segunda-feira, 26 de junho de 2017

Capítulo 36 - Serviçal?

Depois do meu aniversário de casamento, os dias seguintes seguiram normalmente, lê-se: com muito trabalho e leitura do diário, é claro.
Passaram-se mais semanas no diário, estava na parte em que a minha relação com Kazuko melhorara bastante e com a Kana dava cada dia mais certo. Apesar do pouco tempo de namoro, sofria pressão para desposá-la. Vinham mais dos pais dela do que do meu. Ele não parecia satisfeito.
Cheguei mais cedo em casa, tomei um banho e fui ao quarto ler.

“Olá Diário,
Hoje foi aquele bendito chá que a Kana fez aqui com as amigas, pois elas queriam conhecer o Makoto.
 Pobre da Keiko e de mim, que tivemos que fazer toda a comida para elas. (Eu ajudei para não deixar a Keiko sobrecarregada.) E Kana foi bem explícita nas regras: nós devíamos servi-las.
No final da tarde, umas 16h, ela chegou e logo vieram as ordens:
- Já está tudo pronto? – sim, ela não nos cumprimentou”

Kana insistira muito para ter essa reunião com as amigas dela. Muitas não eram da época de infância e colégio, então queriam me conhecer. As outras? Elas queriam saber a quantas andava a minha vida.
Eu só deixei-a pedir a Keiko fazer coisas demais, acabou sobrando.

“- Boa tarde, Kana. – respondi irônica – E sim está tudo pronto.
- Querida, falei com a Keiko e não com você. – patada pouca é bobagem – Por que não está no seu quarto? Seu lugar é lá!
- Só estava auxiliando a Keiko. Era muito para ela sozinha.
- É o trabalho dela, não? Tem que agradecer ao Makoto este emprego.
- Senhora, não vejo nada demais nela me ajudar. – Keiko disse, baixando a cabeça, Kana sempre a humilhava também – Tudo está pronto!
- Arrumem a mesa então.
Assim fizemos e as amigas delas foram chegando e os comentários eram assim:
- Nossa! Que apartamento grande o dele.
- Uau, amiga! O namorado é bom de vida!
Por sorte, elas não haviam me notado. Ainda.
Elas se sentaram nos sofás da sala e puxaram algumas cadeiras da mesa de jantar. Elas estavam sentadas e conversavam sobre tudo, até sobre mim:
- Ele tem uma escrava, não é, Kana?
- Tem sim!
- E isso não atrapalha o namoro?
- Por que atrapalharia? Ela é só uma coisa que o satisfaz, mas agora ele tem a mim.
E as amigas riram.
- Coitada! Perdeu a única função que tinha na vida.
- Eu acho que não. – disse Kana baixinho – Tenho certeza que eles passaram uma noite juntos umas semanas atrás. Ele inventou uma desculpa de “1º aniversário de dono”.
- O quê? Você não perguntou a ele?
- Claro que não.
Então, Keiko, educadamente, interrompeu a conversa:
- Posso começar a serví-las? – todas assentiram e ela me chamou – Pode trazer.
Agora elas me notariam. Cheguei com os sanduíches que fizemos. Keiko informou qual era o sabor enquanto servia a bebida. E a Kana resolveu nos apresentar:
- Esta é Keiko, a empregada. – e se virou para mim, ai não – E esta é Kazuko, a escrava de Makoto. – e a voz da safada saiu tão natural
Um instante de silêncio, ninguém acreditava no que acabaram de ouvir. Ela reforçou, explicando:
- Ele deu diversas liberdades a ela, como ficar livre em casa e até poder sair.
- Mentira, amiga?
- É verdade. Não é, que-ri-da?
Que filha da puta. Eu me senti obrigada a responder.
- É sim. Eu tenho “liberdade diurna”.
- Que esquisito. – uma afirmou – Isso é um passo mais fácil para ela fugir.
Será que as pessoas podem se referir a mim diretamente?
- Nunca faria isso. O Makoto confia em mim!
- Que tolinha. Está apaixonada por ele é?
- Eu também penso isso. – Kana riu – Só porque ganhou uns privilégios... Vocês são tão rasas.
- Alias, -  outra começou – o chama pelo nome?
- Eles dois se chamam pelo nome.
Caretas de reprovação. Kana usou como desculpa o seguinte:
- Também não entendo. Ele diz que ela deve ser tratada como nós, pois também é humana.
- Se fosse outra época, ele podia ser preso até. Sorte dele estarmos em tempos mais brandos.”

No início deste período de escravos comprados, era extremamente proibido que eles recebessem qualquer liberdade condicional. E quem tivesse os mesmos pensamentos que eu acabava, preso por ser considerado um revolucionário.
Foram estes, os revolucionários, quem conseguiram melhorar um pouco as coisas para os escravos, mesmo que muitas delas sejam facultativas.
Infelizmente, muitos ainda têm as ideias iniciais ainda enraizadas em si.

“Eu me afastei, pois terminara de servi-las. Continuei ouvindo a conversa:
- Talvez seja porque o pai dele é casado com as três escravas. – completou Kana
- Quê? A coisa é de família então?
Assim como eu, as madrastas e o pai de Makoto sofrem muito preconceito. Tanto por serem polígamos e por elas serem ex-escravas.
- Por que está com ele, amiga?
- É inteligente, culto e também têm todas essas posses. Dá para perdoar esse detalhe.
Eu nem acreditava no que escutava. Até eu poderia citar melhores qualidades do Makoto, que além de inteligente, é amigo, companheiro e sempre tenta me fazer esquecer o que eu sou. Ele me trata talvez como alguém da família.
E, sim, eu sou uma “tolinha” por ter me apaixonado por ele. Tentei e tentei mentir sobre isso, mas depois do primeiro aniversário de escrava não podia mais insistir que não.
E não contei isto a ninguém, eu posso ser muito julgada. Por enquanto, eu tento esconder com minhas ações, porém a cada dia é mais difícil. Sei bem que isto nunca dará em nada. Sei muito bem que sofrerei por conta por culpa desse sentimento. Só que não há uma forma de desligar.
Ouvi o som da chave na porta e a maçaneta girar, era ele que chegara. No meio daquela barulheira de fofocas, só eu percebi. Fui cumprimentá-lo.
- Boa noite, Makoto. – abracei-o e foda-se o que elas pensam
- Boa noite, Kazuko. – deu-me um beijo na testa e continuou, mexendo em meus cabelos – Já está todo mundo ai? – assenti – E que cara é essa?  - não escondia a insatisfação
- O mesmo de sempre. Não me acostumo.
- Me deixa ir socializar, queria tomar banho, mas nem isso tô podendo. – me desvencilhei dele – Traz algo para eu comer, por favor.
- Claro.
Abandonou a maleta em um canto e foi falar com as pessoas. Logo levei o que pedira. E durante a conversa na porta, pude escutá-las comentando:
- Olha lá.
- Olha isso.
- Gente...
Entreguei um suco e dois sanduíches a ele, que já estava ao lado de Kana, sentado.
- Obrigado, Kazuko.
- De nada, Makoto. – sorri e ele correspondeu
E eu tive bocas arregaladas para o meu deleite. Retornei à companhia de Keiko, e claro, continuei ouvindo a conversa. As amigas de Kana perguntavam com o que ele trabalhava, da família, dos relacionamentos antigos, de mim e quais as pretensões que ele tinha com Kana.
- Claro que pretendemos nos casar. – ela respondeu por ele, que fez uma careta – Já adiamos por tempo demais. E já temos uma aliança de compromisso. Olha!
Sons de surpresa e de surto. A aliança em questão? A mesma que usei na viagem com Makoto e notei que ele estava com a sua também. Não sei exatamente qual foi o motivo, mas vê-la usando aquele anel tocou-me de um modo ruim. Imediatamente senti meus olhos queimarem, fechei-os com força, tentando segurar. Porém, percebi que não adiantaria e sai depressa em direção ao meu quarto. Todos pararam o que faziam para me ver passar. Keiko veio atrás de mim e Makoto também.
- O que houve, Keiko? – ele indagou da porta
- Eu não sei, Sr. Makoto.
- Só me deixem sozinha. – gritei com o choro abafado pelo travesseiro
- Keiko, pode nos deixar a sós, por favor?
- Claro. –  saiu em seguida
Ouvi a porta do quatro bater e Makoto se aproximar e sentar ao meu lado na cama. Eu me levantei e virei para ele.
- Pode começar. – ele foi incisivo – Sei que não foi nada.
Olhei para baixo, com medo de dizer aquilo. Seria dar um atestado de apaixonada para ele. Então, apelei para uma pergunta:
- Quando você e a Kana começaram a usar as alianças?
Ele baixou a cabeça antes de responder:
- Ela acabou encontrando a caixa nas gavetas e achou que fosse para ele. Então, levei essa mentira adiante.
- Tudo bem. – enxuguei minhas lágrimas – Fico imaginando o que ela falaria às amigas se soubesse da verdade. – e desabafei – Só é chato vê-la usando a minha aliança.
- Convenhamos que não combina muito com ela.
E rimos. Logo, questionei:
- Por que ainda insiste nisso se não gosta dela?
- Eu quero fazer dar certo. Quero dar um rumo na minha vida.
- Você quer ou alguém lhe disse que estava na hora já?
- Segunda opção.
- Quem foi?
- O pessoal do trabalho, disseram que é bom ter família e etc.
- Tem que parar de ouvir o que os outros dizem e seguir o destino do jeito que quiser, no seu tempo.
- Não é só isso. Acho que já estou em tempo de focar no amor. Eu fico só no trabalho, não posso adiar isto. Convenientemente, a Kana apareceu novamente.
- E você pretende casar com ela?
- Talvez. Ela é a minha melhor opção.
- Não, Makoto. Ela é a sua única opção. Não se pressione.
- É que eu nunca fui muito bom nesse tipo de coisa, Kazuko.
- Conta outra, Makoto.
- Não na questão de começar um relacionamento, mas sair dele. Tenho medo de decepcionar a outra pessoa.
- Ai que está: Você vai, mesmo que não queira. Mesmo sendo o mais delicado possível.
- Mas acho a Kana alguém legal, eu quero mesmo tentar.
- Tudo bem. Eu não mando em você. Faça o que quiser.
Ele apenas sorriu como forma de agradecimento.
- Vai voltar para lá? – perguntou
- Sim. – assenti e completei antes dele atravessar a porta – Pensa bem no que está fazendo.
- Eu sei. – e fechou
Kana nem quis saber o motivo do meu choro. Ela está passando a noite aqui de novo e ouço os sons deles no quarto. Como é escandalosa!
Até, diário!”

Ainda bem que a Kazuko me ensinou a largar essa mania de ouvir e ligar demais para os outros.

Ela quem entrou no quarto, me chamando para jantar. Fiz companhia a ela e meu filho até a hora de dormir.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Capítulo 35 - Dona por uma noite

Hoje é uma noite especial. Completa exatamente um ano que eu e Kazuko nos casamos. Meu chefe me liberou mais cedo. Peguei minha esposa em casa. Deixamos Takumi aos cuidados das minhas madrastas, que logo terão mais um bebê. Meu pai está todo bobo por mais um filho a caminho.
Kazuko e eu não pudemos fazer um plano muito bom para nossas Bodas de Papel. Decidimos jantar e pernoitar em uma cobertura de um hotel chique. E é exatamente o mesmo de uma outra noite de primeiro aniversário.
Após o jantar, que foi no nosso quarto mesmo, vocês sabem que oque aconteceu. Não preciso nem falar!
No dia seguinte, levantei mais cedo que ela. Pedi o café da manhã que demoraria um pouco a ser servido. Enquanto esperava, decidi ler o diário. E era logo sobre a noite que eu e Kazuko comemoramos o 1º ano de escravidão dela. Agora eu me pergunto: O que eu tinha na cabeça quando fiz isso? Acho que devia estar com um peso na consciência, da mesma forma que fora no aniversário dela, por conta da nossa relação se encontrar esquisita. Mal nos falávamos durante os dias. Kana estava sempre comigo e Kazuko não gostava de ser vouyer. Então, resolvi fazer essa surpresa.
Querido Diário,
Eu sinceramente não posso contar o que aconteceu ontem a mais ninguém do que aqui e para você. Estou digerindo tudo. Existem momentos em que simplesmente não consigo compreender o Makoto.
Calma, vamos por partes.
Era próxima da hora dele chegar do trabalho e não havia sinal da Kana, que todas as noites está aqui. Estava adorando o silêncio e a paz até que a porta da sala se abriu. Obviamente era Makoto, pensei eu, acompanhado da Kana. Só que eu me enganei. Ele chegou sozinho, cumprimentou a mim e Keiko. Depois, eu disse:
-A Kana não chegou.
-Eu sei, Kazuko. Pedi a ela que não viesse hoje. Afinal, é um dia importante. – fiz careta e ele prosseguiu – Isso é para você, – estendeu e mostrou a caixa que carregava – para usar hoje. Vista-se para sairmos.
Makoto resolveu quebrar todas as regras de uma vez. E eu, claro, obedeci.
Levei a caixa comigo para o quarto. Ao abrir, vi que era um vestido longo preto, com uma listra branca em diagonal, vindo da esquerda até o outro lado. Ironicamente ou não, também tinha lingerie na caixa, pretas e brancas como o vestido. Ainda bem que eu tinha sapato para combinar com isso. Fiz um penteado básico. Já sabia muito bem o que ele pretendia. Deve ter ficado enjoado de transar com a Kana e resolveu quebrar a própria regra de “estarei traindo-a se dormir com você” só para sentir que variou um pouco. Se era isso que ele queria, era isso que ele teria.
Saí do quarto e o vi sorrir e soltar:
-Está linda, Kazuko.
-Obrigada. – tentei não transparecer a pequena raiva em mim – Para onde vamos?
-Isso é surpresa!
Ai, Makoto, não estou com saco para essas brincadeiras. Foi um pensamento daqueles que nunca falo.
Descemos junto com Keiko, que se despediu de nós na portaria. Eu e Makoto entramos no carro e saímos. Dirigiu até a área comercial e turística de Ioma. Uma região com diversos hotéis. Entramos do Midas Plaza, um dos mais chiques. Estacionou na frente dele e fomos ao hall, que tinha o pé direito mais alto, um chão de mármore negro muito bem encerado e parede em tons de bege. Havia uma enorme árvore no meio, completamente florida. Eu fiquei encantada. Na recepção, ele falou:
-Boa noite. Tenho uma reserva para a suíte presidencial.
-Boa noite. – respondeu a atendente - Qual seu nome, senhor?
-Miyasaki Makoto.
Ela olhou no computador, levantou-se, pegou uma chave no quadro que ficava atrás dela. Voltou e entregou para Makoto.
-Aqui, Sr. Miyasaki. Aproveitem a estadia. Logo o jantar chegará.
Apenas agradeceu e pegamos o elevador, subindo até a cobertura. Minha língua estava queimando para destilar um comentário.
-Sinceramente, Makoto, não precisava disso tudo se você só quer transar comigo. Era só me chamar para seu quarto, como sempre faz. – cruzei os braços
-Você não entendeu o porquê estamos aqui hoje.
-O que tem especial justamente hoje, Makoto?
-Onde estávamos exatamente um ano atrás? – indagou, e a porta do elevador se abriu
Enquanto ele virava a chave para entrar, fiquei matutando o que poderia ser. E não demorou cinco segundos para eu descobrir. Eu olho essa data todo dia ao abrir este caderno. Agora me diz: Que dono leva a escrava para sair e comemorar mais um ano de escravidão? E tem gente que diz que tirei “sorte grande”. Ainda estou procurando o universo em que isso aconteceu.
-Isso é coisa a se comemorar?- foi a única coisa que saiu da minha boca
-Eu acho que sim. Faz um ano que nos conhecemos e passamos por um monte de coisas nesse meio tempo.
Pronto! Foi aí que eu baixei a guarda. Merda! Merda! Merda! Meu coração acelerou, fora do meu controle.
Eu estou com sentimentos que sei que não deveria ter, contudo não consigo impedi-los. Minha baixa de guarda se concretizou com uma lágrima solitária que caiu. Eu fiquei muda, estagnada diante da porta e ele entrou. Demorou um pouco até me notar naquele estado. Então, se aproximou de mim.
-Ei, Kazuko! – levantou meu rosto – O que houve?
-Nada. – respondi tirando a mão dele e empurrando-o para que pudesse entrar
Ele sabia tão bem quanto eu que não era nada. Fechou a porta e completou:
-Olha, eu sei que tenho te tratado mal desde que entrei nesse relacionamento com a Kana. A nossa relação ficou esquisita desde então.
-Makoto, a minha posição perante ti torna isto assim. – interrompi-o, sentando num sofá que tinha ali
-Eu sei. – disse se ajoelhando a minha frente
-Por que está fazendo isso? – olhei para ele
-Quero me redimir. Sei que deve estar querendo me matar. – riu
-Se quisesse mesmo, já teria feito. – sorri
-Vamos esquecer tudo. Pelo menos hoje. Só eu e você, como no começo. Combinado?
Assenti. A campainha tocou, o jantar chegara. Fomos servidos apenas de prato principal e sobremesa, sendo salmão e petit gateau, respectivamente. Enquanto comíamos, também conversávamos. Tinha meses que não fazíamos assim. Ele perguntou como estava minha família, minhas amigas, minha saúde e sobre a Rin. E claro, lhe contei a novidade sobre o filho das duas. Makoto se mostrou feliz por elas.
Eu lhe indaguei sobre os casos que estava pegando no trabalho. Assunto vai, assunto vem, resolvi questionar uma coisa:
-Desculpa voltar nisso, mas o que disse a Kana para que pudéssemos sair hoje?
-Falei a verdade. Claro que ela não entendeu muito bem.
-Isso pode causar problemas.
-Apenas entre eu e ela. Não se preocupe. Só... Vamos esquecer isso agora tá?
-Tá bom. Só quis perguntar.
Logo terminamos de comer e nos levantamos. Então, Makoto falou:
-Tenho mais uma surpresa. – “aí não”, foi o que pensei – Vou ali e já volto. – se dirigiu ao banheiro, sem antes pegar algo que estava nas costas de uma cadeiras
Sentei-me na cama e só esperei. E quando ele saiu, não tive como não conter a gargalhada. Saiu vestindo apenas uma tanguinha vermelha.
-Makoto, o que é isso?
-Surpresa! – disse dando uma voltinha – Que tal estou?
-Engraçado... E ridículo!
-Nisso eu tenho que concordar. Não sei o que a Kana tinha na cabeça quando pediu para eu colocar isso.
-Pelo menos não é tão cavado na bunda. – levantei, abri e tirei o vestido – Não vou deixar você ficar despido sozinho.
-Mas você está sexy e eu não. – então pegou em minhas mãos – Hoje vamos trocar de papéis.
-Como assim? – franzi e testa
-Você será a dona e eu, o escravo.
Sorri maliciosamente e empurrei-o na cama. Sem pensar duas vezes, arranquei a única peça de roupa que ele usava. Não me importava de que Makoto só queria variar um pouco comigo, me importava que eu mataria o desejo que tinha dele naquela noite. E eu era a dona, eu queria ser satisfeita.
Excitei-o um pouco com minha boca, depois tirei minha calcinha e montei nele, que ficou apenas segurando minhas coxas para me ajudar no meu movimento. E nem ele e nem eu aguentamos por muito tempo. Eu gozei colocando a cabeça para trás e soltando um grito contido, para em seguida desfalecer sob o peito de Makoto.
Compartilhamos nossas respirações descompassadas por uns minutos, até que eu virei para o lado vazio da cama.
-Satisfeita, senhora? – indagou irônico
O meu silêncio foi um sim. Makoto se enrolou em um dos lençóis e foi olhar a vista da sacada, que era logo em frente. Fiquei uns minutos deitada, em seguida fiz outro lençol dali de vestido e me juntei a ele.
-A vista é linda daqui. – comentei
-É! – se voltou para mim – Quer voltar para o quarto, senhora?
-Não precisa me chamar assim.
-Eu quero te chamar desse jeito. Faça o mesmo comigo.
-Makoto então, este é o seu nome.
-Tudo bem. – apenas sorriu
Ele se aproximou de mim, pegou em meu rosto e me beijou do jeito que eu queria e até sonhava tem meses. Ainda puxando meu corpo junto ao dele. Quando nos desvencilhamos, ele falou:
-Não era para eu para eu ter feito isso.Desculpe!
Que vontade que fiquei de falar: cala a boca e me beija, Makoto. Mas, só o agarrei para mais um, que levou a outro e mais outro, até que lá estávamos de novo. E assim se repetiu por algumas vezes. Quando cansamos, ficamos deitados até tentar pegar no sono. Então, ele questionou algo, bem “tarde demais”:
-Senhora, esqueci de perguntar: tem tomado seu remédio?
-Só depois que você lembra disso, Makoto? – e ri – Tomo todos os dias. Cerimonialmente. – completei séria – Não quero que passemos por aquilo de novo.
-Ainda é ruim quando recorda?
-Não! Mas, tudo é diferente agora. Não sei o que a Kana pode pensar disso.
-Que talvez foi um acidente?
-Ela sabe bem que tomo pílula. E vai afirmar que fiz de propósito para atrapalhar vocês. Só isso que faço para ela!
-Já percebi que vocês não se dão bem.
-Não, Makoto. Ela não admite que eu possa ter a liberdade que me dá. Por ela, ficaria trancada o dia todo no quarto. Eu juro que é só isso nela que me incomoda. Pode perguntar a Keiko o que acontece antes de você chegar. Ela me enche de perguntas preconceituosas e invasivas. Não consigo ser mal educada e não responder. É bem óbvio que ela vai me sondar para saber o que houve hoje. - nesse momento já estava sentada na cama e bem nervosa após o desabafo.
Ele se levantou e disse, olhando para mim:
- Não fazia ideia de que isso acontecia.
-Ela consegue te cegar, Makoto. Você se torna uma outra pessoa perto dela. – já sentia meus olhos marejarem – Eu acabo me sentindo solitária, mesmo com a companhia da Keiko. Depois que ela vai para casa, só piora. Por isso tenho saído muito durante o dia, para conversar com a Rin, a minha mãe, até com suas madrastas e seu pai. Uma pena que, como tenho horário para voltar, sempre ao chegar ela está no sofá e me olha com o ar reprovador dela. – completei debulhada em lágrimas, ele me abraçou – Desculpa. Sei que disse para esquecer isso, mas falei mesmo assim.
-Só ouvi o seu desabafo, minha senhora. Não reprovei nada do que falou.
-Já pode esquecer o personagem, Makoto. Mesmo que façamos essa brincadeira inúmeras vezes, você nunca saberá o que é realmente estar no meu lugar.
Enrolei-me no lençol e sai para a varanda. A voz dele veio atrás.
-E você nunca saberá o que eu passo por ser o tipo de dono que sou. Também tenho que enfrentar olhares reprovadores, todos os dias no escritório. Sempre comentam: olha o dono que deixa a escrava sair e deu uma festa de aniversário para ela. Entre outras coisas. Quando ando com você na rua, posso ver muita gente olhando para nós, talvez seja por isso que segure sua mão, para desviar sua atenção disso. E, sim, a Kana pergunta porque eu faço tudo isso e eu só digo: acho que ela é uma pessoa com tanto direito a respeito quanto nós. E sabe o que ela faz? Fecha a cara e isso me dá uma raiva. Não por mim, mas por você. Você não merece isso! Maldito foi o dia em que fui ao centro de escravos e te comprei.
Ele falou isto da porta o tempo todo, seguido por um som de choro. Quando ele se calou, ousei olhar para trás e o vi ajoelhado com a cabeça baixa. Meu impulso foi abraçá-lo. E o desabafo dele se completou:
-Desculpa, Kazuko. Me desculpa!
E nada mais precisou ser dito. Após alguns minutos fomos dormir.
Eu acordei com o Sol incomodando meus olhos e ele ainda dormia. Vesti minha lingerie e liguei para a recepção pedindo o café da manhã. Coloquei um roupão por cima. Logo, o serviço de quarto chegou. O barulho da mesa sendo posta o fez despertar. Agradeci o garçom, dei-lhe uma gorjeta, ele saiu e fui chamar Makoto.
-Bom dia! – sorri
-Bom dia, olhos inchados de tanto chorar.
-Você também.
-Que horas são?
-Nove e meia. Já pedi nosso café da manhã.
-Eu percebi. Ele só podia ter feito um pouco menos de barulho. Vou me vestir, senta lá e me espera.
Assenti. Ele só colocou a cueca mesmo e veio bocejando, mostrando o peitoral agora um pouco mais definido. Ele começou uns exercícios quando começou a namorar.
-A malhação está te fazendo bem, Makoto.
-Você acha? – disse olhando o abdômen – Não notei tanto a diferença.
-É porque você vê todo dia. E bem... Tem muito tempo que não te via sem camisa. Não tinha como eu não perceber. Por que não tira fotos uma vez por semana, por exemplo? Ai observará a diferença.
-Tem razão. É uma boa ideia!
E nossa conversa continuou e se assemelhou a de todas as antigas manhãs. Tomamos um banho e já iriamos descer para dar checkout no hotel. Eu parei perto da entrada e um monte de coisas passaram pela minha cabeça, principalmente o fato de que tudo podia voltar ao “normal”. Makoto passou do meu lado e antes que pusesse o pé para fora do limite, o segurei, indagando:
-Me promete uma coisa?
-O que, Kazuko? – olhou para mim
-Que não vai deixar tudo voltar a ser como era antes desta noite.
Ele pegou em minha mão e disse:
-Eu prometo! E não deixarei mais ninguém desrespeitar e nem te menosprezar, nem mesmo a Kana. Pode me contar tudo o que ela fizer.
E um beijo selou esta promessa. Apesar de tudo, senti um medo daquela noite ter acabado. Por mim, ela duraria para sempre. Só eu e Makoto!
Saímos e viemos direto para casa. Foi uma noite boa, estranha e confusa para nós, acho eu.
Nossa relação acabou de sofrer outro choque e talvez mudança. Espero que para melhor.
Vamos ver como ficarão as coisas quando a Kana vier hoje à tarde.”

Fechei o diário e no instante seguinte a comida chegou. Logo Kazuko acordou e aproveitamos a refeição juntos.

sexta-feira, 3 de março de 2017

Capítulo 34 - Tudo é guerra

Com a chegada de mais um final de semana, dei mais uma acelerada na leitura do diário. Kazuko foi ao aniversário de uma prima com Takumi. Como estava muito cansado, resolvi ficar em casa. Ou melhor, dei desculpa para não socializar. Não que as pessoas sejam chatas ou não tenha afinidade, só não estava com vontade de sair.
Li anotações de uma semana e meia, até que cheguei em mais uma descrição de um passeio da Kazuko com a Rin, que com o início do meu namoro com Kana estavam cada vez mais frequentes.

Oi diário,
Acabei de voltar de mais um passeio com a Rin. Realmente nossas conversas têm sido a coisa mais interessante a se contar que tem me acontecido.
Makoto continua falando bem pouco comigo. Só me cumprimenta e pergunta como foi meu dia. E eu também sou praticamente monossilábica com ele. Keiko continua a minha melhor companhia. E Rin, tem sido a melhor amiga para desabafar.
Hoje fui almoçar com ela e sua esposa. E elas tinham uma novidade para me contar. Sentamos no restaurante e elas não conseguiram segurar por muito tempo, me falando:
-Kazuko, nós vamos ter um bebê.
-Sério? – sorri
-Sim. – Rin respondeu – Namie está grávida.
-Eu fico tão feliz por vocês. Se amam e agora a família vai aumentar. Mas, só por curiosidade, como fizeram? Eu não entendo tanto disso.
-Foi por inseminação, uma técnica criada entre o século XX e XXI para ajudar a casais inférteis, homoafetivos ou qualquer um que precise a ter filhos de forma natural. Antigamente era necessário um doador, porque só conseguiam com um espermatozóide e um óvulo. Atualmente conseguem misturar os genes dos pais mesmo que do mesmo gênero. Porém, os casais masculinos ainda precisam de uma barriga de aluguel.
-Lembro de ter aprendido na escola, mas me recordava dos detalhes.
-E você? Como estão as coisas por lá?
-Na mesma! – dei de ombros – Kana tem passado os fins de semana lá.
-E provavelmente, ela te maltrata mal. – disse Namie
-Até demais. Ela sempre reclama de eu comer com eles na mesa, de eu estar apenas presente com eles. E toda noite sou obrigada a ouvir os sons vindos do quarto.
-Essa parte é sempre a pior. – falou Rin
-Acho que outra pessoa no meu lugar já teria fugido.
-E por que não o faz? Pelo menos como um teste. – indagou Namie
-Não consigo. – soltei um suspiro
-Não me diga que... – Rin não precisou completar
-Acho que sim. – com os olhos marejados – Eu me sinto uma completa idiota.
Ela se levantou e sentando ao meu lado, me abraçou. Então, eu desabei, porque eu sabia que podia fazer tal coisa com as duas. Depois completou:
-Não vou te julgar. Só espero que pense melhor sobre isso.
-Obrigada!
E depois a conversa continuou com outro assunto.
Cheguei deste passeio tem poucos minutos. Se pudesse, sairia com elas todos os dias. Pena que ambas tem carreiras ocupadas. Só me resta aproveitar as poucas horas que tenho com elas.
Agora, ajudarei a Keiko a preparar o jantar para mim, ela, Makoto e “a chata”.
Até!”

Uma clara demonstração de ciúmes da Kazuko.
Passei para a anotação da data seguinte, onde ela contou sobre a pequena revisão de história que ela fez ao ler um livro na biblioteca. 
Diário querido,
Acabei de sentir uma saudade enorme dos meus tempos de escola. Não que realmente tenha tanto tempo assim, mas eu sinto como se fosse uma eternidade atrás. Minha vida mudou tanto que tudo parece um local distante e feliz na minha memória.
E por que me ocorreu essa nostalgia? Simples! Um livro de História.
Hoje era mais uma tarde entediante que vou à biblioteca e procuro algo qualquer para me perder em uma leitura. E o livro de História foi o sortudo. Ele era especificamente da história da minha região. Folheei por eras mais antigas, como a em que todos se vestiam do jeito que queriam, eram livres para usar roupas coloridas e cabelos coloridos, saias rodadas. Passei por dois séculos inteiros até chegar ao “agora”.
E eu me lembrei das coisas horríveis que as pessoas são capazes de fazer para conseguir algo de seu interesse. Ainda mais um governo.
A “guerra” terrível que houve cerca de 60 anos atrás e deixou a parte pobre de uma das duas cidades que seu unificaram em Ioma completamente dependente (e subjulgada)a população rica. E essa subjulgação é tão extrema, que algumas crianças são vendidas como mercadoria para atender aos caprichos e desejos mais nojentos deles.
E tudo isso por conta de uma riqueza natural. É impressionante ver o egoísmo que existe nas pessoas e em situações específicas.”

A época e guerra que Kazuko se referiu é chamada de A Guerra do Minério. Antes de Ioma havia duas cidades na região: Tana e Serec. A primeira era notoriamente mais tecnológica e toda a sua produção era voltada a venda interna e externa. Já a segunda era uma cidade rica de recursos naturais e vendia estes recursos retirados dos minérios das montanhas para as fábricas.
Por muitos anos, Tana comprou o necessário para atender as suas demandas. E os produtos ficavam logo obsoletos e eram substituídos por outros. Porém, um novo modelo e linha de carros surgiu. Para a produção destes havia necessidade de um minério que era caro e que só podia ser encontrado em locais bem distantes. Além do preço da matéria-prima, vinha também o valor do transporte. Eis que, o tal metal diferenciado foi encontrado nas montanhas de Serec. E o interesse pela compra veio de todas as cidades vizinhas, incluindo Tana. Contudo, eles não queriam dividir o mineral com os vizinhos, pois precisariam do máximo que pudessem adquirir. O jeito mais fácil e rápido que encontraram de possuir foi invadir Serec sem aviso prévio e tomar o território e sua população.
Guerra, nesse caso, é um nome errado. Foi um massacre. Uma cidade foi tomada sem qualquer chance de defesa.
Os donos ricos das mineradoras de Serec e os donos das fábricas de Tana fizeram um acordo de comércio. Um referendo entre a população rica decidiu a unificação e a subjulgação da população pobre, junto com a Lei dos Escravos. A lei foi criada para acabar com a prostituição que ocorria em ambas as cidades. Tudo para que os ricos pudessem ter seu prazer em casa.
Todos os ricos de Serec se mudaram para onde ficava Tana, que atualmente é a área rica de Ioma. As fábricas foram transferidas para a área pobre e ficaram no lugar das antigas casas luxuosas, onde era Serec.
Todos da classe baixa passaram a trabalhar servindo os ricos, fossem nas fábricas, comércios ou até mesmo na casa deles.
Conforme os anos foram passando, novas leis surgiram, como a que salva os filhos da Keiko da escravidão. Porém, o maior sonho da classe baixa é que tudo isso acabe.

Acho que o meu maior sonho atualmente é o mesmo de todos iguais a mim: liberdade. Uma liberdade plena. Além, é claro, do desejo de que todas as oportunidades para nós melhorem. Existe muita segregação entre os pobres e os ricos. Muito preconceito deles conosco, até com a classe média que trabalha para eles.
É um lugar horrível de se viver, porque você está à mercê de uma quantidade menor de pessoas que tem mais dinheiro. Até hoje, é isso o que manda por aqui.
Daria tudo para ter nascido no passado, bem antes dessas coisas acontecerem e deixar tudo como agora está. Sei que não devia ser uma maravilha, mas com certeza é melhor do que aqui.
Nenhum rico deve sequer imaginar o que se passa em nossas cabeças todos os dias. Seja durante as aulas na escola ao ouvir sobre isto, nas diversas noites que vamos ao centro de escravos e somos expostos como mercadoria, tudo o que passamos e ouvimos sobre seu tratamento com os escravos ou simplesmente quando paramos um segundo e tentamos absorver esses acontecimentos históricos e vemos a vida miserável que levamos.
Não é só perigoso ser escrava, é perigo ser alguém da classe baixa.
Agora irei. Makoto chegou e com a namorada chata dele.”

Cansado da leitura, fechei o diário. Peguei-me pensando em tudo o que minha esposa de anos atrás disse.
Posso ter ouvido, presenciado e vivido muita coisa com as escravas de meu pai, mas, eu nunca saberei exatamente como é ser da classe rebaixada e subjulgada.
Por conta disso, tentava ser o melhor possível com a Kazuko. Contudo, a época que namorei Kana foi, com certeza, uma das mais conturbadas que vivemos.