sexta-feira, 27 de março de 2015

Capítulo 23 - Grande Trauma

Só pude ler novamente quando voltei do trabalho. Troquei de roupa, peguei o diário e me sentei no sofá. Li uma anotação bem semelhante à do dia anterior. Quando acabei, Kazuko se sentou ao meu lado e ligou a TV.
-Que parte você está lendo? - disse espiando – Ah, essa parte. Eu não gosto muito de lembrar desse dia.
Sabia bem a que dia ela se referia, pois eu dei uma espiada em algumas linhas lá embaixo. Comecei da linha seguinte.
Diário,
Eu nem sei nem por onde começar a dizer tudo o que aconteceu ontem à noite. As lágrimas e a culpa não saem de mim.
Tive um dia bem normal e estava me sentindo ótima. Eu adormeci rápido a noite e foi então que este pesadelo começou. Na verdade, no início parecia um sonho como qualquer outro.
Colocava o bebê para dormir, carregava-o em meus braços. Os olhinhos dele abriam e fechavam, até finalmente dormiu. Observei seu rosto sereno e uma coisa estranha aconteceu. Uma brisa soprou atrás de nós e o bebê começou a se desfazer, como se fosse areia.
Assustei-me e perplexa, o vi sumir diante de mim. E não pude fazer nada. Tentei gritar no sonho, mas aconteceu de eu acordar gritando. Foi tão forte que me secou a garganta. Makoto levantou num pulo e perguntou:
-Kazuko, o que houve? - então acendeu o abajur e pude ver uma expressão de aflição em seu rosto quanto olhou em direção as cobertas.
Foi aí que eu senti e vi. Uma sensação idêntica a quando minhas regras vêm e sangue. Apesar da pouca luz dava para ver, nitidamente, que era sangue, os lençóis são claros.
O desespero veio, uma grande dor também e só consegui chorar. Makoto me chamou e falou, segurando em meus ombros:
-Temos que ir ao hospital agora. Se troque depressa e vamos.
Fiz conforme ele mandou. Coloquei um vestido simples e saímos. As lágrimas e nem a dor não paravam. Ele parou o carro, levantou me rosto e me disse:
-Kazuko, tá tudo bem!
Assenti concordando e seguimos.”
Eu não queria pensar no pior nesse momento. Tinha esperanças de que ela não abortara. Também estava desesperado e nervoso, porém eu tinha que mostrar segurança e apoiar Kazuko.
Por sorte, Rin estava no hospital, pois uma de suas pacientes encontrava-se em trabalho de parto. Durante a triagem, eles a chamaram para me atender.
-Boa noite, Kazuko, Makoto!
-Boa noite! - respondemos em uníssono
-E o que aconteceu? - indagou Rin, próxima de mim e me olhando
-Ela teve um sangramento.
-Muito sangue? Pouco sangue?
-Bom, o lençol ficou razoavelmente sujo.
-Ok! Vamos ter que ir a máquina de ultrassom para ver se está tudo bem.
Fizemos conforme ela disse.
Eu me deitei na maca e ela pôs aquilo na minha vagina. Mexeu por um tempo e pude pressentir pelo olhar dela que vinha uma má notícia. Não tive coragem de perguntar, quem o fez foi Makoto:
-E então?
-Eu lamento. - ela virou-se para ele – Kazuko sofreu um aborto.
A única coisa que consegui fazer foi chorar, apenas uma lágrima solitária caiu. Rin discursou o resto dos procedimentos:
-Kazuko, vou te colocar em observação até amanhã. Vamos ver se vai sair alguma coisa, caso não mandarei fazer a curetagem para tirar o que ainda estiver dentro de você e também para estancar esse sangramento. Com licença! - e saiu
Então desabei de novo. Makoto estava parado ao meu lado. Seu olhar parecia perdido e triste.”
Eu ainda estava em choque com a notícia repentina. Não sabia como reagir, só não queria era chorar diante dela.
-Makoto! - chamei-o tocando em sua mão
-Oi, Kazuko. - falou sentando-se na maca e olhando para mim
-Me desculpa.
-Pelo quê?
-Por ter perdido o bebê.
-Kazuko, já te disse que está tudo bem. - apertou a minha mão – Estamos juntos nisso, lembra? - assenti – Então, não fiquei assim.
-Tentarei fazer o meu melhor. - sorri um pouco
-Sendo assim está bom.
E não falamos mais nada. Ficamos nos olhando, um clima meio desconfortável até chegarem para me levar ao quarto. Makoto me acompanhou até lá. Fiquei algumas horas em observação e nada aconteceu. Acabaram me levando para fazer a curetagem. Ele não pode ir comigo.”
Vi Kazuko sendo levada na maca. Eu sai dali e fui ao banheiro, era o único lugar onde poderia ficar sozinho.
Adentrei em um dos boxes e, fora do meu controle, as lágrimas caíram em silêncio. Todo o choro que segurei na frente dela caiu naquele momento.
Também fiquei triste por ela ter perdido o bebê. Assim como ela, já estava imaginando a vida com ele. Nós dois ainda estávamos assimilando e acostumando a ideia de termos um filho juntos. Foi um choque ao descobrir e outro choque ao perder.
Todos esses sentimentos escorriam por meus olhos. Com certeza, isso foi um grande trauma para mim e para Kazuko.
Levaram-me para uma espécie de sala de cirurgia e a própria Rin estava lá me esperando. Ela veio me explicar o que faria:
-Kazuko, eu vou te anestesiar. Vai dormir uma meia hora. Talvez acorde um pouco dolorida, mas isso é normal. Alguma pergunta?
-Eu vou para o quarto depois disso?
-Sim!
Então, ela me deu a anestesia e eu apaguei.
Quando dei por mim já estava no quarto. Makoto e Rin conversavam, mas só ouvi uma fala da conversa:
-Quando a menstruação dela voltar, podemos retornar com o anticoncepcional.
Rin saiu.
-Parece que acordou. - falou ele – Como se sente?
-Bem, apesar de meio sonolenta.
Ele se sentou na cama e eu perguntei:
-O que a Rin tava falando com você?
-Sobre o que aconteceu. Ela me disse que o bebê ainda estava dentro de você. Só que ele descolou na parede e foi parar no colo do seu útero.
-Por isso eu sangrei daquele jeito.
-É! Foi!
-Ela disse em quanto tempo eu posso me recuperar?
-Entre dois ou três meses.
Ele baixou o olhar e ficou acariciando a minha mão.
-Makoto, - soltei, ele levantou a face – se quiser, podemos tentar de novo.
Por que eu falei isso?
-Não precisa, Kazuko. Lembra que eu não quero filhos agora?
-Lembro sim. Mas, eu pensei que tivesse mudado de vontade.
-Eu só me conformei com o houve. Aceitei a ideia de ter um filho.
-Eu também, Makoto.
-É melhor descansar, teve uma noite cansativa.
-Cansativa? Acabei de acordar de um cochilo.
Foi só nesse momento que eu notei, Makoto estava com os olhos vermelhos e visualmente abatido. Não aparentava mesmo estar conformado com o ocorrido. Parecia que também havia chorado.
-E esses olhos vermelhos? - indaguei
-É só sono, só isso.
-Melhor descansar um pouco. - olhei as horas no relógio – E o seu trabalho?
-Eu falo com o meu chefe, você sabe que ele é bem compreensivo.
Apenas concordei. Makoto saiu em seguida e o ainda efeito da anestesia me fez dormir de novo.”
Eu liguei pro meu chefe na hora que costumo sair de casa para trabalhar e lhe contei toda a história. Ele se mostrou triste por mim, afinal, ele já passou por isso também.
Acordei porque o Sol me incomodava. Ele já estava razoavelmente alto no céu, pelo que percebia. Cobri parte do rosto com a mão e olhei para o sofá ali perto. Makoto dormia sentado, com uma postura firme e braços cruzados.
A enfermeira entrou no quarto trazendo meu café da manhã. Sua voz acabou despertando Makoto abruptamente.
-Bom dia, Srta. Hirasawa.
-Bom dia. - respondi
Ele também respondeu, entre dois bocejos.
A enfermeira ajudou-me a me ajeitar na cama, posicionou a mesa e saiu. Foi então que Makoto se levantou e veio falar comigo.
-Dormir bem?
-Sim. O efeito da anestesia ajudou um pouco. E você?
-Mais ou menos. Aquele sofá não é muito confortável.
Tentei um sorriso, mas não estava com tanto ânimo para tal. Minha mãe veio a minha cabeça.
-O que foi?
-Só queria a minha mãe aqui. Queria conversar com ela.
-Eu posso trazê-la aqui para te ver.
-Não, Makoto, não precisa. Eu não quero incomodá-la.
Comi após isso. Passei o resto do dia em observação, apenas para certificarem que eu não voltaria a sangrar. Sai quase amanhecendo de novo. Viemos direto para casa e Makoto teve que pedir folga ao chefe de novo.
Ao chegarmos, só me veio uma vontade de ficar sozinha. Fui a caminho do meu quarto, Makoto me interrompeu:
-Onde vai, Kazuko?
-Pro meu quarto. Eu só quero ficar sozinha!
Ele não disse nada e também não era para isso mesmo.
Eu já chorei bastante e ainda preciso chorar. Não faço ideia de como tirar essa tristeza e culpa de mim. Achei que desabafar aqui fosse melhorar, mesmo que um pouco, mas não adiantou.
Só espero que o tempo consiga curar esta ferida.”
Era o fim da anotação.
Eu permiti uma lágrima solitária cair, apenas por conta das lembranças. Deixei o diário de lado e Kazuko me consolou.

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