sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Capítulo 12 – Encontro com o Ex

Fiquei tão feliz do Gustavo estar conseguindo trabalhar bastante essa semana, era o que ele queria já que estava com a grana bem curta.

Eu aproveitei para adiantar mais algumas postagens do blog e escrever mais uma das postagens motivacionais que eu faço de vez em quando, justamente para deixar passar o que ouvi – de novo – das bocas dos meus familiares no almoço de sábado. É uma forma de absorver a situação e também conseguir uma visibilidade em cima de alguma coisa. Mas, acho que acaba sendo bom para mim e para os meus leitores. Não demorei a escrever o texto e deixei programado mais pra frente na semana, senão ia entregar muito para quem me conhecia pessoalmente. Porém, sei que a parte que me causou a escrita daquilo não iria ler, porque eles só veem quando são as partes eróticas e para quem acompanha sabe bem que meu blog tem bem mais conteúdo.

Também tentei, inutilmente, ter uma ideia boa para o bendito do meu livro, mas nada saia da minha cabeça. Anotei algumas ideias para quem sabe não conseguisse maturar pelo menos uma delas e escrever. Cheguei até a procurar no meu velho e-mail as minhas fanfics para ver que dava para aproveitar algo de lá, mas achei melhor não, senti uma enorme vergonha alheia ao ler parte delas. Resolvi não pressionar tanto, porque não vou ter ideia forçando.

Aproveitei o dia de domingo para espairecer e sai com umas amigas para almoçar, dessa vez sem as crianças – inclusive aquela amiga cuja festa encontrei o Gustavo trabalhando – e elas falaram sobre como estavam as suas vidas e claro, vieram perguntar da minha:

- E você, amiga, ainda solteira? Só trabalhando de casa mesmo?

- Sim e sim!

- Mas aquele fotógrafo da festa da minha filha é um gato. Não tem nada com ele não?

- Um gato mesmo. E bom, a gente acaba se cruzando aqui e ali no prédio. A gente conversou mais na piscina, mas não rolou nada. – menti

- Amiga, aproveita! Você só tem trabalho desde que terminou com o Pedro. Lembro a relação complicada que tiveram, mas acho que está na hora de se abrir de novo.

- Estou tentando fazer isso. Seguir em frente. Deve ser por isso que estou trabalhando que nem louca!

- Trabalhar não é ruim. Fico feliz de ver você alcançando coisas com seus escritos, mas deve seguir em frente em outros aspectos.

- Não quer dizer que precisa namorar, mas quem sabe pegar um cara ou outro ali, vez ou outra.

- Eu sei! Estou me abrindo para isso! Na última semana até fui na balada.

- Isso já é um avanço! – comemoraram

A conversa foi se estendendo e aproveitamos para passear pelo shopping ali perto, colocando os assuntos em dia. Foi um dia muito divertido e que estava precisando mesmo. Só tenho ficado trancada escrevendo pro meu blog e não tenho visto o mundo, deve ser isso a minha falta de inspiração.

Despedi-me das minhas amigas, entrei em meu carro e fiz o caminho de volta. Como não queria fazer o jantar, estacionei na rua e fui a um restaurante comprar comida para viagem. E para minha surpresa, assim que desci, dei de cara com o bendito ex que fez um inferno na minha vida. Ele se aproximou de mim e me cumprimentou:

- Olá, Helena, quanto tempo! Como está?

- Olá, Pedro. Estou bem, obrigada!

- O que faz aqui sozinha?

- Estou só indo comprar meu jantar.

- Posso jantar com você?

- Não. Só vai embora!

- Não até você falar comigo direito.

- Falar o que? O inferno que você fez na minha vida?

Eu já tinha desistido de entrar no restaurante, atravessei a rua e fui para a praça que havia ali em frente.

- Não exagere! Tudo o que fiz foi porque te amava e ainda amo muito.

- Conta outra vai. Você não faz ideia do quão lixo eu me sentia enquanto estávamos juntos. Alias, como me achou?

- Te vi com suas amigas no shopping e quando saiu, resolvi te seguir para saber onde morava.

- Eu não acredito! – gritei – Eu já disse com todas as letras que não te quero mais na minha vida e muito menos perto de mim.

- Helena, não diga isso. Você sabe o quanto sacrifiquei para que desse certo entre nós.

- Não! Você não sacrificou nada. Eu quem o fiz! Fiquei muito tempo num emprego horrível, escrevendo sobre o que não gostava, enquanto você fazia questão de dizer todos os dias que nunca chegaria a lugar nenhum escrevendo minhas histórias.

- Não penso mais assim, Helena. – pela cara dele, sabia que era mentira – Por favor, me dá outra chance.

Ele já tinha agarrado no meu braço e não tinha como sair dali. Enquanto o local estava cheio e ninguém fazia nada para me ajudar.

- Depois de todas as chances que te dei antes. Nunca! – esbravejei do fundo da minha garganta

Então, agarrou meu outro braço e ele iria me beijar a força. Não conseguia fazer mais nada, eu já gritara, tentara me afastar e de nada adiantava. Havia pouco mais de um ano que me mudara para aquele apartamento e estava até então conseguindo me manter escondida dele. Ele já tinha me achado outras vezes e me agarrado à força, daquele mesma forma e iria acontecer de novo. E nem sei conseguiria escapar dessa vez. Eu fechei os olhos e já me preparei para acabar aquele dia com o meu lençol molhado de tanto chorar. Mas, então, veio uma voz gritando em nossa direção e eu a reconheci. Era Gustavo!

- Ei, cara, o que você está fazendo? Ela já disse em alto e bom som para você e para todo mundo aqui que não quer mais nada com você. Por que insiste?

- E você é quem, seu merda? – Pedro gritou com Gustavo

- Eu sou o namorado dela, seu filho da puta! – disse me puxando para seus braços

- Namorando um bosta igual você? É mentira!

- Quer tirar a prova? Vamos resolver isso agora então! – ele já armou a postura de luta

- Se você quiser sair daqui direto pra ambulância.

Gustavo pediu para que me afastasse e os dois se olharam – e isso agora chamou a atenção de todos – e começaram a briga. Ou melhor, foi bem rápido. Mesmo o meu ex sendo bem maior e ouso dizer mais forte, ele só tomou um soco e logo caiu. E imediatamente, vieram apartar a briga! Engraçado né? Quando gritei por socorro ninguém se manifestou, quando dois caras brigaram que foram se meter. Gustavo apenas se virou e deixou meu ex caído ai, que foi ajudado pelo outros em volta. Ele se virou e falou comigo:

- Você está bem?

- Estou sim. Obrigada pela ajuda!

- Aquele é seu ex que você comentou?

- O próprio!

- Que cara sem noção. Não é a primeira vez ele te encontra né?

- Não! Já fugi outras vezes. Dei sorte de estar aqui.

- Vim comprar um lanche para comer. Quer um também?

- Um podrão de vez em quando não faz mal! Eu ia comprar pra viagem no restaurante, mas ele me abordou antes que pudesse entrar.

Andamos um pouco para escolher algo de nosso agrado e compramos cachorro-quente prensado, daqueles bem completos e cheios de tranqueira. Levamos para comer em casa. Acabei pegando o carro e voltamos pro condomínio.

E o meu ex? Bom, pelo pouco que vi depois, algumas pessoas o ajudaram, colocaram gelo nele e tudo o mais. E a meu ver foi mais um bem feito para ele.

A minha sorte foi que eu parei no caminho, senão ia entregar de bandeja o local em que estava morando e seria questão de tempo até ele me encontrar de novo. Espero que depois desse acontecimento com o Gustavo, que veio como um anjo naquele momento, porque eu não sabia mesmo como iria sair daquilo, ele resolva se afastar de vez e me deixar em paz! É a única coisa que eu quero! E é horrível ter que reviver todo o medo dele estar perto de mim de novo. Eu me finjo de forte, tento me defender, mas por dentro estou gritando por socorro!

Ainda faço terapia por causa disso e é o que tem me dado mais confiança, além de escrever o Contemporânea Erótica. É um passo de cada vez!

Só quero que eu fique em paz comigo e meu ex faça da mesma forma.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

Capítulo 11 – Trabalho e distância

O almoço com a família da Helena foi bem divertido, acho que mais para mim do que para ela. Eu entendi agora tudo o que ela chegou a comentar comigo sobre as críticas dos pais e os motivos de ela manter a identidade dela como Echii em segredo praticamente de estado. Eu percebi o quanto ela ficou desconfortável e até com raiva dos comentários dos familiares.

Eu nem consigo me imaginar no lugar dela, que tanto se esforça e trabalha no blog dela e tem que ficar ouvindo esses tipos de coisas de quem mais devia dar apoio. Meus pais sempre me animaram a seguir com o que eu queria fazer e mesmo estando um pouco fodido de dinheiro, eles sabem que faz parte da vida, pois muitas vezes nós ficamos com o orçamento apertado. Hoje eles vivem bem com aposentadoria e eu não quero ficar incomodando-os com meus perrengues e meus próprios problemas, já sou grandinho e sei me cuidar. Mas, de alguma forma, sei que para qualquer coisa eles estarão lá comigo para me segurar de uma possível queda.

Uma pena que a família da Helena talvez a jogasse direto no abismo pelo jeito que são. Acho as duas únicas pessoas que dariam a mão para ela são a irmã e a prima, que elogiaram o trabalho da Echii. Só que por um ponto faz sentido, elas tem a idade e ideias muito parecidas com as que o blog traz.

Eu fiquei nesse devaneio enquanto voltávamos para o condomínio, distraído, olhando a paisagem pela janela, até porque a Helena estava quieta desde que saímos. Senti que estava estranha e não deixei de pensar se era eu quem tinha feito alguma coisa ou se era por toda a situação que passamos durante o almoço.

Deixei que a gente chegasse ao estacionamento para perguntar, assim que desci do carro:

- Helena, aconteceu alguma coisa?

- Nada. – disse cabisbaixa

Tentei me aproximar para talvez abraçá-la e tentar oferecer um ombro amigo. Porém, ela me rejeitou.

- Gustavo, não. – reclamou

- Eu fiz alguma coisa? Se sim, me desculpe.

- Não foi você. Eu só estou chateada. Só isso!

- Até posso imaginar o que seja.

- Eu só preciso de um tempo sozinha.

- Tudo bem! Vamos subir então.

E no mesmo silêncio do carro, pegamos o elevador e descemos no nosso andar. Antes de nos separarmos disse:

- Se precisar, pode me chamar, manda mensagem ou eu vou ao seu apartamento.

- Obrigada, Gustavo, – sorriu, sem graça – especialmente por ser tão compreensivo.

- Não custa ter empatia. Fica bem tá? O que sua família disse lá no almoço não tem nada a ver com você. Eu sei que você sabe disso.

- Não é sobre o Contemporânea, é também uma série de outras coisas que não quero falar agora.

- Tudo bem! Até logo, H.

- Até logo, G. – disse tentando se animar

Então, cada um de nós caminhou em direção a seu respectivo apartamento. Entrei e logo sentir meu telefone tocar, era o meu amigo Mateus.

- Fala ai, Gustavo.

- Diga, cara.

- Acabei de ver a postagem das fotos lá no Contemporânea Erótica. Eu nem sabia que você conhecia a Echii e muito menos que tinha feito fotos dela. Por que não me contou?

- Era segredo esse trabalho, até porque você sabe que ela esconde quem é de todo mundo. – fui sincero

- Ela deve ser ainda mais gostosa pessoalmente né?

- Eu não vou responder a essa pergunta. – e muito menos falar sobre o meu acordo com a Helena

- Você e esse seu profissionalismo tem hora que me dão no saco! Enfim, seu perfil está bombando. Bem provável que esse trabalho com a Echii te renda outros trabalhos.

- Sim. Eu nem tive tempo de responder as mensagens que chegaram. Estive ocupado o dia todo.

- Fazendo o quê?

- Sai com uns amigos pra um almoço. – o que era meia-verdade

- Cara, não perde tempo e marcar todos os trabalhos que conseguir. Liguei só para te dar parabéns, porque foi um trabalho de ouro que você conseguiu.

- Nem é para tanto. É como outro qualquer!

- Cê perdeu a noção né? Tirar fotos da Echii não é “qualquer coisa”, deixa de ser modesto.

- Obrigado, cara! – ri

Depois disso, nos despedimos e desligamos. Acho que finalmente estou conseguindo separar a Helena da Echii, ou talvez não. Talvez seja que eu finalmente esteja enxergando além daquela pessoa dos textos, porque eu estou convivendo com ela já tem algum tempo e eu sei sobre sua vida, seu passados, seus sonhos. Eu não vejo mais a ídolo que eu tinha, mas sim como ela é de verdade. E isso não significa que ela não seja menos encantadora!

Tomei um banho, coloquei só uma cueca e eu fui finalmente olhar o meu perfil com mais calma e poder responder o máximo de pessoas possível. E confesso que eu fiquei umas boas horas nisso.

Dentre as mensagens e comentários, haviam desde os elogios ao meu trabalho e parabéns pela fotos da Echii e também algumas pessoas oferecendo propostas de trabalho, perguntando sobre a agenda, os valores, o que eu fazia especificamente. Calmamente fui respondendo a essas mensagens todas! Com certeza algumas delas se reverteriam nos freelas e me dariam a grana que eu estava precisando para fechar o mês de forma decente.

Eu já tinha montado um plano de divulgações para aquela semana, resgatando alguns dos trabalhos que já fiz, incluindo algumas das fotos que fiz da Helena e não chegaram a ir pro blog. Passei minha semana montando e fazendo tudo, aproveitei aquele resto de noite para conseguir programar tudo, usando um outro aplicativo a parte. Iria aproveitar a chegada dos novos seguidores para divulgar o meu trabalho.

Depois, fui ver um filme e acabei me deitando um pouco tarde.

O dia seguinte começou meio arrastado por ser um domingo. Abri minhas redes e já tinham respostas de algumas das mensagens. E fui tomando meu café enquanto respondia as pessoas. E já terminei aquela refeição com vários trabalhos marcados para a semana, começando já na segunda. Eu teria, depois de um bom milênio, uma semana atribulada na minha vida.

Aproveitei o resto do meu domingo para ficar em casa de bobeira. Mas, não esqueci de agradecer a Helena por tudo o que a sessão de fotos que fiz para ela proporcionou.

H, estou cheio de trabalho essa semana. Graças a você!”

Meus parabéns! =D O seu trabalho é muito bom. Você merece, G!”

E como você está? Melhor?”

Na medida do possível, sim!”

Você sabe que nada do que a sua família disse é verdade. Você é incrível e o que faz no blog é maravilhoso!”

Obrigada! Só espero que não esteja dizendo isso porque transou comigo. haha”

Claro que não! Alias, quer falar das outras coisas que disse que te incomodavam?”

Prefiro pessoalmente!”

Entendi. Tem mais algum projeto fotográfico pro blog? Ou tem mais algum produto daquela caixa para testar?”

Por enquanto não! Mas podemos pensar em algo. Quanto a caixa, falta pouca coisa, as lingeries usei com você, as camisinhas idem, os óleos de massagem, acho que falta a calcinha comestível.”

Podemos testar ela então. Quer que eu vá ai?”

Não. Aproveita e descansa. Você vai ter uma semana agitada.”

Despedimo-nos e bloqueei o telefone. Passei o resto do dia fazendo vários nadas. Fui dormir relativamente cedo porque já tinha uma sessão marcada para a manhã seguinte.

***

Acordei correndo na segunda e em todos os outros dias da semana, porque realmente eu estava desesperando por dinheiro e usei todos os horários humanamente possíveis para fazer sessões de fotos de vários tipos: casal, criança, festa de aniversário, animais. Eu fiz de tudo um pouco na semana que passou. Trabalhei até no sábado. E mal descansei no domingo, porque eu tive que olhar as centenas de fotos que descarreguei no computador e selecioná-las. O que levou quase a manhã toda, já que sou bem rápido de selecionar as melhores fotos.

Eu mal parei em casa e respirei essa semana e também praticamente não falei com a Helena. Mas, creio que ela estivesse tão ocupada quanto eu, porque o Contemporânea Erótica teve uma semana agitada de postagens e eu lembro que ela me disse que iria aproveitar para tentar trabalhar no livro dela. Não faço ideia do que ela estava escrevendo, só espero que não seja nada erótico. Mas, lembro da postagem falando sobre a aceitação da família sobre o que fazemos. E lá ela incentivou os leitores e leitoras a correr atrás dos sonhos e fazer o que quisessem, mesmo que ao ver de algumas pessoas não fosse válido. Eu adoro quando ela escreve essas postagens mais reflexivas. Ainda recordo quando ela escreveu sobre relacionamento abusivo e que as forças que fazemos para perceber que estamos dentro de um. O que agora me fez lembrar que ela comentou do ex-namorado dela. Nem consigo imaginar o inferno que foi, porque não é único relato desse tipo que já ouvi ou até li na internet.

Confesso que essa semana um pouco distante dela me fez ficar com um pouco de falta dela. Quem sabe a gente não se encontre essa semana, porque eu vou trabalhar, mas num ritmo menos frenético porque consegui cobrir meus gastos para daqui um tempo. Sua companhia é muito boa!

Aproveitei o final da noite e desci para comprar um lanche ali perto, onde tem a praça com as barraquinhas. Minha fome estava daquelas!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Capítulo 10 - Almoço em família

A noitada com o Gustavo ontem foi muito divertida, mesmo que tenha bebido um pouco além da conta. Acho que eu fiquei um pouco nervosa com o almoço de hoje e talvez também porque a postagem com as fotos que ele tirou saíram ontem também. Talvez perdesse minha companhia de fodas e coisas aleatórias. E na boa, precisa de motivo para encher a cara? Acho que a vida adulta por si só já é mais que suficiente.

Eu nem faço ideia de como acordei na minha cama hoje de manhã, só sei que estava só de sutiã e calcinha, o que pode indicar que transei bêbada e não é bom sinal. Foi ai que ouvi algum som vindo da cozinha, será que era o Gustavo fazendo café? Ele dormiu aqui? Fui para a sala e a mesa já estava posta me esperando e claro que eu perguntei se fizemos alguma coisa na noite anterior, ele afirmou que não, mas não significa que ele não queria, só que eu estava fora do meu estado normal. Quem me dera todos os caras com quem já sai fossem assim. Seria mais provável eu acordar pelada, com um bilhete ridículo e uma cama vazia se fosse outra pessoa. Bem, eu acabei vomitando nele – que mico meu pai -, mas mesmo assim, ele me limpou e ficou aqui caso precisasse. Não sei se o G faz essas coisas porque ele é meu fã – nem sei se a visão dele sobre mim é essa – ou se ele gosta de mim ou porque ele é assim mesmo. Não estou fazendo drama, só estou me questionando e bem que eu queria ter a cara de pau de perguntar para ele.

Bom, a transa só foi adiada para agora de manhã. E como todas as outras vezes foi bem gostoso, tanto que perdemos a noção da hora e tivemos que nos arrumar correndo para ir para a casa dos meus pais. Gustavo correu para o apartamento dele para tomar banho e se ajeitar e eu fiz o mesmo aqui. Encontramo-nos novamente no estacionamento. Eu coloquei um vestido florido, mas fresquinho com sandália. Já ele colocou um short colorido, uma regata sobreposta a uma camisa de botões, com chinelo. Ele estava até bem largado, mas são o tipo de roupa que meu irmão usa, então acho que não tem problema quanto a isso.

Era um pouco distante do nosso condomínio, então demorou um pouco, mas nada que uma boa playlist não resolvesse. Bom, Gustavo ficou rindo da minha empolgação com algumas músicas, porque a lista era minha. Bom, não posso fazer nada quanto a meu gosto musical um pouco diferente. Ele deve ter notado isso ontem lá na boate, já que algumas dessas músicas tocaram lá também.

Logo estávamos mais no subúrbio, onde tem casas bem mais antigas e menos prédios. Entrei em várias ruas menores e finalmente chegamos. Pois é, meus pais moram bem longe de mim, o que é bom. Descemos e meu pai já estava na varanda.

- Helena, filha, seja bem-vinda. – disse assim que me viu e foi abrir o portão – E esse quem é?

- Esse é o Gustavo, um amigo.

- É um prazer, senhor... – disse apertando a mão do meu pai

- Roberto. – completou – Venham, entrem. Sua mãe está na cozinha.

Entramos e fui lá falar com a minha mãe e já encontrei com algumas tias e primas curiosas demais pelo meu acompanhante. Cumprimentei a todas e Gustavo foi simpático. Dei um abraço apertado na minha mãe que logo retribuiu. Tinha que ver o sorriso que ela deu quando viu o G.

- Ora, dessa vez veio com o namorado?

- Ele não é meu namorado. É um amigo!

- Amigo... Sei...

- Prazer, - ele se pronunciou – sou Gustavo.

- É um prazer, eu sou Rita. E você é o que da minha filha?

- Sou só um amigo. – sorriu amarelo

- Irmã... – gritou Marina descendo as escadas

A gente se abraçou com vontade, eu e minha irmã nos damos muito bem. Veio seguida da Bia, que eu tenho certeza que é a prima que lê meu blog. Elas cumprimentaram e se apresentaram ao Gustavo, que foi lá para fora depois.

- Ele é bem gato hein irmã. – comentou Marina

- Tão se pegando? – a prima indagou

- Informação confidencial. – ri brincando – Bem, sim!

- Tá podendo hein? Como o conheceu?

- A gente se cruzou no prédio. Ele mora no mesmo andar que eu.

- Alias, - minha prima dessa vez – o fotógrafo que tirou as fotos do Contemporânea era Gustavo também e a cara dele não me é estranha...

- É impressão sua, prima!

- Não, olha só! – minha irmã – Eu estava lendo o blog antes de vir e tinha deixado o perfil para ver depois e é o Gustavo mesmo.

- Ele conhece a dona do blog?

- Não sei. Só perguntando a ele. Eu nem sabia que ele tinha tirado fotos dela. – menti na maior cara de pau

Não ia deixar o segredo ser revelado tão fácil, mesmo que para elas não houvesse problema, prefiro me prevenir. E elas foram sondar o pobre, espero que ele consiga mentir tão bem quanto eu.

Ajudei a minha mãe a terminar a comida e logo sentamos à mesa, que estava posta no lado de fora de casa, pois boa parte dos parentes vieram. E pelo visto o assunto do almoço seria o Gustavo e as fotos que ele tirou de mim, porque a minha família conservadora não perde a chance de criticar uma mulher independente e que escreve sobre sexo na internet. Isso porque as duas abençoadas comentaram entre si e as tias fofoqueiras ouviram.

Como sempre, a minha tia mais velha fez a oração agradecendo pela comida e a reunião da família ali. Mal colocamos a comida no prato e uma veio com o assunto de cara:

- Então, Gustavo, soube pelas meninas que você é fotógrafo e que tirou fotos daquela sem vergonha daquele blog que elas adoram ler. É verdade?

- Como disse a elas – ele respondeu – a Echii mora lá no meu prédio. Acabei cruzando com ela sem querer. Como ela já estava procurando um fotógrafo, reunimos o útil ao agradável.

- As fotos ficaram incríveis. – falou Bia – Se eu não tivesse tanta vergonha ia querer umas assim também.

- Nada disso! – repreendeu a mãe dela – Filha minha não tira foto pelada.

- Não é pelada, é de sutiã e calcinha. – respondeu – É bem diferente!

- Tanto faz. É sem vergonhice.

- Essa coisa tinha que ser proibida de existir. Imagina se alguma criança acaba achando.

Eu tentava ao máximo manter a minha boca cheia e fazia questão de mastigar a comida 82 vezes de cada lado da boca, para que ficasse ocupada. Sentia meu sangue ferver com todos os comentários que a família foi falando. Apenas minha irmã e prima me defendendo. Gustavo estava sentando ao meu lado e com certeza notou o quanto eu estava me segurando para não despejar tudo o que eu pensava.

Sabe, não tem problema nenhum eles não gostarem do conteúdo do blog ou até acharem um pouco inapropriado. É só fazer algo bem simples: Não ler, não visitar e não comentar sobre. Bem ou mal, eles estão me dando ibope, porque sem dúvidas, alguns dos meus tios que souberam disso hoje, vão acabar indo lá conferir. Tudo isso gera mais visitas para mim! Então, agradeço de qualquer maneira!

Os comentários foram no mesmo padrão de sempre, o que estou até bem habituada e calejada de ouvir, mas isso não significa que eu fique menos puta com eles. É bem chato e desanimador quando alguém critica seu trabalho assim.

Consegui me manter a refeição inteira quieta. Todos acabaram de comer e eu fui ajudar minha mãe a limpar tudo para esfriar a minha cabeça, só que, é claro, se tratando da minha mãe, estava tremendamente enganada. Porque ela resolveu me atazanar também:

- Filha, quando vai arrumar outro trabalho? Estou ficando preocupada!

- Mãe, eu já trabalho, mas só que é de casa.

- E um namorado? Suas primas estão ai casando e tendo filho. Quando será sua vez?

- Por que você me cobra tanto?! – indaguei nervosa

- Pode tentar voltar com o Pedro, ele era um bom rapaz.

- Não, mãe. – fui incisiva – Ele só parecia. Fez um inferno na minha vida!

- Não use essa palavra. Ele gostava muito de você, filha.

- Talvez sim, mas não de um jeito saudável. Eu não tinha confiança e nem energia para nada quando estava com ele. Me sentia sufocada!

- Se continuar sendo tão exigente, vai acabar é ficando sozinha. Nenhum homem vai te querer!

- Que seja assim, mãe! – bufei – Olha, vamos parar com essa conversa, porque eu sei que não vamos chegar a lugar nenhum. Eu sei o que faço da minha vida!

- Se é assim que você diz... – falou por fim

Acabamos de lavar a louça e arrumar a cozinha, olhei a hora no celular e vi que já tinha ficado tempo bem além do tolerável para a minha saúde mental. Só que, diferente das outras vezes, eu estava com companhia e não sabia se ele queria ficar mais tempo. Eu esperava que não!

Fui até o quintal e vi o quão animadamente ele conversava com todos, parecia explicar algumas coisas sobre fotografia e sobre a carreira dele. Bem, pelo menos uma pessoa aqui recebe apoio. Se bem que ele não é da família e é homem, não precisa de muito para ser elogiado, basta nascer. Só ver o meu irmão!

E por falar nele, aquele traste ficou olhando de cara feia pro Gustavo. Não sei se não gostou dele ou se é porque ainda é um pouco sentido com o meu término com o Pedro, que é amigo de infância dele. Pelo que sei, de vez em quando, ele ainda vem na casa dos meus pais, mas graças que nunca é quando estou.

Chamei o Gustavo num canto, interrompendo a conversa e perguntei:

- Olha, você já quer ir embora? – sem graça – Eu vi que a conversa está boa!

- Por mim, ficava um pouco mais, mas eu já percebi seu desconforto desde mais cedo. Se você quiser ir, nós vamos!

- Obrigada! Eu não aguento ficar um minuto mais. – respondi sorrindo

Despedimo-nos de todos, pegamos nossas coisas, ganhamos quentinha para comer mais tarde e rumamos de volta ao condomínio.

- Eu me diverti muito hoje, Helena. Obrigado pelo convite!

- Eu quem agradeço, por pouco não surto lá.

- Sei bem, é complicado. Almoço de família parece que é clichê acontecer essas coisas.

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