sexta-feira, 24 de abril de 2015

Capítulo 1 - Aluno novo

Amélia chegou a academia para mais uma aula de karatê. Fazia pouco mais de um ano que a garota de 16 anos ia para lá dois dias na semana.
Ela não era muito boa. Nos treinos em dupla ou em grupo, ela realizava tudo corretamente. Porém, quando ela ia para um combate era uma negação. Não conseguia fazer nada. Sempre perdia!
E por conta de tudo isso, ela era a pior aluna. E também a que mais sofria bullying. Amélia não ligava, se divertia bastante nas aulas.
E neste dia havia um rosto novo, um novo aluno. Ele se apresentou devidamente em frente a turma. Seu nome? Marc. As meninas logo ficaram loucas por ele, assim como eram por todos os outros.
E era hora de formar as duplas para treinar. Como sempre, todos se juntando e Amélia ficava de lado. Talvez fosse assistente do professor de novo.
Muitos queriam ser a dupla de Marc. Ele recusou todas as propostas, a maioria de garotas. Ele vasculhava o tatame a busca de alguém. E encontrou! Se dirigiu a menina isolada no canto:
–Olá! Eu já me apresentei lá na frente, mas eu sou Marc.
–Eu sou Amélia. Prazer! - disse envergonhada
–Ninguém veio falar com você. - Ele perceber que ela era excluída - Quer ser minha dupla hoje?
–Claro! - respondeu mais sorridente e radiante do que nunca
Os dois foram mais ao centro. Os olhares se dirigiam a Amélia.
“O que esse garoto tem na cabeça?”, pensou um.
O professor brincou com ela:
–Ora, Amélia, alguém escolheu você. Perdi a minha assistente hoje. - olhou para Marc – Se deu bem né? Essa menina é boa!
Marc não evitou de questionar:
–Por que não fazem dupla com você?
–É que o pessoal aqui não gosta muito de mim. - Ela foi sincera – Me rejeitam, porque eu não sou boa em combate.
–Não tem nada de errado nisso. Nada que um pouco de treinamento não resolva.
Amélia sorriu para ele, como era simpático.
Em seguida, o professor iniciou a aula. Este exercício era para conhecerem e fazerem alguns golpes.
Amélia ajudava bastante Marc quanto a posição ou o jeito de chutar, entre outras coisas.
Terminada esta parte, vez das lutas e as duplas foram mantidas para tal. E lá foi Marc contra Amélia. O garoto estava um pouco receoso, ela era menina. O professor disse que não havia problema. Mas o seu cavalheirismo mandou maneirar um pouco.
A luta entre eles começou e nem demorou a acabar. Amélia tentou dar um soco e mais outro, mas Marc deu-lhe um chute e mantendo a rotação do corpo acertou mais um. Só se viu a garota se distanciando e parando perto da ponta da arena.
Imediatamente vendo o que fez, correu para a acudi-la. O professor foi também. Por sorte, ela estavam bem, apenas dolorida com a queda.
Marc pediu um zilhão de desculpas a ela.
Mais alguns dias de aula se passaram. Marc fazia dupla com Amélia. E depois aconteciam as lutas, algumas foram com ele, outras não. Ele sempre observava a menina e começara a montar o perfil de lutadora dela.
Amélia era excelente na teoria. A prática que ela não era boa. Marc viu que ela não tinha tempo de reação rápida. Já ele, que conseguia olhar para si, era o contrário dela.
Ocorrida a última aula da semana, o garoto pensou e pensou... Como ajudar Amélia? E na semana seguinte, ao final, abordou-a:
–Amélia, posso te perguntar uma coisa?
–Diga, Marc! O que?
–Podemos treinar juntos?
Se fosse outro, falaria gaguejando e ficando totalmente rubro. Contudo, Marc era determinado.
–Como assim?
–Na minha casa, tem uma sala que meu pai fez para mim. Eu posso te ajudar com o combate e você me auxilia com as posturas. Que tal?
Um sorriso se formou no rosto da jovem.
–Eu treino com você sim! Vai ser divertido.
Marcaram de começar no dia seguinte. Marc passou o endereço a ela. No dia marcado, a tarde, Amélia bateu a porta dele. Um senhor atendeu:
–Boa tarde, mocinha!
–Boa tarde! Aqui é a casa do Marc?
–Sim. Mas a pergunta é o que quer com meu filho?
–É que eu vim aqui para treinarmos karatê juntos.
–Ah, ele me falou de ti. Amélia, não é?
–Sim!
–Eu sou Ralph, pai de Marc. Ele está no salão de treino dele. Eu te levo lá!
Amélia acompanhou Ralph. Marc, que estava todo suado, já que golpeava o saco de pancadas, cumprimentou-a:
–Amélia, que bom que chegou.
Ele viu que tinha alguma coisa diferente nela, havia algo pendurado em seu nariz.
–Não sabia que usava óculos.
–Ah, é que nas aulas eu coloco as lentes de contato.
–Fica bem melhor com os óculos.
–Obrigada! - falou timidamente e ajeitando a armação com o dedo.
A jovem trocou de roupa e eles começaram a treinar.
Assim eles fizeram ao correr dos dias. Divertiam-se e aprendiam. Conheciam-se mais ao conversar durante os intervalos. Mantinham-se juntos nas aulas de karatê. Cada dia mais próximos e a amizade entre eles surgiu. Os treinos deixaram de ser os únicos momentos em que se viam. Passaram a sair para o shopping ou cinema de vez em quando. Quem via aqueles dois, percebia que algo novo aparecia. Todos enxergavam, exceto os próprios.
Marc se mostrou um menino simpático, determinado, excêntrico e companheiro.
Amélia revelou-se tímida, bem fechada em seu mundo, boa ouvinte e amiga.
Eram bem diferentes um do outro, mas se atraíram, por ter um ponto em comum: a luta.
E os treinos que eles mantinham já estavam dando resultados. Amélia raramente pedia para Marc consertar suas posturas. A menina por trás daquelas lentes passara a observar melhor seus adversários, achar e utilizar seus pontos fracos a seu favor.
Essa evolução apresentou sua efetividade em uma das aulas, na parte do combate.
Amélia foi contra outra garota, que era razoavelmente melhor do que ela. Parecia mais uma daquelas batalhas rotineiras em que a excluída perde e vira motivo de risada dos outros. Contudo, agora ela estudava todas as movimentações dos vários alunos. Sabia, tinha previsão do que ia acontecer.
Sua adversária avançou sobre ela, com a mesma sequência de ataques com a qual começa. Amélia, se aproveitando isso, desviou de todos os socos. Quando a outra abriu a guarda, foi sem pena em seus golpes. Por pouco a garota não desmaia.
O professor ficou muito feliz de, pela primeira vez, declarar Amélia vencedora. O resto da turma aplaudiu. Amélia ajudou a outra a se levantar. Foi falar com Marc em seguida. Ela recebeu um abraço forte e um “parabéns” da parte dele.
No dia seguinte, Marc e Amélia estavam passeando, distraídos, olhando as vitrines. Em uma loja de joias e bijuterias, os olhos da menina bateram em um cordão com um pingente que era luvas. Não evitou de dizer:
–Nossa, que lindo!
–Quer para você? - Ele perguntou de repente
–Ah, não precisa, Marc.
Ele viu o brilho no olhar dela. Sem nada dizer, puxou-a para dentro da loja. Pediu o colar ao vendedor, que trouxe e mostrou. Amélia não perdia o encanto pelo objeto, apesar de falar umas dez vezes que não era necessário. Ao ouvir o preço, ela se surpreendeu.
–É muito caro! Marc, não precisa. É sério!
Claro que o menino ignorava os protestos dela. Daria aquilo como um presente. Comprou, agradeceu ao vendedor e saiu. Amélia estava irritada com a teimosia dele. Marc retirou o colar da caixa e falou:
–Deixa eu colocar em você.
Ela apenas virou-se de costas e segurou o cabelo. Ele pôs o cordão nela, que indagou:
–Por que me comprou isso?
–É um presente! Pela sua primeira vitória ontem.
Ambos sorriram e sentiram seus corações acelerarem neste momento. Amélia, completamente envergonhada, disse “Obrigada!”.
–Só não se acostume com tantos presentes. - foi o que Marc respondeu.
A noite, antes de dormir, os pensamentos dos dois foram povoados pelo outro. Então, perceberam o que sentiam.

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