sexta-feira, 13 de julho de 2018

Capítulo 43 - Viagem Especial

Mais uma semana se passou, muito ocupada e ainda teve um outro evento:  o nascimento da minha irmã Umi.
Eu não pude assistir ao parto porque estava em reunião com um cliente que apareceu de repente. Só pude sair após ouvi-lo por horas a fio. Mentalmente estava pedindo socorro!
Ainda busquei Kazuko e Takumi em casa e fomos ao hospital. Chegamos ao quarto e estavam meu pai, Minami, Minori, Kyousuke, Akira e claro, Shiori. Minha irmãzinha estava num berço ao lado da cama.
- Caramba, filho, vocês demoraram. – meu pai falou
- Desculpe. Um cliente chato ficou horas conversando comigo.
- E ainda foi nos pegar em casa. – Kazuko completou
- Que bom que vieram, de qualquer forma, mesmo sendo um tanto tarde. – Shiori falou
- Tinha que ver minha irmãzinha.
Cumprimentei os outros e passamos um tempo lá conversando. Minha irmã é a coisa mais fofa que já vi. É raro nascer meninas em minha família.
Claro que comentaram sobre o parto, com detalhes que muita gente detesta ouvir. Parece-me que correu tudo bem.
- Ele fala isso porque não é ele quem sente a dor. – Shiori ironizou
Foi uma gargalhada de todos dentro do quarto. Então, Rin, a médica da família e amiga, entrou.
- Ora, vejo que estão todos aqui finalmente.
Rin só perguntou a Shiori como ela estava se sentindo e verificou sua recuperação. Ela estava preocupada com sua paciente estar com visitas no quarto, assim não ficaria quieta para descansar. Porém, só o marido ficaria para dormir, o resto retornaria. E foi o que aconteceu em seguida. Levei minhas madrastas e meus irmãos para casa e voltei com Kazuko depois.
Chegamos e Kazuko pôs a mesa enquanto eu esquentava a comida que Keiko deixara pronto para nós. Ela colocou Takumi na cadeira dele, que é própria para bebês e arrumou o prato dele e eu levava as travessas com a comida, pratos e talheres para a mesa. Logo minha esposa se juntou a mim. Aproveitamos a comida e Takumi não parecia ter fome, mas Kazuko empurrava a comida na boca do menino. Até que ele “bufou” com os lábios e foi sujeira na Kazuko, na toalha de mesa e até em mim.
- Takumi, olha os modos. – Kazuko gritou
- Ele não tá com fome, amor.
- Eu sei, mas se não comer agora, na hora de dormir não vai largar meu peito.
- Vai ver é isso que ele quer.
E o moleque fez de novo. Ela colocou o prato de comida dele na mesa e pôs a mão na testa, desistindo. Levantei e fui tentar, mas ele continuava na mesma. Então resolvi usar minha experiência em argumentação com ele.
- Ei, cara, vai mesmo rejeitar essa comida gostosa que a mamãe fez para você? – ele me olhou sério – Tem tudo o que você gosta, tem arroz, cenoura, carne. Vai dizer que não gosta de carne? – tentei dar comida e nada – Já deixo avisado que a mamãe é minha hoje. Se não comer vai ficar com fome. – fui eu com a colher na boca dele e ele abriu o máximo que pode – Muito bem! – sorri e garoto comeu até o final
Kazuko me olhou em choque.
- Que foi? – perguntei
- Nada, só não esperava isso.
- A gente precisa negociar algumas vezes.
Continuamos a refeição e conversamos:
- A Umi é tão fofinha, parece com a Shiori. – Kazuko comentou
- Verdade.
- Só de vê-la me dá vontade de ter outro. Quero dar uma netinha pro seu pai.
- Vamos com calma, Kazuko. Deixe Takumi crescer um pouco.
- Claro. Não quero ter dois bebês para cuidar. Um já dá trabalho, imagina dois.
Depois ela me perguntou do trabalho e o assunto seguiu dai. Arrumamos tudo depois e nos preparamos para dormir. Tomei banho primeiro e ela foi com Takumi depois. Decidi matar o tempo até ela sair para ler mais um trecho do diário, que era de mais uma viagem a casa de praia, quando a pedi finalmente em namoro.

“Diário amado,
Estou muito feliz, por isso lhe chamei assim.
Lembra que falei que Makoto e eu iríamos a casa de praia nesse fim de semana? Saímos naquela noite mesmo, horas dentro do carro.
Chegamos de madrugada e cansados, só nos jogamos na cama e apagamos. Só acordamos no quando o Sol atravessou os vidros da janela e nos incomodou. Levantamos ao mesmo tempo e descemos para comer, usando o que trouxemos de casa. Depois trocamos de roupa e fomos direto à praia para aproveitar o Sol e brisa matinais. Demos um tempo antes de mergulhar e a água estava maravilhosamente gelada.
Almoçamos em casa mesmo e passeamos pela cidade, especialmente a área comercial. E eu praticamente obriguei Makoto a comprar algumas roupas mais leves, para usar nas férias. Ele só tem roupa de trabalho ou pijama. Que nervoso! Renovamos o guarda-roupa dele, graças a mim: Kazuko consultora de moda. E também uma ou outra coisa para mim.
A tarde de compras passou muito rápido, quando vimos já tinha escurecido e a fome veio junto. Procuramos um restaurante para jantar e encontramos um que ficava de frente para a orla (e perto da casa, para o retorno ser mais rápido). Nosso pedido foi a coisa mais clichê possível: Peixe.
 Comemos, pagamos e no caminho de volta, conversávamos:
- Divertiu-se hoje? – ele perguntou
- Claro! Quem não gosta de fazer compras, não é mesmo?
- Eu nem tanto assim. - levou a mão da sacola de roupas – Mas ganhei uma parte nova no armário.
- Você só tem terno e gravata. Que agonia!
- Eu não saia tanto assim antes. Você que me faz ficar mais tempo fora de casa.
- Me culpando então?
- Exatamente!
Xinguei-o e dei-lhe um tapa no ombro, rindo junto com ele. Logo chegamos, entramos e ele disse, se espreguiçando:
- Quero só um banho e cama. Foi um dia longo.
- De fato!
Obviamente, não eram só essas duas coisas que ele queria. Tinha uma entre elas, chamada sexo. Vou ser sincera que eu queria também. Após isso, pegamos no sono.
Acordei no dia seguinte com um cheiro bom vindo do andar de baixo. Nem tive preguiça, em cinco minutos tinha descido.
- Bom dia, Kazuko. Estava terminando e ia te chamar. – Makoto disse sorrindo
- Foi esse aroma que me acordou.
- Imaginei. Aconteceria a mesma coisa comigo. – trouxe um prato e se sentou a mesa – Pronto agora podemos comer.
Era um café da manhã em estilo americanos, com direito a ovos, bacon e torradas.
- Gostoso! – falei com a bocha cheia – Nunca comi nada assim, não no café.
- Eu sei. Por isso que eu fiz.
Apenas sorri. Aproveitamos o resto da refeição conversando sobre outras coisas. Quando terminamos, ele disse:
- Coloque seu biquíni. Vamos naquela praia atrás da colina. Preparei umas coisas para fazermos um piquenique lá.
Fiz conforme ele disse. Acho que essa foi a razão do café reforçado, a caminhada até a “praia secreta” era longa. Chegamos lá quase meio-dia, já que tínhamos acordado um pouco mais tarde. E claro, o percurso deu fome. Esticamos a toalha e nem arrumamos bonitinhos para comer, o estômago não deixou. Abrimos a cesta e pegamos dali mesmo. Demos um tempinho e fomos mergulhar. A água estava deliciosa e bem calma, sem muitas ondas. O melhor de tudo isso é que estávamos apenas nós dois ali.
As horas passaram depressa. O Sol estava se pondo e eu fiquei preocupada com a nossa volta, pois o local da trilha tinha a mata bem densa. Transpareci isso falando:
- Makoto, logo vai escurecer. É melhor irmos. – levantei-me
- Kazuko, calma. – ele segurou meu pulso – Trouxe uma lanterna boa e que vai ajudar no caminho.”
Eu só pensava: por favor, Kazuko, não estraga o clima. Eu quero te perguntar algo importante.
“Bufei e sentei novamente.
- Aproveita a vista. A gente não precisa ter pressa para nada aqui. É uma viagem para relaxarmos. – acariciou meus cabelos
E assistimos a grande estrela ir desaparecendo na linha do horizonte, até se misturar com a água. Foi quando Makoto me pegou desprevenida, completamente desprevenida.
- Kazuko, lembra que eu revelei meus sentimentos por você aquele dia?
- Por que não me lembraria?
Ainda não me deu uma resposta.
- Resposta? – engoli a seco, um pouco nervosa
- Se corresponde a esses meus sentimentos ou não. O que sente por mim, Kazuko?
Eu sabia perfeitamente o que dizer, mas não como. Havia um medo secreto em mim, por conta de todas as histórias de ex-escravas que se apaixonaram por seus donos que chegaram aos meus ouvidos. Um silêncio se formou entre nós, só se escutavam as ondas chocando-se com a areia. Makoto disse:
- É só falar se sim ou não. – olhou para mim
A boca travou. A língua imóvel e os lábios pareciam unidos por cola. Esforcei-me muito para finalmente emitir algum som. E foi de uma vez, para ser o menos indolor possível, usando todos os culhões que nunca usei na vida inteira:
- Sim! Eu amo você, Makoto.
E ele deu o sorriso mais sincero que já vi e falou:
- Eu também amo você, Kazuko!
E o mais natural aconteceu: um beijo.
Ficamos por lá mais um pouco antes de voltarmos, pela trilha mesmo, a maré estava alta para contornar a colina por fora. Passávamos pela outra praia antes de chegar a casa, quando ele me pegou de novo de surpresa:
- Kazuko, o que acha de namorarmos? – de uma maneira não-tão-romântica, confesso – Sem fantasias, de verdade?”

Tratei de explicar, pois já fingimos ser um casal antes. Provavelmente ela pensou ser outra fantasia minha.

“- Você está brincando né, Makoto? – indaguei, incrédula
Então ele parou e falou, virando para mim:
- Acha mesmo que é brincadeira? Eu terminei com a Kana porque percebi que sinto algo por você. E, eu não quero mais que me veja como seu dono. Quero ser algo além e melhor do que isso: um homem que te ama.
- Então, eu aceito. – sorri – Como a mulher que te ama. Não como sua escrava.
E, de um forma diferente, com um abraço, nos tornamos namorados.
- Mas vai ser nosso segredo por enquanto. – ele completou
Assenti apenas.
Terminamos o caminho e de tão cansados, só tomamos banho e dormimos. Retornamos hoje de manhã. Makoto está trabalhando em casa e eu estou aqui.
Era só isso que queria lhe contar. Não consigo conter minha felicidade.”

E o trecho acabava aqui, sincronizando com a saída do banho. Takumi foi colocado no berço quase dormindo e Kazuko deitou ao meu lado e perguntou:
- Já leu seu capítulo?
- Sim!
- E o que aconteceu nele?
- Te pedi em namoro.
- Eu lembro. Do jeito mais anti-romântico possível.
- Estava nervoso, me dá um desconto.
- Tudo bem, tava na mesma naquele dia. – e riu – Boa noite, amor.
- Boa noite, querida.
Apagamos as luzes dos abajures e fomos dormir.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Capítulo 42 - Tudo em família

A semana passou mais depressa do que pude perceber, foi uma semana bem agitada, nem tive como ler o diário. O tempo transcorrido em ambos foi o mesmo.
Acordei cedo demais no sábado, por conta da falta de sono. Fui à sala, peguei o diário e me sentei para ler no sofá. A anotação era do dia em que fomos à casa do meu pai fazer uma visita e claro que contei a ele tudo o que aconteceu comigo e com a Kana.
Comecei a leitura.

“Olá diário,
Faz pouco tempo que voltamos da casa de Koishiro e ele me chamou para uma conversa séria, depois de falar com Makoto. Até fiquei com medo, mas não era nada demais. Porém, vamos por partes.. .Fomos lá para almoçar e passar à tarde, algo bem em família mesmo. Qual não foi a surpresa de ver que Kana não estava.
-Ué, cadê a Kana, filho? – Koishiro indagou
- Que Kana, pai? Terminei com ela tem uma semana.
- Isso sim é uma boa notícia. – Shiori soltou
E este assunto acabou aqui. Cumprimentamo-nos e sentamos a mesa para comer. Não ocorreram muitas conversas durante, a comida estava muito boa para tal. Depois nos dirigimos para o lado de fora da casa, onde inclusive fica a piscina e o jardim, pena que era um dia um pouco frio para um mergulho. Foi nesse momento em que os dois foram conversar a sós do lado de dentro. Enquanto isso, eram as madrastas que falavam comigo:
- Sabe por que ele terminou com ela? – Minami perguntou
- Não faço ideia. Só sei que foi depois do evento do meu aniversário.
- Alias, parabéns por enfrentá-la e pelo seu aniversário. Makoto nem falou nada. – Minami completou
- Ele também esqueceu, só lembrou porque eu disse.
- Vamos ficar te devendo o presente.  – Minami novamente
- Agora fiquei curiosa. Conta com detalhes. – Minori pediu
Contei tudo e elas ficaram chocadas.
- Gente, a Kana era assim tão agressiva? – indagou Shiori
- Antes disso tínhamos brigado, no sentido físico da coisa.
- Vocês “caíram na porrada”? – Shiroi soltou e todas rimos
- Tá mais para ela me bateu muito e eu dei um soco certeiro nela.
- Uau, arrasou! – Minami entrou na brincadeira
A conversa transcorreu comigo contando como estavam as coisas depois da saída da Kana. E minha relação com Makoto pode até parecer “normal“ para quem olha de fora, mas para nós está confuso. Revelamos nossos sentimentos um ao outro e ficou por isso. Nem sei se daremos o próximo passo, se é que realmente há um.
- Ele realmente terminou com ela por sua causa. Seus relatos só reafirmam. – Minori comentou
Eu, no meio de um interrogatório e completamente aflita com o que diabos Makoto e o pai dele estavam conversando.”

Não era nada muito além do que acontecia do lado de fora. Meu pai tava me sondando e muito. Tava quase completando um dossiê. Perguntou o que houve e pediu detalhes, mas apenas lhe contei os fatos. Só que é claro que ele ia mais a fundo, sabia que havia algo diferente. Ele tinha conversado sobre isso comigo antes.
- Então, terminou com a Kana por estar apaixonado pela Kazuko?
- Sim!
- Era só questão de tempo mesmo para você perceber.
- Peraí, sabia antes de mim?
- Sim, Makoto, você é teimoso igual a mim. Fiquei por muito fingindo que não sentia nada por suas madrastas. Escondi meus sentimentos por medo de estar fazendo algo errado ou do que iriam fazer. Mas, me sentia pior ao me lembrar de como as maltratei. Tenho vergonha de tudo o que fiz a elas no começo, só que logo notei meus erros e parei de fazê-lo. Porém, esse peso se mantinha sob meus ombros, junto com a dor da perda da sua mãe. Feri outros para tentar me curar, mas só fiz mais ferimentos. – uma lágrima correu – Desculpa, filho. – enxugou com a mão
- Não precisa ter vergonha de mim. – falei a ele, segurando a sua mão livre e me permitindo chorar também
Ele prosseguiu:
- Mesmo com tudo isso, com todos os meus defeitos e ações, elas aprenderam a me amar. E eu aprendi a amar de novo com elas. Nós quatro temos nossos traumas e  apoiamos uns aos outros. Só assim que nos mantemos firmes. E foi escolha delas ficarem comigo, eu lhes dei a liberdade, porque não suportava vê-las presas a mim como escravas, mas elas voltaram para mim. Quando era jovem não entendia tanto assim o amor, aprendi com sua mãe e me fechei quando ela se foi, nunca achei ser capaz novamente. Agora percebo o quanto o amor é inusitado. Não tem critério para amar, não se escolhe classe ou passado e nem como vai acontecer. Só acontece! Tenho certeza que foi assim entre você e a Kazuko, não é?
- Sim. Revelamos nossos sentimentos um ao outro, porém, só eu o fiz diretamente.
- Mas ela o ama, não precisa dizer. Tem meses que ela demonstra. Como você acha que ela suportou a Kana?
- Não tinha pensado por esse lado.
- Como a liberdade que ela tem, com certeza teria fugido. Mas, dirá em seu tempo. E estão, sei lá, namorando?
- Não. Eu nem tive coragem para pedir.
- Você tem medo?
- Claro que tenho. Vai que...
- Que nada, Makoto! Porra! Acha mesmo que ela vai rejeitá-lo?
- Sempre existe esta dúvida.
- Tira ela da sua cabeça agora. Faz esse pedido ser especial, vai passar um fim de semana na casa de praia e a peça lá.
- É uma boa ideia, pai. Obrigado!
- Espero que seja a última vez . Tô cansado de ser seu cupido.
- Para de bobeira, pai. – e ri
Após isso, quase todos voltaram para dentro para fazer companhia.

“E carreguei isso até a ‘entrevista’ acabar. Precisei ficar um pouco sozinha lá fora quando elas retornaram para o lado de dentro.
E quem me aparece uns minutos depois? Koishiro!
Minha cabeça começou a doer de nervoso, se é que é possível. Ele se sentou na cadeira ao meu lado e começou:
- Kazuko, posso falar com você?
- Pode. – saiu um sussurro
- Bem, perguntei ao Makoto exatamente o que houve, entre ele e a Kana e entre vocês.
- E o que ele disse?
- Nada além do que eu já esperava.
- Por que será que eu tenho tanto medo? Estou tão nervosa. – desabafei
- É algo novo para vocês dois. Ainda mais você, que escondeu seus sentimentos por mais tempo. Não precisa ter medo. Vai dar tudo certo!
- Assim espero!
- Lembra o que lhe falei na minha festa de aniversário? Da pessoa perfeita para meu filho estar diante dele? Ele está começando a perceber isso.
- Ele já percebeu.
- Ainda não. Makoto ainda não lhe deu o valor que merece, só meteu vocês em histórias estranhas e fantasias malucas.
- Tipo a do casamento?
- Esse é o maior exemplo. Ainda acho que era a vontade secreta dele de namorar com você.
- Tem mais uma, que é mais maluca.
- Qual? – arregalou os olhos, curioso
- Ele comemorou meu primeiro aniversário de escravidão.
- Quê? Ele não estava com a Kana na época e disse não querer traí-la?
- Despistou-a. E quem foi o  escravo naquela noite foi ele. Uma inversão de papéis.
- Agora eu me pergunto o porquê dele ter feito isso.
- Segundo argumentos dele, para que me sentisse melhor. Mas acho que foi a forma dele mentir a si mesmo que sentia algo por mim. Nossa relação é só dono e escrava e só seria isso.
- Ele mentiu para si enquanto estava com a Kana.
- Koishiro, acho melhor pararmos essa análise do Makoto que logo ele nos escuta.
Ele riu.
-Tem razão. Acabamos o assunto aqui. – se levantou e se ajoelhou na minha frente, pegando minha mão – Eu espero, sinceramente, que meu filho me escute. Que dê certo entre vocês. Que ele não caia nos mesmo erros que eu.
- Ele não vai. E se fizer, dou um tapa na cabeça dele. – respondi sorrindo, Koishiro correspondeu
Assim, voltamos para o lado de dentro. E Makoto nem perguntou nada ao nos ver. Com certeza, o pai já o havia avisado.
Não tardou para irmos embora. Koishiro deu a chave da casa de praia para viajarmos no próximo final de semana e deu uma piscadinha para o filho. Isso está me cheirando a planinho dos dois.
Juntar-me-ei a Makoto agora.
Até depois!”

Fechei o diário e a barriga roncou alto. E uma voz veio do corredor:
- Eita fome! O vício é tanto que esquece até de comer. – era a Kazuko – Bom dia!
- Estava te esperando para comer.
- Toma conta do Takumi enquanto arrumo a mesa. – colocou ele sentado ao meu lado no sofá e me deu um beijo
Fiquei brincando com ele, comemos e aproveitamos o resto do dia juntos.

sábado, 30 de junho de 2018

A Dama e o Forasteiro


“Você é o destino, você é o trovão dos cascos
Sendo a paixão do meu amor, você me perseguiu através do céu gelado e do solo nevado
Uma polegada de luz, uma polegada do meu amor
Uma flor de cereus, uma flor de nuvem
Uma flor de floco de neve, uma flor de sonhos
Realizada com cuidado no coração da minha palma
Uma única semente de poeira, uma árvore Bodhi
Uma única estrela cadente e apenas você
Realizada com cuidado no coração da minha palma”     

(Heart of Palm - Shou Zhang Xin – Dorama: Prince of Lan Ling)

China Antiga, 776 a.c

Na vila de Xiangzuishan, as jovens moças em idade para casar tem que confeccionar um robe para o futuro marido, que a escolhe na cerimônia realizada na praça central da vila, onde todas as jovens se apresentam aos pretendentes.
Algumas passam meses e anos fazendo seus robes. As mais pobres fazem de algodão, enquanto as mais ricas fazem com as sedas mais finas e com auxílio das melhores escravas.
Hyuang Yi é filha do ferreiro da vila e nunca foi muito bem aceita por ninguém. Ela sempre ajudou seu pai na loja em que produz armaduras e espadas e outras peças com metal. Ela levava as encomendas, atendia aos clientes e algumas vezes, quando a demanda era grande, ela também fazia o trabalho diante da brasa.
A mãe da jovem falecera quando ela tinha sete anos e desde então eram apenas ela, o irmão mais velho e o pai. Ela se lembrava de sua mãe como uma mulher delicada e sempre disposta. De um dia para outro adoecera e após poucos dias não resistira. O irmão entrara para o exército do imperador havia uns anos e só aparecia em casa algumas vezes por ano.
Aproximava-se a época de Yi procurar um esposo e precisava fazer seu robe. Porém, ela sabe que ninguém nunca a vai escolher. Só que seu pai – Hyuang Ping – queria ajudar a filha.
- Filha, isto aqui é para você. – lhe estendeu uma sacola lotada de moedas
- Mas, são suas economias, pai.
- Para você comprar o melhor tecido para tecer seu robe. Precisa achar um bom marido, filha.
- Sabe que ninguém me escolherá.
- Não custa se esforça e tentar.
- Custa sim. As economias! – devolveu a sacola – Não preciso disso.
- É uma ordem que use este dinheiro para comprar o precisa para o robe.
- Pai... Por favor...
- Só faça o que lhe mando.
- Não precisava mesmo, mas... Che Che! – sorriu
A jovem Hyuang foi imediatamente ao mercado e comprou o que de melhor podia com aquele dinheiro para seu novo projeto. Ela também nunca fora muito jeitosa com bordados. Só lembrava o pouco que a mãe ensinou. Contudo, o trabalho no fogo tirou toda a delicadeza e maciez das suas mãos, ela rezava para não ter perdido a mão do bordado. Pelo menos a agulha doeria menos se lhe espetasse os dedos. Afinal, lidava com ferro e calor. Uma agulha e uma linha devia ser algo mais simples.
Outras jovens da mesma idade de Yi estavam fazendo compras e não resistiram quando a viram:
- Olha lá, é a filha do ferreiro, ou devo dizer: a nova ferreira. Alguém tem que seguir com o ofício daquele velho. – um coro de risos – E por que compra tecidos tão finos? Eles não combinam com você.
- Não são para mim. É para eu fazer meu robe.
- E você acha que um homem vai querer algo feito por alguém como você?
Mais uma risada uníssona, mas ela não respondeu. Há anos aquilo se repetia e ela aprendeu que o melhor era deixá-las falando sozinhas mesmo. Terminou o que tinha que fazer e voltou para casa. Com as medidas do pai, ela começou a costurar o robe. Ela dedicava sempre o tempo livre que tinha, após os afazeres da casa para continuar o belo bordado de dragões que fazia nas mangas.
***
Os dias se passaram e Hyuang Yi foi ao rio do lado de fora da vila para passear, relaxar e pensar. Aproveitou que podia demorar um pouco para voltar e continuou ajeitando os detalhes da roupa, pois já faltavam poucos dias para a grande cerimônia. Até que ela ouviu um cavalo relinchar. Pensou ser de algum viajante de passagem por ali apenas. Só que o som se repetiu, sem dar a impressão de ter se afastado. Ela se virou e viu que o cavalo carregava um homem ferido.
Apesar do medo, ela foi averiguar e viu o corte que vinha de seu ombro. Tentou chamá-lo e ele estava semi-acordado.
- Muito bem, Ta Yue. – olhou para a garota - Senhorita, pode me ajudar? Estou ferido.
- Claro! Tem como descer do cavalo?
- Sim. Mas me ajude!
Yi ajudou-o a descer e colocou-o sentado perto do rio, encostado numa pedra. Amarrou o cavalo numa árvore e foi cuidar do homem. Baixou a manga de sua roupa e viu que o corte fora comprido e bem feio.
- Onde arrumou isso?
- Uns ladrões me atacaram na estrada, perto daqui. Tentei me defender, mas eles eram muitos. Eles levaram minhas coisas e me deixaram para morrer. Sorte que tive forças para subir no meu fiel companheiro e ele lhe achou.
- Talvez mais um pouco e você não estivesse mais entre os vivos. – pegou a única coisa próxima para limpar o ferimento, seu robe em construção – Isso vai doer!
- Não precisa limpar o ferimento de um forasteiro com um tecido tão bonito desses.
- Eu não tenho outra coisa.
Ele reclamou um pouco de dor. Rapidamente o ferimento estava limpo. A garota usou o tecido para também estancar o sangue, amarrando-o no ombro do homem.
- Tem forças para caminhar agora?
- Sim.
- Você vai precisar de um lugar para ficar até se recuperar. Pode ser na minha casa!
- Obrigado.
Assim, com o homem em um ombro e o cavalo sendo puxado por outra mão, Yi trouxe o forasteiro para sua casa.  Colocou-o sentado a mesa de refeição.
- Pode ficar no quarto do meu irmão. Ele é do exército e vem pouco em casa.
- Filha, quem é este homem? – o pai apareceu
- Ah, é um forasteiro que encontrei ferido na estrada. Ele pode ficar uns dias até se recuperar?
- Claro, sem problemas. Será bem tratado, senhor...
- Shen Wei. E você?
- Sou Hyuang Ping.
- E qual seu nome, senhorita?
- Hyuang Yi. – sorriu – Vou preparar a comida. Deve estar com fome.
- Um pouco.
Hyaung foi acendendo o fogo à lenha, mexendo as panelas, colocando os ingredientes. Enquanto isso o Wei só a observava em sua tarefa e não resistiu ao impulso de perguntar:
- Qual o ofício de seu pai?
- Ele é ferreiro. O único da vila.
- E você? O que faz além da parte doméstica?
- Eu o ajudo com a ferraria. Levo encomendas, atendo e também confecciono.
- Por isso são suas mãos são assim.
- Assim como? Não entendi. – virou-se para ele
- Calejadas. Não são as mãos de uma dama.
- Eu não sou uma dama, Senhor Shen.
- Para mim, você é. Pelo menos é tão bela como uma. – sorriu
- Ainda não viu as outras da vila. Elas são bem mais bonitas do que eu. Eu não tenho tempo para metade das coisas que elas fazem, como cuidar da aparência.
- Não as conheço, então não posso dizer nada.
- Preciso ver como está seu ferimento. – disse se aproximando – Nossa! Se não fizer nada vai ficar feio. – e colocou, depressa, uma espada para aquecer no fogo.
- E este robe aqui? – indagou Wei, olhando – Por que estava com ele?
- É para meu futuro marido, que ainda não sei quem é. Aqui na vila temos a tradição das moças fazerem um desses e o homem que quer desposá-la aceita como presente.
- Uma pena ter estragado algo tão lindo comigo. Você mesma quem está fazendo?
- Sim! Minha mãe me ensinou um pouco quando era menor. Estou usando o que me lembro. – ela limpou novamente o ferimento dele e finalmente olhou a enorme mancha de sangue na roupa e sentou desolada – Como eu vou limpar isso agora? Foi todo o dinheiro do pai nisso.
- Desculpe-me por isso.  – disse Wei – Tem algo que eu posso fazer para te ajudar?
- Não tem necessidade. Você está se recuperando. Eu darei um jeito, não se preocupe.
- Você disse que isso é para dar de presente não é?
- Sim! – respondeu pegando a espada do fogo – Um pouco de calor para seu machucado.
Normalmente, se colocava a espada na parte que era maior para se cauterizar. Porém, marcava a pele. Hyuang aprendeu a fazer isso usando a parte mais fina da lâmina. Por ser também um ferimento de espada, isso ajudava. Calmamente, ela posicionou a parte fina da espada no corte e o calor fez o forasteiro gritar de dor. Após esse grito que veio do lugar mais profundo de sua garganta, o ferimento estava fechado e não sangraria mais.
- Continue o que ia dizer... – sorriu Yi
- Bom... – colocou a não no machucado – Não é muito, mas é algo que pode complementar seu robe. – e lhe estendeu um belo pedaço de pano vermelho
- Obrigada! - pegou – Combina perfeitamente com este marfim. Usarei nas golas!
- Fará seu robe ser o mais bonito de todos!
- Não é uma competição! - riu
- Mas, talvez o melhor partido se interesse pelo robe mais belo de todos.
- Acredito que isso seja mentira. As jovens mais ricas atraem os mais ricos. – sentou-se desanimada – Eu não queria fazer isto, mas meu pai insistiu tanto que...
- Eu entendo! – sorriu Wei – Também já fiz coisas só para agradar meus pais.
- Sendo sincera, senhor Shen, casamento não é algo para mim. Como você mesmo disse: Não sou uma dama.
- Pode vir a ser uma. Basta a senhorita querer.
Hyuang terminou a comida logo e serviu o hóspede, que saciou a sua fome. Depois, a jovem o colocou para descansar no quarto do irmão e foi terminar os outros afazeres da casa. Especialmente em dar um jeito de limpar o robe.
E assim, os dias foram passando, Hyuang e seu pai cuidavam do enfermo. Seu ferimento não era tão grave, mas ele precisava se ficar com braço em repouso por conta de ter caído do cavalo e o corte ter sido próximo a um nervo.  Wei se tornou a companhia de Yi quando o pai estava ocupado demais trabalhando. Eles conversavam e riam, sobre qualquer coisa. Um dia, foram ao mercado da cidade juntos, pois precisava comprar coisas para repor o estoque da casa. Conversavam no caminho:
- Senhor Shen, você não me contou nada sobre você.
- Não tem muito o que saber sobre mim.
- Bem, eu prestei atenção nas roupas que você estava quando apareceu lá no rio. É de família nobre, não?
- Sim, eu sou. – respondeu sem jeito – Não quero que me trate diferente por conta disso.
- Claro que não. Só fiquei curiosa mesmo. Peço perdão por isso.
- Não precisa se desculpar. Só saiba que eu estou a serviço do Imperador assim como você.
- É soldado como meu irmão?
- Exatamente.
E chegaram ao mercado e logo as moças repararam naquele homem que vinha junto da jovem Yi. Ele era um rosto diferente e novo por ali. Apesar de trajar as roupas do irmão de Hyuang, Wei tinha uma aparência de nobre que não conseguia de desvencilhar e os outros perceberam isso.
- Esse rapaz não é daqui. – disse um
- E por que está andando com a filha do Hyuang Ping? – comentou outro
Eis que, uma das moças das classes altas abordou o forasteiro.
- Senhor, bom dia. És novo por aqui? Nunca vi seu rosto.
- Sim, senhorita. Estou apenas de passagem, logo voltarei a meu lar.
- Se quiser se hospedar em minha casa.
- Agradeço o convite, mas já estou instalado na casa de Hyuang Ping.
- Está com eles? Sabe que eles são a pior família daqui não é?
- Se são ou não, isso é opinião sua. A senhorita Hyuang me resgatou na estrada, ferido.
- Ferido? Como?
- Uns ladrões me pegaram na estrada e só fiquei com minhas roupas e meu cavalo. Estou me recuperando para poder terminar minha viagem.
A moça sorriu, desejando melhoras ao homem. E no mercado também havia uma senhora mais velha, acompanhada de uma outra jovem. Todos a cumprimentavam e se curvavam, pedindo bênçãos. Wei achou aqui estranho e perguntou a Yi:
- Quem é aquela senhora? Deve ser importante por aqui.
- Sim, é nossa sacerdotisa Yin Jingyi, ela que cuida do templo e também quem faz o ritual do robe todos os anos e aquela é a aprendiz dela: (nome aprendiz).
Shen se afastou de Yi e foi conversar com a sacerdotisa.
- Bom dia, sacerdotisa. É uma honra conhecê-la.
- Quem és tu, meu jovem? Nunca lhe vi por aqui.
- Sou um forasteiro, apenas de passagem.
- Ora, seja bem-vindo.
- Bom dia, sacerdotisa Jingyi. – falou Hyuang, que se aproximou
- Está acompanhada deste senhor, menina?
- Sim, senhora. Está hospedado em minha casa.
- E seu robe? Há quantas está?
- Estou terminando. Ficará pronto a tempo da cerimônia.
- Soube que gastou as economias de seu pai para comprar os tecidos. – disse a sacerdotisa
- Ele me deu esse dinheiro com este propósito.
- Ainda lembro de quando seu pai escolheu o robe de sua mãe, pois era o único que havia sobrado. Mesmo sua mãe sendo de uma família boa, arrumou um pretendente como seu pai. Uma pena, ela tinha tanto potencial. Espero que não lhe aconteça o mesmo, senhorita Hyuang.
- Não acontecerá, senhora. Até a cerimônia.
Despediram-se e os dois continuaram as compras. Yi ficava triste quando lembravam que sua mãe havia sido a última a ser escolhida e pelo pai dela. Não que ela odiasse o pai, mas as pessoas sempre faziam questão de lembrar do “destino trágico” de sua família. Porém, Hyuang Yi sempre sentira o amor em sua casa. Seus pais se amavam desde muito antes do ritual do robe. Assim como Yi, sua mãe também não era a jovem mais adorada da vila. Por esses motivos que a garota não queria fazer um robe. Ela tinha medo da história se repetir ou até de acontecer algo pior: ninguém a escolher. Shen só conseguiu comentar com este assunto sobre ela quando retornaram a casa.
- Agora eu entendo o porquê de tudo que sua família passa. Eu lamento, senhorita Hyuang.
- Tudo bem. Eu já estou acostumada a ser tratada assim por todos. Todos se lembram da minha mãe dessa forma: A jovem que largou tudo por amor. – deixou escorrer uma lágrima – Mas, sabe, senhor Shen, o amor que vejo nessa casa, como era meu pai com minha mãe, eu com meu irmão, acredito ser a coisa mais nobre e rica que existe. Eu não trocaria nada disso por um status em que as pessoas só querem se aproximar de mim pelo o que eu tenho, pela minha posição e não por quem sou.
A jovem se permitiu chorar, era como tirar algo engasgado de dentro de si. Wei ficou comovido e a abraçou. E nenhum dos dois se incomodou com isso. Nunca, um homem e uma mulher, não casados, se abraçariam daquela forma, ainda mais sozinhos em um ambiente.
- Senhorita Hyuang, - ele falou – saiba que é a pessoa mais nobre que já cruzou meu caminho. Ninguém teria a coragem de sair às ruas todos os dias e ser tratada dessa maneira, inclusive pela pessoa de maior importância neste local. E você tem a honra de levantar sua cabeça e seguir em frente. Isso é algo que ninguém lhe deu, você conquistou sozinha e ninguém também poderá tirar.
- Obrigada, senhor Shen.
- Pode me chamar de Wei, senhorita.
- Chama-me de Yi então.
Eles se olharam, sorrindo. Era algo diferente nascendo naquele momento e que nem eles mesmos entendiam o que era.
***
Na manhã seguinte, Hyuang e Ping tomaram um susto, pois o seu irmão Hyuang Bao apareceu de repente em casa.
- Irmão, o que houve? Veio antes do tempo.
- Sim, eu sei. Mas, é que a minha tropa foi dispensada, nosso general está desaparecido. Como são tempos de paz, nos deixaram voltar para casa.
- O que aconteceu com ele?
- Estávamos acampados um uma planície perto daqui, fazendo reconhecimento das terras do imperador. Ele saiu para uma ronda e não voltou. Acreditamos que tenha se ferido no caminho.
- Seu general está bem, Soldado Bao. Ele foi atacado por ladrões na estrada, mas foi ajudado por esta jovem. – disse Wei aparecendo na cozinha
- General Shen! – exclamou o soldado, se ajoelhando
- Pode se levantar. Afinal, é sua casa.
- Por isso o cavalo não me era estranho. É Ta Yue.
- Sim. Graças a ele que consegui fugir.
- Conte-me senhor, o que lhe aconteceu.
Shen e Bao sentaram-se, enquanto Yi terminava a refeição, e soube com detalhes do incidente que colocou seu general dentro de sua casa.
- Seu pai e irmã têm sido ótimos anfitriões, soldado. Logo estarei melhor e poderei voltar ao comando.
- É uma ótima notícia, general Shen. Aviso aos outros?
- Não. Aproveite e descanse!
Então, Bao viu o robe de Hyuang pendurado e a mostra.
- Que robe é aquele? Você quem está fazendo, irmã?
- Sim. Papai insistiu. – sorriu amarelo – A cerimônia é daqui dois dias.
- Gostei do detalhe vermelho na gola e na ponta das mangas e estes dragões belíssimos. – comentou olhando mais de perto
- Agradeça a seu general, foi ele quem me cedeu este belo tecido como recompensa por tê-lo salvo.
Todos os membros presentes na casa se sentaram a mesa, momentos depois para a refeição.
***
Shen Wei já estava muito melhor e partiria em um dia ou até dois. Hyuang Yi sabia disso e começou a sentir um vazio só de pensar em perder uma ótima companhia e voltar a ficar sozinha enquanto o pai trabalha. Ela decidiu, como uma singela lembrança, confeccionar uma pequena adaga para o homem.
Era uma final de tarde e Yi estava nos fundos da casa, na ferraria, em frente a fornalha. Com uma marreta, ela batia no ferro quente para dar o formato. Ela era até habilidosa, mas não se comparava em nada com o que o pai fazia. O irmão, ao procura-la, a encontrou ali.
- O que está fazendo, Yi?
- Uma adaga. É um presente ao seu general.
- Você sabe que ele partirá logo não é?
- Sim. O corte dele, mesmo que superficial, já se curou e seu braço está quase perfeitamente bom.
- Sentirá falta dele?
- Acho que sim. Ele é uma boa companhia.
- O general Shen é um ótimo partido. Várias mulheres no reino o cobiçam.
- Eu sei. Isso aconteceu até aqui. Tinha que ver quando foi ao mercado comigo, mesmo usando suas roupas, ele atraio as jovens.
- A presença dele faz isso! Não é algo proposital. – uma pausa constrangedora – Enfim, não vou lhe incomodar. Pode deixar que eu faço o jantar hoje.
- Che Che. Assim posso terminar mais rápido aqui.
Mais tarde, Yi retornou a casa, já na hora da comida ser servida e Wei estranhou o sumiço dela e indagou:
- Onde estava, Yi? Não lhe vi a tarde toda.
- Estava ocupada na frente da fornalha, confeccionando uma encomenda.
- Vá se limpar para comermos, espero que a comida do soldado Bao seja tão boa quanto a sua.
Não era uma época muito cheia para o ferreiro, mas a desculpa foi boa para enganar o outro. E o pai sabia que a filha, às vezes, gostava de ficar em frente ao fogo apenas para praticar.
Os quatro comeram num clima agradável. Bao e Shen estavam contando histórias do exército e estavam divertindo os outros dois. Histórias sobre treinamentos, concubinas, noites de banquete após batalhas. Histórias, apenas histórias. E Wei resolveu falar algo importante em seguida:
- Senhor Hyuang, obrigado por sua hospitalidade, mas acho que estou em plenas condições de seguir o meu caminho.
- Claro, Senhor Shen. Eu compreendo e imaginei que assim que melhorasse você partiria. O que é uma pena, pois adoramos a sua presença aqui conosco.
- Quem sabe não retorne outras vezes?
- Quando partirá?
- Depois de amanhã.
- No dia da cerimônia do robe. – falou Hyuang
- Eu sei. Uma pena que não poderei ver quem será seu futuro esposo.
- Talvez ninguém. – ela respondeu, desanimada
- Não pense assim, filha. – falou o pai – Deve ter alguém por ai.
- Assim espero.
***
Dois dias depois, a família se preparava tanto para a filha que participaria da cerimônia do robe, quanto para se despedir do viajante que se hospedara em sua casa. Shen Wei iria embora pouco antes de cerimônia começar. Eles foram a frente da casa para se despedirem.
- Foi um prazer conhece-lo, Senhor Shen.
- Igualmente. – sorriu para o pai da família
- Este é um presente para você, Wei. – disse a jovem estendendo a adaga
O general a retirou da bainha e observou o quão bem polida e brilhante estava. E observou os entalhes do cabo. Mesmo simples, era uma bela adaga.
- Você quem fez? – ele perguntou
- Sim. – escondeu o rosto
- Che che! Guardarei com carinho. – disse dando um beijo na testa da moça – Boa sorte em sua cerimônia.
Assim, ele subiu no cavalo e partiu para fora da aldeia.
Os outros três membros se arrumaram e logo estavam na praça central da vila, prontos para assistir a cerimônia do robe. O pai e o irmão estavam animados e esperançosos de que Yi fosse escolhida. A garota colocou a melhor roupa que tinha, uma antiga da mãe, a mesma que ela usou na sua cerimônia, quando Ping a escolheu como pretendente.
As jovens noivas fizeram uma roda em volta da sacerdotisa Yin Jingyi que as aguardava para poderem começar. Primeiro surgiram comentários, em sussurros pela plateia, por Yi estar ali e que ela estava louca de fazer isso. Então, a sacerdotisa começou:
- Mais um ano e mais uma Cerimônia do Robe. Estas jovens moças passaram o último ano construindo este objeto, que é representação da força de um casamento. É um presente aos seus futuros maridos, que as irão escolher com base no quanto se dedicaram em fazê-lo e é assim que se dedicarão ao casamento vindouro. Jovens senhoritas, vamos fazer uma pequena oração e então, estendam seu robe a sua frente e os interessados olharam. Se ele lhe escolher, você deverá vesti-lo com o robe, simbolizando assim o compromisso assumido entre vocês.
A prece foi um pedido de proteção e o desejo ao que ali aconteceria. Agradecendo aos deuses as fortunas e as dificuldades que passavam em suas vidas, que nenhuma delas era em vão, que lhes traria algo a aprender, assim como o casamento também o era.
Então, as jovens estenderam os robes em seguida. Vários rapazes, incluindo Bao foram observar e escolher. Imediatamente, as moças mais ricas foram escolhidas pelos rapazes mais ricos. Talvez já fosse algo combinado entre as famílias, o robe era só a conclusão disto. Outras foram escolhidas. E os sorrisos e a alegria de vestir o robe em seu futuro marido era algo que não podia ser mensurado. O número de escolhas ia diminuindo e o Yi só se lembrava de que não tinha conseguido tirar a mancha de sangue completamente, restando um pouco de pigmento quase imperceptível, talvez que só ela visse, pois ela soubera a mancha que esteve ali.
Até que restou só uma! Era Hyuang Yi. Parada. De braços estendidos. Segurando com robe feito com as medidas de seu pai. Não havia mais pretendentes. O que ela mais temia aconteceu: Ninguém a queria como esposa! Ela sabia deste fato há muito, mas constatá-lo, diante e toda a aldeia era algo lastimável e vergonhoso. Era uma humilhação do pior tipo, até mesmo das inúmeras que já sofrera. Sentiu o fundo de seus olhos arderem e uma vontade de sair correndo dali e chorar copiosamente, abraçada no fruto do seu fracasso. E talvez, nunca mais voltar àquela vila, vivendo isolada no topo de uma montanha se possível.
Porém, todos se alarmaram, pois viram um homem se aproximar. Ele trajava belas roupas. As roupas de um nobre, mas tinha algo mais, ele vinha com sua armadura de bronze, que reluzia com a luz do sol de meio-dia.
- Quem é ele? Quem é esse homem? – começou o burburinho
Ele estava com seu rosto escondido por trás do elmo e uma máscara, que lembrava uma criatura demoníaca. Ele retirou ambos e as moças daquele dia do mercado se assustaram.
- É o forasteiro. Ele é um nobre? – disse uma
- Ele vai mesmo escolher a Hyuang Yi? – falou outra
Yi não podia se virar para ver quem vinha, uma das regras era se mexer apenas quando falassem e lhe escolhessem.
Shen Wei caminhou e parou diante dela, sorrindo.
- Parece que só sobrou a senhorita. – comentou irônico – Era justamente a que eu queria.
Ela sorriu em resposta. Wei retirou a parte de cima da armadura para que o robe coubesse sem problemas. Todos os outros olhavam perplexos e sem entender nada.
- Sacerdotisa? – a moça que sempre a acompanhava perguntou – Um forasteiro pode escolher uma pretendente? Eu nunca vi nada disso nos livros que estudei.
- É porque nunca aconteceu. Mas, o que diz é que ele precisa aceitar o presente da moça, independente de quem ele seja ou de onde venha.
- Por que eu? – questinou Yi a Wei
- Eu já aceitei o seu presente, mas não foi um robe. – ele retirou algo da cintura – Foi esta adaga. Mas, como gostei do robe, ficarei com ele também.
- A gente mal se conhece.
- Eu já te conheço o suficiente para isso. Não é qualquer Dama que é delicada e faz um belo robe de seda como esse e ao mesmo tempo faz uma adaga tão bonita.
- Pena que não sei fazer armaduras, general. Mas acho que não conseguiria fazer algo tão nobre quanto este cobre. – disse rindo – Quer dizer então que...
- Sim, você é minha noiva, Hyuang Yi.
- E você é meu noivo, Shen Wei. Ou melhor, qual seu título além de general?
- Eu sou apenas o quarto irmão.
- Quarto irmão da linha de sucessão. – completou Hyuang Bao
- O Quarto Príncipe está entre nós. – falou a sacerdotisa
E todos se curvaram diante dele. Até Hyuang Yi.
- Não, Yi. Levante-se.
***
Alguns meses se passaram e no palácio do imperador acontecia do casamento entre Hyuang Yi e Shen Wei, o quarto irmão. Ele trajava o robe que aceitou de presente na Cerimônia do Robe e a jovem vestia a roupa de casamento da mãe.

E assim, a Dama e o Forasteiro finalmente se casaram!
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