isso.
Meu aniversário sempre me foi motivo de alegria. Pessoas reunidas por minha causa, presentes e bastante comida. A única ocasião onde os pobres não tem miséria, porque sempre queremos que sejam coisas inesquecíveis. Um momento para esquecer a nossa vida ruim, mesmo que só um pouco. Mas, este ano, o que eu tenho a comemorar? Eu sou escrava e acabei de passar por uma situação horrível.
Gostaria muito de poder voltar no tempo e mudar o que aconteceu. Não o que aconteceu na semana passada, mas sim o que foi há quase seis meses. Queria de alguma forma impedir que Makoto viesse e me comprasse. Com certeza tudo seria diferente se aquele dia fosse diferente. Estaria animada como sempre fui e muito empolgada cursando a faculdade.
Eu queria passar o aniversário com a minha mãe e com as minhas amigas. Poder ficar jogando conversa fora, rindo de coisas bobas e esquecer dos problemas. E mais tarde, poder abrir os meus presentes e me sentir mais feliz ainda.
Pena que nunca acontece como queremos. Agora eu estou aqui presa. Tudo o que mais quero é minha liberdade, só isso! Voltar a ser aquela Kazuko feliz, sorridente e livre.
Infelizmente, nada disso depende de mim.”
Segui para a anotação seguinte, que diferente da que acabara de ler, era pequena.
Querido diário,
perdoe-me o desabafo ontem, estava precisando. É só com você que posso fazer este tipo de coisa. Só me sinto confortável aqui.
Meu dia de hoje foi como sempre, acordei, tomei café da manhã, ajudei Keiko nos serviços de casa... Uma coisa estranha é que Makoto chegou bem mais tarde do que o habitual. Ele disse a Keiko que acabou ficando um bocado ocupado no escritório. Eu não acreditei muito não! Não sei o porquê, mas eu senti que ele mentiu. Ele não aparentava cansaço como descreveu.
Aí tem algo!
Agora, eu dormirei.”
Neste e em mais alguns dias que se seguiram, eu cheguei um pouco mais tarde em casa. Justamente porque estava tomando uma atitude. Uma atitude pelo bem de Kazuko.
Ela iria ter um aniversário que nunca esqueceu.

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