domingo, 31 de julho de 2022

A pura nota do Girassol - 12 Meses com Minorin: Julho


 

“O brilho deste lugar

Vamos torná-lo um tesouro ok?

Até nos encontrarmos da próxima vez... No outono e inverno

A ideia de verão acaba se tornando uma memória

Eu vou me levar

Torne-se um registro quente quente

não se esqueça do Girassol


(...)


O sorriso é claro, com um sorriso novamente

eu tenho sonhado por um longo tempo”


(Sunshine Flower - Minori Chihara)


***


Era estranho para Bianca estar de volta naquela cidadezinha de interior, praticamente esquecida com seus pouco mais de três mil habitantes. Ela acabara de se formar na faculdade que sempre sonhou fazer, que era Perfumista. Trabalhar com as flores, frutas, suas essências e fragrâncias, construindo cheiros capazes de despertar vários sentidos ao mesmo tempo.

A cidade de Charmosinha era conhecida por ser o paraíso das flores desde que ela se lembrava. Havia fazendas e sítios que cultivavam os mais diversos tipos de flores, como rosas, tulipas, margaridas e girassóis. Sendo este último, especificamente, muito especial para ela, pois parte de sua família cultivava girassóis num sítio afastado na pequena cidade.

Um local no qual, durante boa parte da infância e da adolescência, passou suas férias do colégio. Se sujava de terra, corria entre os corredores esverdeados e brincava bastante com o primo que morava ali. Se é que ele ainda morava…

As responsabilidades da vida adulta e os estudos fizeram com que ela ficasse todos aqueles anos sem ir para lá. Mas, se ninguém avisasse, não dava para saber que se passaram mais de sete anos desde a última vez, pois a cidade parecia parada no tempo.

Ela estava sentada na praça da cidade, com suas duas malas grandes, esperando o Tio Rodolfo vir buscá-la para que finalmente chegasse ao destino.

Ela desceu na cidade vizinha, que possuía rodoviária e conseguiu uma carona com uma casal que passaria por lá. Estava amanhecendo quando ela se acomodou no ponto central da cidade. Não tardaria muito e aquele pequeno lugar também acordaria, com a sua própria rotina praticamente isolada do mundo de fora.

Ficou distraída olhando o celular, que estava com um péssimo sinal tanto de telefone quanto de internet, até que um carro velho estacionou bem na sua frente. De lá, saiu um homem de cabelos completamente grisalhos e uma barba grossa na mesma tonalidade.

- Bianca!

- Tio Rodolfo!

- Você chegou cedo, menina!

- Consegui uma carona até aqui…

- Tendi! Bora colocar essas malas dentro do carro e tocar pro sítio.

- Estou ansiosa por isso. - sorriu

Ela auxiliou a colocar as bagagens dentro do veículo, depois sentou-se no banco do carona, com a parente do lado do motorista. Ele deu a partida do motor, levantando o cheiro de combustível e bastante terra na arrancada.

Não era um trajeto longo, então Bianca ficou distraída olhando a paisagem pela janela. Era linda do jeito que ela lembrava. O Tio a tirou de seus devaneios:

- Você sumiu por tanto tempo, Bia. O Théo está com saudade de você.

- Sério? Ele ainda mora aqui?

- Ele me ajuda no sítio, mas ficou um tempo na cidade grande para estudar.

- Em que ele se formou?

- Ixi, não sei o que é não. Melhor perguntar para ele.

- Pelo menos ajuda nos negócios da família?

- Sim, bastante! Nossas vendas aumentaram um bocado desde que ele entrou para a administração.

- Espero poder ajudar vocês com os negócios também…

- Ocê estudou o que mesmo?

- Perfumaria.

- Théozin vai gostar disso.

O resto do caminho seguiu com o maior silêncio, apenas o motor do carro e o vento batendo vindo da janela batendo no rosto.

Logo, eles cruzaram a porteira do sítio, chamado Amigo do Sol. 

Bianca, com mais uma ajuda do tio, retirou as malas e as colocou na varanda. Não deu nem tempo de falar algo, pois a Tia Sônia logo apareceu e deu um abraço apertado nela.

- Menina, que saudades de você. Foi para a cidade e num voltou mais…

- Eu estava estudando, tia Sô.

- Assim como nosso filho. Ele foi resolver umas coisas numa cidade vizinha, mas ele vem para o almoço. Vem, entra, vou mostrar seu quarto!

Arrastando sua bagagem, ela acompanhou a tia até um quarto que ela já conhecia muito bem, pois era o mesmo em que ficava todos os anos nas férias.

- Está exatamente do jeito que me lembro… - aquilo também parou no tempo

- Gostin de infância, né?

- Um pouco! - sorriu

- Fique à vontade viu? - a tia ia saindo pela porta, até que lembrou - Já tomou café?

- Não, mas eu gostaria.

- Ah, mas eu vou preparar a mesa agorinha mesmo.

- E seja bem-vinda! - o tio completou, indo em direção a cozinha

Em poucos minutos, os três já estavam sentados comendo o desjejum. A mesa estava posta alguns tipos de bolos e pães, tudo bem característico da culinária da região. Outra onda de nostalgia atingiu Bia em cheio, pois era o gostinho da sua infância bem no seu paladar.

Depois de se alimentar, ela voltou ao quarto e arrumou os seus pertences nos armários. Ela trouxe algumas roupas numa das malas e na outra vieram os seus equipamentos de trabalho. Tudo o que ela usava para criar as fragrâncias e os perfumes. Ela decidiu, por ora, deixá-los onde estavam, até arrumar um local com mais espaço para manejar. A escrivaninha ficaria para o seu computador.

Ao terminar a arrumação, ela foi dar uma volta na propriedade. Passou pela varanda frontal, com cadeiras aconchegantes; foi ao pequeno estábulo com os animais que eram apenas para produzir algumas coisas no sítio, como leite e ovos; chegando até o campo dos girassóis, plantados e ordenados em longas e extensas fileiras, com um pequeno vão entre cada uma. Bianca não controlou o impulso de cheirar e fazer carinho em todas aquelas flores, enquanto aproveitava a brisa e sol já quase a pino por conta do horário. Ela estava distraída nisso, até que uma canção começa a tocar em sua cabeça e ela cantarola o que se lembrava, que é um simples “la-la-la” alternado em melodia, porém a letra da música não vem a sua mente. Talvez estivesse em algum local profundo do seu subconsciente, com o tempo provavelmente recordaria.

Ao longe, ela ouviu o som de um carro chegando na propriedade, seguido de um grito de sua tia, falando:

- Seu primo chegou e o almoço tá pronto!

Imediatamente, ela correu de volta à casa, bem a tempo de ver o primo descer do carro. Primeiro, ele deu um abraço em ambos os pais, até que se voltou para ela.

- Bia, que bom te ver! - e eles se abraçaram bem apertado - Que saudade!

- Temos bastante coisa para conversar, Théo.

- Papai comentou que tínhamos visita, mas se eu soubesse que era você, trazia até uma lembrancinha da cidade.

- Não é necessário!

- Veio fugir para as férias de verão de novo? - e riu

- Já tem muitos anos, não é? Mas, o objetivo é outro… - ela respondeu

- Jovens, vamos almoçar. - o tio protestou - Durante o almoço ocês bota os papo em dia.

Todos entraram e a mesa da refeição já estava arrumada, os pratos nos lugares e as travessas já devidamente posicionadas no meio para que todos se servissem. Assim o fizeram e os primos começaram a conversar.

- E no que se formou, prima? - ele perguntou

- Em Perfumaria. Trabalhei um tempo numa empresa grande de cosméticos, produzindo fragrâncias de produtos.

- Que legal! Bom ter alguém com isto na família.

- E você? O que estudou? O tio não soube explicar!

- Eu me formei em biologia e me especializei em botânica, tudo para poder cuidar destas flores.

- Realmente, é bem a sua cara. Ainda mais porque adorava ficar cheirando as flores daqui e dos sítios vizinhos.

- Ara, ocê também, garota! - deixou o sotaque transparecer

E todos na mesa riram! Porque era realmente isto.

A conversa continuou sobre trivialidades, sobre como estavam os outros membros da família e o que eles estavam fazendo. Sobre as diferenças do campo e da cidade, sobre a faculdade… Uma coisa bem fácil entre os dois primos era a conversa.

O almoço acabou e todos ajudaram a recolher tudo. Théo e Bianca decidiram caminhar entre os campos de girassóis e continuar a conversa.

O Sol já havia se baixado um pouco no horizonte, mas não estava menos quente. Ambos os primos observavam os detalhes daquelas flores, enquanto a conversa prosseguia. Foi uma longa conversa, atualizando sobre as suas vidas para o outro. Afinal, já fazia longos anos que eles mal conversavam, só se viam por fotos nas redes sociais.

Após longos minutos, sentaram-se numa clareira, abaixo da sombra de uma árvore, numa das pontas do sítio. O local dava uma vista completa para o campo com o casebre ao fundo.

- Eu tenho tantas memórias neste lugar. - comentou Bianca

- Eu também. Acho que mais do que você! - Théo riu - Morei aqui a maior parte da minha vida.

- Lembra quando a gente passava a tarde inteira correndo aqui?

- Sim, e a vovó gritava para a gente tomar o café da tarde.

Ambos riram, sendo levados por suas memórias ao passado.


***



Bianca começa a correr por entre os girassóis, jogando-os para o lado, para não feri-los durante a sua caminhada. Ela estava correndo do primo, já que resolveram brincar de pique-pega. Era pouco depois do almoço e eles tiveram que esperar meia hora para poder retornar à brincadeira, pois a Avó Lúcia e nem a Tia Sônia deixaram de jeito nenhum que saíssem após comer.

O Avô Geraldo tinha ido com o Tio Rodolfo para a cidade, para venderem as flores que colheram naquele dia, pois havia uma grande feira no centro naquele dia.

As horas passaram e eles nem perceberam, pois a brincadeira estava tão boa. Eles sempre se divertiam com as coisas mais simples.

O sol começou a ir para o outro lado do horizonte e se preparava para se pôr. Os dois primos, já muito cansados de correr, estavam sentados embaixo da sombra de uma das árvores, recuperando o fôlego.

Eles ouviram, ao longe, o som do motor da caminhonete velha do avô, seguido do som da porteira do sítio sendo aberta pelo tio. O veículo entrou, foi desligado e o mais velho desceu do carro, cantarolando uma canção, que era sempre a mesma.

Aquele era o sinal para a hora do café da tarde, pois dali a pouco minutos o grito da avó ecooaria pela propriedade, chamando-os para comer.


***


- O vovô sempre chegava cantando também.

- Ah, é verdade. Você lembra que música que era?

- Não faço ideia, mas acho que eu cantei hoje passeando por aqui.

- Vamos ver se até o fim da sua estadia a gente lembra.

- Sim! - ela sorriu - Recordo que gostava muito dela.

- Vamos voltar lá para dentro? Parece que logo será a hora do café.

- Claro! Vamos antes que sua mãe nos grite.

Ambos se levantaram e caminharam de volta para a casa. Théo foi ajudar a mãe a terminar a refeição, enquanto Bianca foi resolver algumas coisas no computador. Abri-o na escrivaninha e aproveitou para responder alguns e-mails. Mesmo sendo um pouco lenta, a internet funcionava de uma forma decente. Talvez não desse para ver um filme ou uma de suas séries favoritas, mas dava para conversar com a mãe, o pai e também postar umas fotos nas redes sociais do lugar onde estava. Ela havia aproveitado o pequeno passeio que fizera de manhã para tirar algumas.

E bem, ela sobreviveria algumas semanas com uma conexão medíocre. Neste momento, ela foi atingida por outro pensamento: Como ela fazia na infância para se manter entretida ali? Como agora ela era adulta, brincadeira não era uma opção. Bom, pelo menos trouxe alguns livros na bolsa.

Terminou o que tinha de fazer, desligou e fechou o notebook. Pegou novamente a mala com seus materiais e abriu em cima da cama, voltando a cheirar algumas das fragrâncias que montou nas últimas semanas. Ela gostava de dar um tempo para o seu nariz, sempre reavaliando os cheiros que criava.

Ela estava distraída abrindo os frascos e sentindo um a um, até o primo aparecer na porta, para chamá-la para a refeição.

- Prima… - ele interrompeu-se - O que é isto?

- Ah, são as minhas essências. E essas daqui são os perfumes e outros cheiros que montei.

- Interessante! Dá muito trabalho?

- Um pouco! Tem que saber fazer as combinações, senão não dá certo.

- Um dia você me mostra como faz isso?

- Mostro sim! Só vou precisar de mais espaço para espalhar todas essas coisas… - e apontou para a mala

- Tem um espaço bom lá na garagem. Mais tarde te ajudo a levar tudo para lá. - e ele voltou ao assunto - Bom, é hora do café… Vim te chamar. - sorriu

- Ah, claro! Vamos lá!

Os dois se dirigiram à cozinha, encontrando lá os outros dois moradores da casa.

- Já estava indo ver essa demora toda, uai. - Rodolfo falou

Todos se sentaram à mesa, começaram a refeição e prosseguiram com a conversa.

- Estava mostrando meu equipamento de trabalho… - Bianca respondeu

- É bastante interessante. Aliás, você não trouxe isto para cá por nada né? - o primo jogou

- Claro que não! Mas, sem pressa, depois lhes conto as minhas reais intenções.

- Ela vortô misteriosa! - a tia falou

- Não é nada demais, não se preocupem, é para ajudar nos negócios da família. - ela revelou

- E por falar em negócios… - o tio falou - Amanhã é a feira das flores lá na cidade, quer ir?

- Claro que sim! - ela sorriu

- Pelo menos mais uma ajuda para amanhã. - a tia comentou

Todos comeram num clima agradável e o resto daquele primeiro dia passou da mesma forma. Bianca aproveitou para ler um pouco, mas foi se deitar cedo, já que tinha compromisso no dia seguinte.


***


O despertador de Bia tocou, anunciando que era já hora de levantar. O Sol nem havia se levantado ainda e enquanto ela mantinha alguns poucos minutos de preguiça na cama, o primo apareceu na porta.

- Ei, preguiçosa! Hora de acordar… Precisamos encher a caminhonete e descer para a cidade. Quanto mais cedo chegamos na feira é melhor.

- Eu já acordei. - resmungou - Já vou sair daqui.

- Ande então! Aqui não tem tempo pra “mais cinco minutinhos” igual na cidade. - ele falou brincando

- E o café? - indagou ela

- Já está na mesa! Vem comer logo!

A jovem tirou a coberta, rapidamente pegou uma roupa confortável para ir trabalhar numa feira, se trocou e encontrou com os outros já sentados à mesa.

- A Bela Adormecida finalmente despertou. - zoou Théo

A prima deu um riso sem graça, o que levou os tios a enormes gargalhadas.

- Ainda lembro como ocê era para acordar quando menina. Tinha que tirar coberta, te sacudir, só aí levantava. - a tia comentou

- Pelo menos, agora, só precisa chamar. - o tio falou

Era apenas uma brincadeira para alegrar o dia que recém começara, então Bianca tentou levar numa boa, pois não queria iniciar suas férias e muito menos os primeiros dias delas de mau humor. Se fosse para se estressar, que fosse na cidade.

Todos comeram o desjejum e logo se encaminharam para carregar a caminhonete, que era a mesma que eles usavam há anos e que tinha pertencido ao avô. As flores já tinham sido separadas pelo tio no dia anterior, sendo deixadas em grandes galões com água. Como elas eram bem pesadas, Rodolfo e Théo foram dar conta deste serviço, enquanto Bianca e Sônia pegaram partes da montagem da barraca e outros pequenos detalhes importantes.

Não demorou muito até que os quatro estivessem no veículo e com o dia amanhecendo partiram para o centro da cidade. O trajeto levou um pouco mais de tempo por conta do excesso de peso do carro.

Chegaram lá e a praça central estava mais agitada do que o dia anterior, pois diversos dos fazendeiros da cidade também estavam montando suas barracas e iam vender seus produtos naquele dia. Já dava para ver que haviam rosas, tulipas, amores-perfeitos, orquídeas, margaridas os mais variados tipos de flores, de diferentes cores: azuis, amarelas, vermelhas, rosas.

Para Bia era uma explosão não só de cores, como também de cheiros. Nos seus anos como especialista na área, ela sabia como cada uma daquelas flores podia ter suas próprias notas e fragrâncias.

O quarteto levou as coisas até o espaço que sempre usavam nas feiras da cidade, primeiro montando a tenda, usando as peças de metal reforçados e colocando uma lona por cima, para proteger os girassóis do Sol e eles mesmos de qualquer coisa brusca do tempo.

Os donos de outras propriedades e colegas dos tios de Bianca a perceberam junto com o grupo e perguntaram:

- E essa aí? Quem é?

- É namorada do Théozin?

- Não! - tratou de responder a tia - É a minha sobrinha Bianca. Ela sempre vinha aqui quando criança, mas passou uns anos estudando e veio nos visitar.

- Muito bonita ela. Lembra você, Sônia.

- Ah, obrigada! - a sobrinha sorriu, simpática

Os galões com girassóis foram arrumados e posicionados, além do caixa num dos cantos da barraca. Agora, o dia já amanhecera e era só esperar os clientes chegarem. Aquele era um evento quinzenal, mas que atraia diversos turistas que se hospedavam nas proximidades e vinham ansiosos para ver as flores da feira de Charmosinha.

- Tia, costumam vir muitas pessoas nesta feira?

- Ocê nem imagina, Bia. Vem gente das redondezas todas!

- Nosso maior faturamento é justamente desta feira. - Théo completou - Ainda mais agora que a qualidade das nossas flores aumentou, com todos os novos cuidados no plantio e crescimento.

- Os girassóis estão bem maiores, com cores mais vivas. Tudo graças ao Théozin. - falou o tio.

- Bom, vamos nos concentrar, porque hoje o dia vai ser agitado. - a tia disse

- E eu quero todas estas flores vendidas até a hora do almoço. - Théo pediu

E a tia não estava errada, era bastante agitado. Pouco mais de uma hora depois, a pequena praça central da cidade já estava abarrotada de gente, todas elas dispostas a comprar flores para os mais variados fins.

O quarteto fez bastantes vendas, sempre com diversos girassóis de uma só vez. E logo, poucas horas depois, as flores tinham acabado.

- Parabéns, pessoal! Missão cumprida! - o primo sorriu - Agradecimentos também a nossa nova ajudante temporária.

- Ora, não precisa, foi um prazer. - ela riu da brincadeira

- Bom, agora, - soltou a tia - pode dar uma voltinha na feira. Vão passear ocês dois!

- E para arrumar tudo de volta na caminhonete?

- Deixem que eu e seu pai fazemos isso. Aproveita um tempo com a sua prima da cidade.

Bianca ficou animada, enquanto Théo apenas assentiu, meio contrariado. Não que o passeio fosse demorar muito, pois a feira não era grande, mas o rapaz não gostava de deixar os pais sozinhos, ainda mais com a idade deles avançando.

A prima foi na frente, já focada nos tipos de flores que queria olhar. De cara, correu para as rosas. Viu as vermelhas, amarelas, brancas. Cheirou cada uma delas, procurando alguma coisa. Ela selecionou algumas de cada e pagou.

Fez este mesmo processo com as tulipas, o que aos olhos do primo era até engraçado, mas aí ele lembrou qual era a profissão da prima. Ele apenas acompanhou-a em silêncio, deixando a turista da cidade curtir a feira.

Assim que terminaram as compras e caminhavam de volta ao encontro do casal, ele perguntou:

- Para que tudo isso?

- Eu quero fazer umas coisas mais tarde. Essa feira inclusive é muito boa pela variedade de flores. 

- Sim, por isso que ela é muito frequentada. Assim como o Festival das Flores, que deve estar chegando.

- Aliás, será que dá para a gente conversar depois do jantar?

- Claro, sem problemas!

- E bem, vou precisar daquele espaço na garagem para as minhas coisas hoje.

- Posso arranjar isto também. - e indagou curioso - E sobre o que quer conversar mesmo?

- Negócios, como falei com titio.

- Assim você me deixa curioso!

- É para ficar mesmo, porém vai esperar até de noite.

O grupo se reencontrou, almoçou logo na cidade e rumaram de volta ao sítio. E cada um dos quatro foi para suas próprias tarefas da tarde. A Tia foi cuidar da casa, o Tio foi cuidar da plantação, o Primo foi calcular as finanças, já a Prima ficou lendo algum livro, já que ela estava de férias.

E toda aquela manhã trabalhando na feira da cidade, despertou em Bianca mais uma memória…


***


Naquele dia, o avô fez questão de que os dois netos o ajudassem no dia da feira. A sua filha brigou, falando que eles iriam mais atrapalhar do que ajudar, afinal, eram apenas crianças. Os galões com os girassóis foram colocados na caminhonete e o grupo formado por Avô, Tio e os dois primos rumou para a cidade.

Chegando lá, os outros fazendeiros abordaram o quarteto:

- Geraldo, estes dois são seus netos?

- São sim, uai! - ele sorriu - Bianca e Théo.

- Vieram ajudar na feira então?

- Eles precisam aprender sobre os negócios da família. Vai ser deles um dia!

- Está certo! Boas vendas pro sinhô!

- Igualmente!

A Barraca já estava montada nesse meio tempo, com tudo em seus devidos lugares.

Passou tanta gente diferente, de tantos lugares, comprando e carregando as flores de Charmosinha para todos os cantos do país.

E claro, que o avô estava sempre demonstrando sua energia e alegria, que transparecia e muito nas canções que geralmente cantarolava em seu cotidiano. E a sua favorita era justamente sobre a flor que cultivava. Eram esses pequenos balbucios desafinados que dava o clima de fundo para aquele momento.

A presença das crianças na tenda ajudou a atrair mais compradores para os girassóis, o que melhorou bastante os lucros daquele dia.

Para Bianca e Théo podia ser só mais um dia de férias ou só mais uma brincadeira, mas aquela manhã os ensinou mais do que podiam ter percebido.

No final de tudo, o avô levou-os para tomar um sorvete!


***


Bia terminou logo a sua leitura, pegou o celular e foi aproveitar o pouco de internet que havia naquele lugar. Ela descia o dedo pela tela, distraída, olhando uma rede social, enquanto uma canção ecoava em sua cabeça e na boca. A mesma melodia que ela recordara antes, porém, agora alguns dos versos simplesmente pularam de sua mente.

Ela recitava as breves estrofes das quais se lembrou:


“Girassol, Girassol, la la la la la la…

A coisa mais pura do girassol é que ele sempre segue a luz.

Todos unidos sob o mesmo Sol 

Cantando uma melodia de esperança ”


Ela estava distraída, até que o primo surge na porta, fazendo-a dar um pulo de susto.

- Me desculpe! - ele falou - Vim chamar para o café!

- Ah, sim, já vou… Obrigada! - disse colocando o celular na mesa de cabeceira

- O que cantava?

- A música do vovô acho… Sobre girassóis, é claro!

- Bem de praxe dele.

- Eu só queria lembrar o resto da letra.

- Será que não tem em alguma das fitas de filmagens antigas?

- Isso ainda existe? - incrédula falou

- Você sabe que meus pais guardam umas relíquias né? Esta é uma delas.

- E se você achar uma fita, como veremos?

- Já percebeu o que tem lá na sala, do lado do leitor de DVD… Exatamente! - e riu

- Confesso que fiquei empolgada com isto!

- Podemos procurar outro dia então. Até porque, hoje a noite, você me prometeu uma coisa.

- Ah sim! Podemos ir para garagem depois de comer então.

Novamente a família comeu reunida, comentando melhor sobre como foi a manhã na feira. Bianca recordou como era aquilo quando era criança, despertando aquela memória na cabeça do primo.

A refeição terminou e com a ajuda de Théo, a prima levou a sua segunda mala e todo o conteúdo dela para a bendita garagem. Havia uma bancada grande disponível, ela levou um tempo, mas conseguiu esvaziar e organizar aquilo tudo no espaço, enquanto o primo observava e de alguma maneira tentou ajudar, mas falhou miseravelmente.

No fim, a mesa estava lotada de potes, essências, óleos naturais e diversas outras coisas para fazer misturas e montar perfumes e outros cheiros.

- Uau! É um grande arsenal de trabalho. - o primo soltou impressionado

- Eu me sinto praticamente uma alquimista quando faço alguma fragrância nova.

- Interessante. Bom, eu também tenho bastante instrumentos de trabalho, mas não que ocupem essa bancada inteira. - ele sorriu

- Bom, vamos que interessa. Até uns meses atrás estava trabalhando numa empresa grande de cosméticos lá na cidade grande, mas acabei sendo demitida. Então, minha mãe lembrou do sítio, dos girassóis e me fez ter uma ideia.

- Que seria?

- Bom, primeiro é melhor eu lhe mostrar como produzo um frasco deste. Usando isto! - levantou as flores que comprara na feira. - Apenas pegue um banquinho e observe!

O primo fez conforme ela indicou. E então Bianca começou a fazer a sua mágica ou até a sua bruxaria, dependendo do ponto de vista. Ela pegou as pétalas daqueles flores e fez todo um processo que as transformou em óleos essenciais. Ela misturou alguns destes com água, um pouco de álcool, colocou num frasco com borrifador, deu para Théo.

- Borrife no punho um pouco e cheire!

- Nossa, é delicioso! - ele disse depois de cheirar o punho com a fragrância - Parecem margaridas misturadas com tulipas num campo aberto.

- Que bom que gostou! Gosto que os cheiros despertem emoções assim nas pessoas.- sorriu - Serei direta, a minha ideia é que façamos este tipo de coisa com os girassóis daqui do sítio.

- Extraindo o óleo deles e usando para fazer o quê?

- Perfumes e outros cosméticos, para cabelo, corpo. Eu também sei fazer!

- Essa é uma indústria bem lucrativa! - o primo acrescentou

- Claro que no começo seria uma coisa mais artesanal e podemos até vender na feira da cidade… E não vai extinguir a venda dos girassóis.

- Eu acho uma excelente ideia! É uma ótima proposta para os negócios. Como vamos fazer a divisão disso tudo?

- 50% para cada um? - a prima sugeriu

- Partes iguais para meus pais, para mim e para você. 33% para cada?

- Por mim está ótimo!

- E por onde iremos começar.

- Eu já tenho um plano montado na cabeça. - ela discursou - Primeiro criamos um perfume de teste, usando a essência do girassol como principal. Vendemos na feira e vemos como será a recepção disso e vamos seguindo daí.

- Mas o perfume vai ser a única coisa por um bom tempo…

- Sim! Para mim está perfeito, desde que dê certo no fim.

- Então, vamos contar para meus pais sobre a novidade. Acho que eles vão gostar!


***

Os tios adoraram a ideia de produzir perfumes com as flores de girassol. Então, tudo seguiria conforme planejado. Mas, primeiro, o teste de fragrância deveria ser criado.

Bianca passou a trabalhar nisso, tentando ver uma mistura que seria a perfeita para produzir algumas unidades e colocar para vender na próxima feira no centro da cidade.

Porém, passou um, dois, três, quatro, cinco dias… Nenhum cheiro que ela montasse a estava lhe agradando. Na cabeça dela, ela queria que aquele perfume transparecesse como uma essência da sua família, lembrando-a, assim como a sua infância naquele lugar.

Ela ficava horas e mais horas do dia, trancada naquela garagem, só saia para as refeições e para dormir, que já estava fazendo bem pouco, por culpa da ansiedade e da pressão que colocou em si com esta tarefa.

E mesmo assim parecia que nunca estava certo, que nunca estava perfeito. Não era aquilo que ela queria, mas ela ainda tinha dúvidas do que queria.

Os outros membros da família num primeiro momento acharam ótima a sua dedicação, mas depois de praticamente uma semana ininterrupta, eles começaram a ficar muito preocupados.

A tia terminava mais uma das refeições e pediu ao filho que chamasse a prima para comer, então, antes de ir, ele puxou assunto com a mãe:

- Estou preocupado com a Bia. Ela não sai de lá da garagem!

- Ela só está dedicada à tarefa de perfume, meu filho.

- Isso não é dedicação, ela está se escravizando por isso. Não é saudável, mãe!

- Eu achei que as pessoas da cidade trabalhavam assim, uai.

- Por que você acha que a maioria deles está doente? - o filho desabafou - Por isso que voltei para cá.

- Se vê problema, converse com ela. Provavelmente vai te ouvir.

- Farei isso! E quem sabe levá-la para passear em algum lugar longe.

Ele saiu e foi chamar Bianca, que prontamente saiu e se juntou a todos na mesa. O clima ficou meio estranho durante a refeição, pois todos estavam quietos, fosse com medo de falar ou concentrados demais no que iriam fazer depois.

A prima acabou de comer, agradeceu e se dirigiu para voltar à garagem. Os pais lançaram um olhar ao filho e ele imediatamente se levantou e foi atrás da prima:

- Bia!

- Oi! - respondeu desanimada

- A gente pode conversar? - indagou com receio

- Sobre? É que estou ocupada, você sabe.

- Sim! Mas, é que estou preocupado com você.

- Comigo? Por quê?

- Tem uma semana que você não sai de lá direito.

- Está difícil fazer esse cheiro que eu quero pro nosso teste.

- Eu imagino que esteja, mas não se pressione tanto com isto.

- Preciso dar o meu melhor para que dê certo.

- Você já está dando o seu melhor, só não acabe com a sua saúde no processo.

- Me desculpa!

- Não tem necessidade de se desculpar, só descanse um pouco. Bom, eu li em algum lugar que é parte do processo criativo descansar também. Uma mente cansada não trabalha bem!

- É, tem razão! - ela sorriu - Vou me preparar para dormir então e amanhã continuo.

- Nada disso! Amanhã já temos um programa: Vamos fazer um tour pela cidade.

- Acho que não tenho opção de dizer não, né? - cabisbaixa falou

- Vamos relaxar um pouco. Está precisando! - pegou nas mãos da prima - Como já disse, estou preocupado. E vai ser só um dia, eu prometo.

- Está bem! Vou preparar minha melhor roupa e a minha câmera para amanhã.

- Ótimo!

Os primos voltaram juntos para o lado de dentro, porque o dia seguinte prometia.


***


Théo acordou cedo, foi chamar a prima, eles tomaram café e logo desceram para a cidade. Pelo horário, as lojas já estavam abertas, assim como o pequeno museu de Charmosinha, que contava toda a história da cidade.

O carro foi estacionado numa das ruas principais e as ruas estavam cheias por algum motivo.

- Nossa, por que a cidade está lotada assim?

- Pelo que soube, um grande dono de empresa está na cidade hoje. Parte da imprensa veio para cá e umas tietes desse cara também. Ele está vendo a possibilidade de usar as nossas flores para o negócio dele.

- E qual é o ramo?

- Cosméticos, sabonete especificamente.

- A gente nem começou e já tem uma concorrência dessas?

- Nossa área são perfumes por enquanto, não é?

- Sim!

- Acho que ele não deve nos atrapalhar, ainda mais porque a zona de atuação dele é no Rio. Mas, vamos nos preocupar em começar… E relaxar! É o nosso objetivo hoje.

- Claro! Só espero que esta confusão não atrapalhe nosso passeio.

Primeiro, os primos foram para o Museu de Charmosinha, vendo lá fotos e mais fotos desde a fundação da cidade, o começo do cultivo de flores como principal atividade financeira e indo até os dias atuais, com as atrações turísticas que atraem centenas de pessoas todos os anos. Além das feiras, tem também o grande Festival das Flores, que acontece uma vez ao ano.

- Festival das Flores? Não tinha isso quando éramos crianças?

- Sim, só não tinha este nome. Antes parecia mais com uma festa julina.

- O vovô e a vovó não nos trouxeram uma vez?

- Sim! Ficamos o dia todo.

- Lembro que a vovó fez roupas para nós usarmos, os dois com xadrez. - ela riu

- É verdade! Uma pena que a festa perdeu essa parte, mas agora atrai bem mais gente. Tem um desfile com carros de flores, tem barracas com vendas de doces, comida, arranjos, várias coisas.

- E quando que vai ser a deste ano?

- Hum… - ele olhou em volta procurando algo e achou - Daqui uns quinze dias, segundo aquele cartaz. Eu falei que estava perto!

- É uma ótima oportunidade para a gente então.

- Não era para ser na feira? - ele fez careta

- Como você disse que atrai mais pessoas, creio que seja melhor no Festival.

- Faz sentido!

- Qual a próxima parte do nosso passeio?

- Bom, agora é visitar a igreja, que foi reformada e dar uma volta nas lojinhas. Depois, voltamos para casa.

- Só isso?! - reclamou

- A cidade não é imensa, você já sabia disso. Devemos estar em casa para o almoço.

- Que triste! Eu estou me divertindo.

- Bom, eu tenho um planejamento para quando chegarmos.

- Sério?! O quê?!

- Vou fazer um suspense. Só vai saber quando chegarmos.

Ela apenas assentiu, ansiosa pelo mistério da tarde e o restinho de passeio da manhã.

Os dois passearam pelas diversas lojas localizadas em duas ruas centrais da cidade, onde haviam roupas, bugigangas, lembrancinhas e algumas comidas. Ficaram tão distraídos que nem sentiram a hora passar e logo estavam de volta para o almoço.

- Divertiram-se na cidade, meninos? - a tia perguntou

- Sim, tia, e muito! - Bianca comentou - Acho que Théo tinha razão, eu precisava dar uma relaxada.

- Além disso, mãe, já temos um lugar perfeito para nosso teste de perfume.

- O Festival das Flores né? - o pai falou entrando no ambiente

- Exatamente! - a prima sorriu

O grupo sentou-se à mesa e comeu, num clima animado, que já havia dias que Bianca sequer notava, pois estava tão preocupada em produzir o bendito do perfume perfeito.

Após o almoço, Théo chamou-a para a segunda parte do dia de relaxamento.

- E aonde nós vamos?

- Não é muito longe, na verdade, é aqui dentro do sítio. - apontou para um casebre no alto - É lá em cima daquela colina.

- O cafofo do vovô Geraldo e da vovó Lúcia? Mas, o que teria lá?

- Memórias. Precisamos delas se formos seguir com o plano.

Bia deu de ombros e seguiu o primo. O pequeno cômodo ficava num dos pontos mais altos da propriedade e era onde os avôs guardavam coisas que não precisavam sempre. E eram lá que estavam boa parte das lembranças da família, incluindo as infâncias dos primos e as férias de verão.

Com cinco minutos de caminhada eles alcançaram o quartinho, que tinha a estrutura semelhante à da casa, com uma porta de madeira para entrar e apenas uma janela próxima a ela. O primo pegou a chave e abriu, acendendo a luz, pois o ambiente, mesmo no dia, ainda era bastante escuro. O lugar tinha tudo para parecer úmido, mas o sol que batia diretamente nas paredes no período da tarde era para evitar isto, assim como a única janela deixava apenas o mínimo de luz entrar para proteger o resto.

- Por onde começamos? - olhou para o primo

- Você escolhe!

- Pelos álbuns de fotos então. - disse apontando, pois já tinha visto a caixa.

Pegaram a caixa de madeira maciça e bastante grande e a abriram, vendo infinitos cadernos menores, todos constituídos de fotografias em seu interior. Foram puxando aleatoriamente e folheando-os. Viram fotos dos avôs mais jovens, dos primeiros dias do Sítio Amigo do Sol, as primeiras vezes que os girassóis foram para a feira; seus pais durante a infância; os animais do local; como a propriedade tinha mudado e diversas outras coisas. Até que chegaram na própria infância deles, vendo diversas fotos de si mesmos, fossem na plantação, no balanço, embaixo da árvore grande, sentados na varanda, porém, uma chamou atenção de ambos, pois era justamente do dia que comentaram mais cedo, da festa julina no centro da cidade. Os dois com roupas xadrezes, com a devida caracterização e penteados. Havia fotos deles perto da fogueira, dançando quadrilha, comendo milho cozido… Um sorriso se acendeu em seus rostos, de uma recordação gostosa e de uma época mais simples!

Não precisaram trocar nenhuma palavra, pois, assim como na infância, eles sabiam perfeitamente o que o outro estava pensando.

Logo, os álbuns de fotos terminaram, da mesma forma que tinha sido com a vida dos avôs. Primeiro foi o avô, quando eles mal entraram na adolescência. Depois foi a avó, quando ambos estavam na época do vestibular. E foi desta forma que a manutenção da propriedade passou para os pais de Théo.

- Uma pena que os registros fotográficos pararam logo aqui.

- A vovó era quem gostava de fazer, assim que ela faleceu, não teve ninguém para manter o hábito. O que é bem triste!

Guardaram a grande caixa em seu lugar e foram olhar mais outra coisa, naquele labirinto de memórias do pequeno cômodo. Tinham diários, registros do sítio, objetos importantes - como o violão do avô e a máquina de costura da avó -, roupas de ocasiões especiais - incluindo aquelas roupas xadrezes - e registros em vídeo, entre fitas cassetes e os DVD’s.

O Sol já estava se pondo no horizonte, indicando que era hora deles voltarem, pois a caminhada, mesmo simples, era bem mais difícil à noite.

- Podemos levar isso para assistir depois do jantar, o que acha? - sugeriu o primo

- Acho perfeito!

Então desceram com a caixa, que era bem menor do que a de fotos e voltaram para casa.

Os mais velhos até acharam estranho aquilo, mas ficaram animados pois foram convidados a revirar aquilo tudo após a refeição.


***


Assim que acabaram de comer, os quatro se sentaram e foram assistindo, um a um os registros em vídeo. A maioria foi feita através de uma filmadora antiga, então a qualidade da imagem não era tão boa. As imagens eram bem semelhantes com as das fotografias, os mesmos ambientes, os mesmos momentos. Só que o registro do movimento, presentes com as vozes e sons, faziam a nostalgia bater com muito mais força.

Eram muitas e seria impossível assistir tudo em um dia só. Os tios resolveram se recolher primeiro, pois tinham bastante serviço no dia seguinte, deixando assim os dois primos sozinhos na sala.

As horas foram passando e os dois nem perceberam, enquanto apenas iam trocando de fita em fita, de DVD em DVD. A ordem cronológica estava meio confusa, havia horas que se viam mais velhos ou mais novos. Théo acabou não resistindo ao sono e apagou no sofá. Já Bianca ficou vidrada até altas horas naquela televisão. Ela não sabia que horas eram, mas já devia estar perto de amanhecer… Empurrou uma fita para dentro do aparelho e deu o play. O que apareceu foram imagens daquela mesma festa julina que os primos recordavam. Ela se viu correndo e brincando, se divertindo. Porém, depois a cena corta para avô indo se apresentar no palco daquele evento, junto com seu violão. E ele disse o seguinte:

- Boa noite a todos os presentes na Festa Julina da Cidade de Charmosinha, eu sou Geraldo, um dos cultivadores de flores daqui. As minhas favoritas são os girassóis. E bom, tem três coisas que amo: as flores, a minha família e música. Então, pensando nos meus amados girassóis e nos meus netos… Dois deles estão aqui hoje… Resolvi escrever esta música, que dei o nome de: A pura nota do girassol. Espero que gostem!


E então, ele começou a tocar uma melodia, que era leve, suave e tranquila, sendo imediatamente reconhecida pela mente de Bianca e depois declarou os versos, que ela não se lembrava direito. Porém, quando chegou o refrão da música, que sentiu algo diferente. O refrão era o seguinte:


“Girassol, Girassol, la la la la la la…

A coisa mais pura do girassol é que ele sempre segue a luz.

Todos unidos sob o mesmo Sol 

Cantando uma melodia de esperança 

Com nossas vozes se juntando

O mundo gentil continua, com sua nota mais pura

Igual a um girassol.

la la la la la la…”


A canção terminou e aplausos ecoaram no recinto. Bia estava sentada no sofá, chorando, talvez de saudade dos avôs. No final da reação do público, ele falou:


- Obrigado! O girassol sempre me traz uma lembrança do verão, do calor, de buscar sua luz… De felicidade!


Aquela frase atingiu ela em cheio, talvez não pelo efeito da frase em si, mas por que deu a inspiração e encaixou a ideia de faltava para a montagem do perfume. Bianca desligou a TV e o aparelho depressa e correu até a garagem, indo terminar a sua missão.

Algumas horas depois, os tios acordam e encontram apenas o filho morgado no sofá. Cumprimentaram-no e falaram depois.

- Filho, cadê a sua prima? - o pai cutucou-o

- Ah? - olhou em volta - Cadê ela?!

- Será que não está na garagem? - observou a tia que a porta estava destrancada

- Vou lá ver! E chamá-la para comer… - o primo disse

Ele se levantou, deu uma lavada no rosto para despertar e foi procurar a prima, encontrando-a concentrada novamente em suas essências. Encostou na mesa e falou com ela.

- Bom dia, Bia.

- Ah, bom dia, Théo - e deu um longo bocejo

- Você dormiu esta noite?

- Não! Fiquei até tarde vendo as fitas e acabei tendo uma inspiração doida. E bem, acho que desta vez eu consegui.

- Conseguiu o quê?

- Produzir o cheiro que eu queria. - passou um pouco do líquido na pele do braço do primo - Experimente!

Théo cheirou o perfume em seu braço e foi transportado para memórias que há muito estavam adormecidas, com girassóis e aquele cheiro que só o período de férias com a prima tinha. Era difícil de explicar.

- O que é isso?

- É a pura nota do girassol. - sorriu - Assim como a música do vovô!

- Música?

- Aquele que ele sempre cantava. Durante a noite, junto da fogueira, enquanto a gente comia um lanche. Ou na Festa Julina da cidade. Depois te mostro o vídeo! - depois resolveu acabar o mistério - E ai? O que achou?

- É perfeito!


***


As semanas seguintes foram de uma enorme correria no sítio Amigo do Sol. Com o perfume teste definido, os dois primos correram para fazerem algumas unidades a mais - a prima ensinou o primo como fazer, pois precisavam de mais mãos - e também para montar uma imagem visual simples, já para começar a divulgação. Mas, primeiro, eles precisaram definir um nome para o novo negócio, que nem era tão novo assim, já que estaria ligado a plantação de girassóis e a propriedade. Então, o nome ficou Perfumes do Sol.

Bianca pediu auxílio de um amigo da cidade para a construção das etiquetas e para complementar a imagem visual. E em tempo recorde, eles tinham tudo isso pronto. Foi um pouco complicado, pois alguns dos materiais eram escassos na região, apenas indo para uma cidade maior que se encontrava.

Os tios ficaram super felizes de ver os primos trabalhando juntos e já estimavam que a nova empreitada daria bastante certo.

O tempo passou voando e logo estavam na véspera do Festival das Flores, já montando os últimos preparativos. Conseguiram uma pequena barraca para exibição, mas também ficariam passeando no evento para dar algumas amostras.

- Amanhã é o grande dia! - disse Bianca olhando o primo

Então, todos os quatro membros foram dormir, pois o dia seguinte prometia e muito.

Acordaram cedo, arrumaram as coisas e dirigiram até a cidade. Assim como foi no dia da feira, arrumaram o estande todos juntos, deixando o mais lindo e chamativo possível.

Quando deu o horário, todos eles já estavam a postos, prontos para capturar aqueles turistas e fazer deles a sua clientela.

Os dois primos ficaram na barraca, enquanto os tios estavam perambulando no evento com cestinhas lotadas de pequenas amostras da fragrância criada por Bianca.

O evento estava lotado, tanto que era impossível ver buracos em meio a multidão. Diversas pessoas passaram pela barraca, fosse porque acharam interessante ou porque foram indicados pelos mais velhos a ir ali.

E foi assim que os primeiros frascos de “pura nota do girassol” começaram a ser vendidos e as peças fabricadas tinham seus destinos.

Durante todo o trabalho, Théo e Bianca fizeram questão de cantar a canção do avô - que ela fez questão de mostrar no vídeo depois - tudo para trazer as lembranças da avó e do avô para aquele momento, como se pedindo uma proteção.

Eles estavam tão distraídos que nem perceberam que uma grande celebridade parou para observar sua humilde barraca, era justamente o CEO daquela empresa que esteve na cidade poucas semanas antes.

- Boa tarde, senhores. - disse sorrindo - Que interessante temos aqui. - pegou um dos frascos - Pura nota do girassol… Perfumes do Sol… Nome interessante!

- Quer experimentar o cheiro? - Bianca sugestionou

- Claro, vim aqui para isso. - ele estendeu o punho para que ela borrifasse parte do líquido ali - Sabe, o Festival inteiro só fala deste perfume.

O CEO colocou o pulso perto do nariz e fungou, sentindo o aroma. Ele fechou os olhos, se concentrando… Foram alguns segundos de silêncio, com todos ao redor esperando ansiosamente a reação dele.

- O que achou? - Théo resolveu acabar com o silêncio

- É diferente… - pôs a mão no queixo - Não sei descrever, porque ele me traz muitas sensações diferentes.

- Como? - a prima estava curiosa

- Tem um frescor, que vem do floral do girassol, mas lá no fundinho, ele é acolhedor, como uma casa bem protegida do frio… O tom suave amadeirado no final. - ele olhou para os dois, como se procurasse uma reposta. - Quem foi que criou isto?

- Fui eu! - ela sorriu

- É uma perfumista experiente, eu suponho. 

- Trabalhei com os melhores, então tenho meus créditos.

- Eu até te ofereceria um cargo na minha empresa. Posso imaginar que tipos de cheiros é capaz de criar, mas imagino que seu foco seja isto. - apontou para a barraca - A coisa familiar!

- É sim, senhor! - cruzou os braços

- Não é uma crítica. Pois, pelo que vejo aqui, vocês dois tem futuro nisso. Só... Continuem trabalhando. - ele riu - E outra coisa: vou levar um! Quanto é?

- 15 reais! - respondeu o primo

- Só isso?!

- É apenas um teste durante o evento. Claro que depois o valor vai aumentar… Aproveite a promoção!

- Claro!

Ele pagou e saiu maravilhado com aquela pequena alegria presente num frasco tão pequeno. E quem estava por perto e viu a cena, fez questão de levar o que sobrara. Então, na metade do evento, os dois primos já tinham esgotado a primeira remessa da Perfumes do Sol. Os dois pularam e comemoraram o sucesso do que queriam e tinham esperança de que desse certo.

Foram depois aproveitar o Festival. Passearam, dançaram, comeram, se esbaldaram, igual a duas crianças felizes.

Mais para o final da tarde, houve o Desfile das Flores, com pessoas enfeitadas como arranjos vivos e carros alegóricos trazendo coroas de flores enormes, outras em formatos de animais. Tudo muito bonito e colorido.

Todos aplaudiram quando o desfile terminou e a festa prosseguiu. A família toda perdeu a noção da hora e só percebeu que era tarde pois os turistas começaram a ir embora, o que era um sinal que eles deveriam fazer o mesmo, pois o novo trabalho só havia começado.

Arrumaram as coisas, botaram no carro e foram para o Sítio.

- Uma pena que o festival acabou. - comentou o tio - Significa que mais um verão acabou.

- E ocê vai ficar, Bia? - a tia jogou

- Claro que vou ficar! Agora temos um negócio para tocar. - falou olhando para a prima.

E sim, agora eles tinham muito mais coisa para fazer…

Aquela experiência, ou melhor, início dela foi bastante divertida, trazendo de volta as memórias de férias de verão, dos girassóis, dos avôs e aquela canção que por pouco não foi esquecida. O frescor do calor, junto com o acolhimento e aconchego da família.


***


"Ele foi salvo como uma coisa natural, com bondade insubstituível.

Sua presença que ecoa em seu coração te dá coragem muitas vezes

Ouça e levante seu rosto

Conecte coração a coração

juntos


Vamos todos nos conectar aqui

Cante a melodia da esperança

Suas vozes se sobrepõem

Um mundo gentil continua"


(Purest Note - Minori Chihara)

 
 

terça-feira, 28 de junho de 2022

Chá para Dois - 12 Meses com Minorin: Junho

 

"Com um café sozinho na janela e um rosto misterioso

Você está aliviado ao me notar acenando?

Não tem jeito...

 

(...)

 

Porque é minha paixão, não posso perdoar tudo

Porque é um amigo, não posso falar de tudo

Chá para dois, mas duas pessoas são mais confortáveis ​​do que uma

Porque é chá para dois, você sempre pode ligar"

 

(Tea for two - Minori Chihara)

 

***

 

Mais um final de tarde e o meu café chamado Coffee & Jewelry está lotado como sempre. Já faz uns anos que abri este estabelecimento e num dia dos namorados inventei de fazer uma bebida especial e comemorativa, que dei o nome muito criativo de Tea for Two - Chá para dois, num bom inglês - e foi justamente ela que deu uma virada nos meus negócios. Tanto que esta bebida faz parte do cardápio permanente do café.

E com o decorrer do tempo e das histórias e do boca-a-boca, surgiu uma lenda ou superstição acerca da “Tea for Two”. Que ela é uma bebida mágica, que ela une casais, que ela traz o amor verdadeiro… Mas, a que mais teve força foi: se alguém beber esta bebida com o seu amor, sua relação durará para sempre!

A Tea for Two nada mais é do que uma bebida gelada usando café, chocolate, sorvete e uns pedaços de morango. Foi uma receita que levei muito para aperfeiçoar e sou muito orgulhosa dela.

Desde que a história se espalhou, totalmente fora do meu controle - e de uma forma perfeita para os negócios -, tenho observado todos os tipos de casais que chegam aqui e pedem um Tea for Two. Casais de diferentes orientações sexuais, gêneros, origens, cores, estilos, enfim: diversos.

Já notei também que a maioria que vem já tem um relacionamento estável, seja com alguns meses ou semanas e acreditando ser o amor eterno um do outro, tomam a bebida juntos, tirando umas fotos para as redes sociais e saem felizes e sorridentes.

Não faço ideia de como essas histórias se seguem, pois boa parte deles sequer retorna aqui. Um ou outro casal sei que ainda está junto, pois são clientes assíduos do café.

Porém, recentemente, uma figura tem me chamado a atenção.

Uma jovem, que aparenta estar na casa dos seus 20 anos, justamente aquela fase em que costumamos sonhar e acreditar muito no amor incondicional e eterno. Digo isto porque eu já fui, assim como ela, uma romântica sonhadora, atualmente sou uma romancista realista.

A primeira vez que ela veio, estava acompanhada de um rapaz da idade dela e eles pediram um Tea for Two. Ela inclusive parecia mais animada do que ele por estar ali, o que é algo bem comum nos casais - os héteros principalmente: a mulher estar mais empolgada que o homem.

O rapaz que era seu acompanhante não conseguia esconder a sua expressão de desdém. Na minha experiência vivendo e vendo relacionamentos, não seria a minha bebida mágica que faria aquela relação ser eterna. O que se confirmou ainda mais quando ouvi o diálogo:

— Não sei por que viemos beber esse chá ridículo.

— Já disse, ele é mágico e com ele vamos ficar juntos para sempre.

— Essas superstições são bestas. Não sei ainda porque acredita nisso!

— Você quer parar de criticar e aproveitar o momento?

— Estou fazendo isso!

— Não parece!

Conforme pedido pelo casal, a bebida foi entregue. Eles tomaram, cada um usando o seu canudo colorido e avermelhado em cada um dos lados. A garota tirou fotos dos dois, completamente feliz e aproveitando o momento. O rapaz continuava com a mesma careta.

E infelizmente, eu estava certa quanto ao futuro deles! 

Não faço ideia de quanto tempo depois, mas ela retornou acompanhada de outro homem, na mesma faixa de idade e a experiência foi semelhante a anterior.

Daí por diante, esta jovem se tornou uma das “figurinhas carimbadas” e uma das clientes mais assíduas da loja, principalmente acompanhada. Sempre levava um homem diferente e faziam sempre o mesmo pedido: Tea for Two.

Tanto eu quanto meus funcionários nos tornamos os maiores especuladores sobre a história e os motivos daquela garota se sujeitar a tantos encontros péssimos com caras péssimos, bebendo algo que acreditava ser milagroso, talvez querendo que a relação desse certo, mas não era isso acontecia.

Por meses, longos meses, essa situação prosseguiu. Na verdade, a gente já ficava esperando ela aparecer, porque ela sempre vinham ao menos uma vez ao mês com o seu escolhido da vez e era impossível não comentar sobre.

E mais um dia dos namorados se aproximava, estávamos naquela correria por conta do extenso número de reservas para esta data. Nossa enigmática “apaixonada pelo chá” - apelido que demos a ela - não aparecia já havia umas semanas, mas nossa expectativa é de ela surgisse dentre as reservas.

Estávamos preparando um cardápio especial para a data, com tudo o que fosse possível de ter rosas e corações. Sem contar que nossos estoques dos ingredientes para o Tea for Two estavam cheios, justamente o dia em que ele saia aos montes.

Prometia ser um Dia dos Namorados daqueles, como sempre!

 

***

 

A tão esperada data chegara e com ela toda a agitação que trazia, sempre precisava de um ou dois dias de folga depois disso para me recompor da loucura.

Estávamos com as reservas lotadas para o dia inteiro, já que este Dia dos Namorado fez questão de cair num final de semana. Pouco antes de abrirmos, a fila já estava longa do lado de fora. Chamei a minha equipe e conversei com eles:

— Pessoal, este é um dos dias mais importantes aqui na Coffee & Jewelry. Hoje é o dia em que a Tea for Two é mais vendida. A fila lá fora já está repleta de casais esperando o amor eterno que só nossa bebida gelada pode proporcionar.

— Sei que estarão muito cansados no final deste dia. - acrescentou minha gerente - Mas, prometo que estarão felizes.

— E todos estarão de folga amanhã! - completei sorrindo - Agora, ao trabalho!

Uma salva de palma e um alvoroço se seguiram, os funcionários estavam empolgados - talvez por causa da folga no dia seguinte.

Abrimos e em poucos minutos o nosso salão estava lotado. A cozinha estava a pleno vapor e todos os casais estavam saindo satisfeitos. O que mais via eram as câmeras levantadas para uma foto aqui e ali.

— Rebeca, estamos explodindo de marcações. - comentou a funcionária que estava gerenciando nossas redes sociais naquele dia

— Isso é ótimo! - comentei alegre e pedi depois - Não se esqueça de fazer imagens do salão e das nossas bebidas, nem que seja para ficar guardado e irmos postando depois.

— Pode deixar! - assentiu e foi fazer conforme solicitado

Observava o entrar e sair de pessoas da Coffee & Jewelry, mas eu confesso que, como a maioria dos funcionários, procurava nossa “apaixonada pelo chá” em meio a multidão. Eu tinha acordado com eles de que a atenderia pessoalmente caso viesse. E bem, eu já estava ajudando no atendimento, pois este dia era o mais pedia, então, estava unida a minha equipe nas funções.

E qual não foi a minha surpresa ao vê-la aparecer, obviamente acompanhada de um rapaz diferente.

Nossa maitre levou-os a uma das mesas que ficava do lado do vidro que dava vista para a rua. A funcionária me olhou, fez um gesto para mim e eu fui para atendê-los.

Ao me aproximar, vi a mesma cena de sempre, ela muito animada e o seu acompanhante indiferente à situação.

— Boa tarde, casal, sejam bem-vindos! Aqui estão os cardápios, fiquem à vontade para escolher! Qualquer coisa, só me chamar, meu nome é Rebeca.

— Obrigada! - a moça respondeu ao pegar da minha mão - Espera! Você não é a dona daqui?

— Sou sim! O dia de hoje está bastante agitado, então todas as mãos são necessárias hoje.

— É um prazer ser atendida por você. - ela abriu o cardápio e fingiu olhar, mas que sabia bem o que ela ia pedir - Bom, eu quero um Tea for Two, acompanhado dos waffles de coração com chocolate.

Anotei o pedido e olhei para o rapaz, que parecia muito sério com o cenho franzido.

— E o senhor?

— Apenas um café expresso, sem açúcar.

— Tudo bem! - rabisquei a linha seguinte com o pedido dele - Com licença!

Retornei ao balcão e entreguei a comanda na cozinha, sendo logo em seguida abordada por uma das garçonetes.

— E ai? Palpites sobre o pretendente da vez?

— Igual aos outros. - comentei - Deve ser outro primeiro encontro.

— Eu fico com uma pena do dedo podre dela, tadinha. - falou outra funcionária que chegara

— Eu me pergunto onde que ela arruma esses trastes. - retruquei

— Alguma aposta sobre qual vai ser o resultado? - a voz veio da cozinha

— O mesmo de sempre! - outro cozinheiro falou - Ela vai voltar aqui no mês que vem com mais um.

— Vamos ver como vai se desenvolver… - completei

Como nosso salão estava bastante barulhento, não dava para ouvir a nossa conversa, ainda bem!

Eu sei que é bastante feio ficarmos comentando da vida de alguém, mas todos nós nos encarecemos da situação da nossa cliente. Quantos de nós já não passamos por algo semelhante a ela? De tentar a todo custo encontrar alguma cara-metade, uma alma gêmea, um companheiro, alguém para contar, mas sempre acaba achando tudo, menos aquilo que mais se quer?

Talvez ela só esteja procurando uma fórmula mágica para que o que deseja dê certo e é por isso que pede desesperadamente a Tea for Two toda vez que vem aqui.

Levou alguns minutos até que o pedido estivesse pronto, mas me peguei observando o casal e eram as mesmas cenas de sempre: ela tirando fotos, tentando conversar, puxar algum assunto, enquanto a outra parte apenas se atentava ao que estava acontecendo na tela do seu celular. Aquilo não ia mesmo acabar bem, especialmente para a minha cliente assídua.

Com auxílio das bandejas, levei tudo até a mesa, posicionando a bebida principal no centro, o café na direção do rapaz e os waffles na direção dela.

— Bom apetite! Qualquer coisa, só me chamar.

— Obrigada, Rebeca.

E me afastei, indo cuidar de outras mesas, pois a rotatividade era grande. De vez em quando, olhava para aquela mesa e não havia nada de novo para acontecer. Não era mesmo uma bebida gelada que ia dar um relacionamento perfeito àquela garota.

Eis que, todos os presentes no restaurante, tomamos um susto daqueles. Vindo daquela fatídica mesa, o rapaz levanta abruptamente da cadeira, derrubando as coisas na mesa - e fazendo o favor de fazer uma lambança daquelas por conta do líquido ter caído no chão. 

Em seguida, ele vocifera:

— Você é simplesmente maluca! Maluca! Bem que o meu amigo tentou me avisar que você ia me arrastar para este lugar e me fazer beber isto com você. A gente se conhece há uma semana… Não quero compromisso e nem promessa de amor eterno! Vocês mulheres nos arrastam para umas coisas… Sua louca!

Até aquela altura, várias pessoas já estavam com os celulares a postos e filmando a cena. Enquanto isso, a garota apenas se mantinha impassível, de cabeça baixa e eu podia perceber que ela já chorava, mesmo com o cabelo tampando o rosto.

— Algum problema, senhor? - indaguei

— Diga você. Fica vendendo esta ilusão de amor eterno na sua cafeteria!

— Como é? - fiquei incrédula que ele quis falar mal da Coffee & Jewelry

— Isso que você ouviu. Você fica ganhando dinheiro às custas dos outros, ainda mais com esse chá mágico. - ele ainda falava alto

— Senhor, fale baixo, por favor! Está incomodando os outros clientes.

— Estou falando para que todos ouçam! Esse Tea for Two é uma farsa. É só uma desculpa besta para fazer vocês gastarem dinheiro pensando que ficarão juntos para sempre. É mentira!

Eu não acredito que este cara resolveu fazer isto, justo neste dia. Acho que estava bem claro para todo mundo que o mito do Tea for Two era só uma história, mas as pessoas vinham para provar a bebida, pelo ambiente e por muitos outros motivos. Mas, acho que este abençoado tomou a história como uma verdade daquelas. E ainda fez o favor de fechar a tampa do caixão com o seguinte:

— Tinha que ser uma ideia de mulher.

— Senhor, peço que se retire imediatamente.

— Não fico mais um segundo aqui nesta espelunca.

— Ótimo então! Agradeço por estragar o dia de todo mundo presente aqui, falando sobre uma coisa que é bastante óbvia. Inclusive, muito bom o tratamento à sua acompanhante. - ironizei, enquanto eu mesma o levava em direção a saída

— Ela é louca, já disse. Me trouxe aqui para beber isto achando que vou ficar com ela.

— Ela tentou. E infelizmente, você não é flor que se cheire.

Depois desta cena ridícula e que foi filmada por muitos - e que já devia estar rolando nas redes sociais -, respirei fundo e fui falar com a minha cliente que foi abandonada de novo naquele café, mas dessa vez com um teatro horroroso.

— Você está bem? - indaguei ao me sentar na cadeira onde estava o rapaz segundos antes

— Estou sim. Obrigada! - manteve a cabeça baixa

— Ei, olhe para mim. - pedi

Ela fez conforme falei e pude ver seus olhos marejados e ainda vermelhos de tanto chorar. Peguei um guardanapo e dei para que ela secasse as lágrimas. Decidi que ficaria ali até que ela se acalmasse.

— Desculpa por ele.. - soltou

— Não peça desculpas por aquele traste!

— Eu não sei por que nunca dá certo. - desabafou - O que estou fazendo de errado?

— Talvez só não esteja procurando no lugar certo. - comentei

— Faço tudo o que mandam os manuais, me arrumo, tento ser agradável, ser madura, responsável e fazer coisas românticas e bem, trazê-los para beber o Tea for Two. Mas nada disso adianta.

— Talvez não exista uma fórmula que faça dar certo, as coisas só se encaixam e dão certo, mas com as duas partes sendo elas mesmas.

— Por que o amor é tão complicado?

— Não é complicado, nós que complicamos. - refleti - Talvez essa busca de um ideal, um amor perfeito e eterno é que nos deixe assim.

— Olha, eu sei que você deve estar me achando uma boba por causa disso tudo…

— Eu falei alguma coisa? - fiz careta - Sei muito bem que é uma cliente assídua daqui.

— Sempre trazendo os caras errados. - ela concluiu

— Isso é detalhe! Pergunta sincera: Por que esta busca?

— Nem eu sei, para ser sincera. Sempre me disseram que eu só seria feliz se tivesse um companheiro ao meu lado e eu nunca contestei isso, só segui a corrente.

— Essas coisas que enfiam nas nossas cabeças.

— É verdade! - ela suspirou - Estraguei o dia dos namorados de todo mundo.

— Quem estragou foi aquele cara, não se culpe por nada.

— Obrigada! - ela sorriu - Vocês sempre me atendem tão bem!

— Somos assim com todos que frequentam aqui. Só fique tranquila e aproveite o resto da sua refeição. Hoje é por conta da casa!

Terminei a frase, me levantando, mas sem deixar de dizer o seguinte:

— Só para deixar claro, não é estar ou não acompanhada que determina se seremos felizes ou não. Imagino que já saiba disso, só espero que finalmente entenda.

Ela sorriu novamente, agradecendo o conselho.

Eu realmente estimo que aquela menina entenda que não é um relacionamento que vai determinar a vida dela. Acho que todas as pessoas deviam saber disto.

Mesmo depois do incidente, os clientes e a agitação do dia continuaram, como dentro do nosso esperado.

 

***

 

Na semana seguinte, estávamos num dia mais tranquilo de atendimentos, num horário no meio da manhã, quando um homem apareceu e foi falar diretamente comigo:

— Bom dia, você é a Rebeca, dona daqui?

— Sou sim! Do que precisa? - eu já pensava ser alguma reclamação ou algo do gênero

— Eu sou Gabriel, jornalista e tenho um blog próprio, onde indico bons lugares para visitar. Bom, me indicaram o seu café para uma matéria. Posso fazer umas perguntas?

— Claro! Por favor, escolha um lugar para fazermos a entrevista. Quer beber algo?

— Um chocolate quente!

Aquela situação já acontecera algumas vezes, então eu já sabia como lidar com isto. E bem, não era nada demais, costumam ser matérias de indicações de bons lugares para conhecer; para ir com amigos ou namorados; sobre ser uma mulher empreendedora; esse tipo de coisa ajudava e muito na divulgação do café para outros tipos de públicos. Se bem que nunca tinha me aparecido um blogueiro até então.

Pedi a uma das garçonetes que preparasse as bebidas para nós.

O rapaz se acomodou numa das mesas próximas ao vidro e pegou o seu gravador e um bloco de anotações. Vamos ver que tipos de perguntas teria que responder.

Trazendo os chocolates em uma bandeja, coloquei-os sob a mesa, me ajeitei na cadeira e logo falei:

— Pode começar!

— Claro! - levou um segundo para ele perceber, pois estava prestando atenção em outra coisa em mim

As perguntas se seguiram dentro do que era o padrão: quando o café abriu, porque o abri, quais eram meus maiores prazeres e dificuldades com este negócio, como é ser uma mulher que tem o seu próprio café. Mas, todas pareciam algumas perguntas para encher linguiça e chegar logo no assunto que o garoto queria.

— O Coffee & Jewelry é um dos mais movimentados e disputados da região no Dia dos Namorados, desde o surgimento da Tea For Two. Pode contar como surgiu essa história de bebida mágica? E qual é toda a mitologia em volta dela?

— Bom, começou sem querer. Estávamos no primeiro ano de funcionamento, o primeiro 12 de Junho que viria e queríamos encher o caixa e fazer o negócio respirar um pouco. Então, montei todo um cardápio especial para a data, deixando-a ainda mais temática e o Tea for Two estava dentro deste pacote. Porém, é uma bebida gelada com café, o que não costumam gostar muito por aqui, achei até que fosse sair pouco, mas no dia foi um sucesso. Os casais que vieram aqui saíram maravilhados com o local e foram espalhando sobre. E sendo sincera com você, eu nem sei em que ponto surgiram as histórias de amor eterno que a Tea for Two promete.

— Do que é feito o Tea for Two?

— Ingredientes até comuns. Café, morangos, sorvete, mas tem aquela pitada de amor e o toque especial que só nós sabemos fazer.

— Então, você não acredita que a sua maior bebida seja mágica?

— Mágica ela é, mas não do jeito que falam.

— E se eu disser a você que existem casais que se encontraram aqui pela primeira vez, beberam o Tea for Two e estão juntos desde então?

— Você pesquisou isto?

— Sim! Entrei em contato com alguns deles e já os entrevistei.

— A sua matéria é só mesmo sobre um lugar legal para conhecer?

— Em parte sim! Por outra, quero desmistificar essas histórias de fórmulas mágicas de amor.

— Até porque, não existe fórmula para ele.

— Concordo plenamente!

— Bom, eu tenho um caso que pode ajudar na sua reportagem, posso passar o contato dela talvez.

— Eu tenho alguns casos que também não deram certo, mas esse pode ser interessante.

Contei brevemente sobre a apaixonada pelo chá, sobre ela e todas as suas tentativas fracassadas com os acompanhantes. Falei até sobre a cena no último Dia dos Namorados.

— Caramba! Então, ela é a moça de cabeça baixa nos vídeos que circularam?

— Sim, é ela mesma! É uma cliente assídua, como falei.

— A história dela terá que ser tratada de uma forma bem delicada… Talvez mantendo-a anônima. Passe-me o contato dela, por favor. Não me custa tentar!

— Espero que seja um bom ponto ao tema que quero levantar no artigo, mas não quero abusar da imagem da garota.

— Fico feliz por se preocupar com isto. Ainda mais depois do que houve!

— Eu estava aqui naquele dia. Acabei vendo a cena!

— É sério? Estava com quem?

— Com a minha, agora, ex-namorada.

— Sinto muito!

— Não sinta. Nossa relação já não ia bem e ela achou que a sua bebida resolveria tudo como um passe de mágica.

— E por que está fazendo esta matéria então?

— Ela me trouxe aqui, me fez beber e mesmo assim terminou comigo. Acho que quero fechar este ciclo. - e riu

— Seria muito abuso querer saber do desenvolvimento deste artigo?

— Não, venho aqui lhe contar do progresso sempre que possível.

— Vou pegar o contato da moça. Só um instante!

Abri no computador, olhei o nome dela - Laura - nas reservas e num pedaço de papel anotei o nome e telefone dela. Retornei à mesa e lhe entreguei.

— Obrigado pela atenção!

— Por nada. Nossos clientes são sempre bem vindos! - sorri

Ele recolheu suas coisas e saiu, me deixando bastante curiosa sobre a bendita matéria que está escrevendo para o blog dele, que eu esqueci completamente de perguntar o nome.

 

***

 

Diversos dias se passaram, sem nenhum sinal do repórter independente e muito menos da apaixonada pelo chá, mas, mesmo que estivesse ansiosa com os desfechos, não havia nada que pudesse fazer além de esperar.

Como a data mais importante do ano para nós já passara, a rotina estava tranquila como sempre. Coffee & Jewelry estava sempre cheio, só que não era nem 10% da loucura daquela tarde/noite de namorados. Então, todos os meus dias de trabalho seguiam a mesma rotina. Eu e todos os meus funcionários queríamos muito saber a quantas andava a cliente que era fruto de boa parte de nossas conversas e se ela apareceria novamente com um pretendente. Até que tivemos a nossa resposta!

Num final de tarde, ela surgiu e pela primeira vez aparentava estar sozinha ou talvez estivesse esperando alguém, sentando numa mesa próxima ao vidro. Houve uma breve briga entre os garçons para ver quem pegaria seu pedido. Tiraram no zerinho ou um. O vencedor comemorou como se fosse a loteria - se bem que esta é a da fofoca, que vale bastante.

Enquanto o sortudo recolhia o pedido dela, todos nós outros ficamos apreensivos e ansiosos. Cerca de alguns segundos depois, o funcionário retornou e cantou o pedido.

— Bolo de chocolate e capuccino para a mesa 10!

— Sem Tea for Two? - indagou uma

— Por enquanto, sim! - respondeu

— Isso é tão estranho. - falou outro

— Talvez o último ocorrido ainda a afete. - tentei justificar

— Inclusive, - o sortudo comentou - ela quer falar com você.

— Pode deixar que eu irei lá.

Sai de trás do balcão e caminhei em direção a mesa, vendo-a distraída olhando as pessoas passando na rua, já que era o horário de voltar para casa.

— Boa tarde! - cumprimentei - Queria falar comigo?

— Ah sim! - sorriu

— Posso me sentar?

Ela assentiu. Depois de alguns breves segundos de silêncio, começou:

— Enfim, deve achar estranho eu estar de volta aqui… Ainda mais depois daquilo tudo.

— Não foi sua culpa.

— Já deve saber do homem que está escrevendo uma matéria sobre o café né?

— Claro! Ele passou aqui e falou comigo. - e já me antecipei - Eu quem lhe passei seu contato. Peço perdão se foi abuso meu!

— Não foi, imagine. Na verdade, marcamos de nos encontrar aqui, para a entrevista. - ela se mostrava alegre - Finalmente vou poder mostrar o meu lado… Muitos me julgaram, ainda mais depois do vídeo.

— Vai colocar seu nome na matéria?

— Por que eu não colocaria? Não é vergonha nenhuma o que eu fiz, mesmo que estivesse um bocado desesperada. Depois do ocorrido e daquela nossa conversa, eu percebi que a pessoa que me vai me fazer feliz sou eu mesma.

— Fico feliz em saber disso!

— Eu que agradeço por tudo.

— Senhoritas! - era o blogueiro que falara comigo dias atrás

— Bom, vou deixar vocês à vontade para a entrevista. Gostaria de pedir algo? - me virei ao homem

— Um chocolate quente, por favor.

— É para já!

Retornei ao balcão e fui enchida de todas as perguntas. Se o repórter era o novo interesse amoroso dela, se seria só aquela entrevista mesmo ou se havia algo mais; Sobre o que havíamos conversado; Como foi a repercussão do vídeo na internet para ela. Dava para montar um livro gigante com todas as histórias que meus funcionários inventavam acerca dos nossos clientes.

Os dois ficaram lá bastante tempo conversando, com um gravador posicionado bem no meio dos dois. Em diversos momentos, dava para ver os dois rindo. Ainda bem que tinha ficado tudo leve para ela e não guardava ressentimentos e nem arrependimentos de todas as falhas que cometeu. Aliás, era certo ela não sentir nada, ela só estava tentando ser feliz e quem de nós não está, não é?

No fim, a garota se despediu dele e saiu. O rapaz permaneceu sentado fazendo anotações em seu caderno e digitando no computador portátil alternadamente, enquanto terminava de beber seu chocolate. Levantou a mão, chamando um atendente, que foi até lá e em seguida direcionou o olhar até mim, como que dizendo: ele está te chamando aqui. E fiz conforme uma expressão me comunicou.

Aproximei-me e me sentei na cadeira diante dele.

— Como foi a entrevista com a nossa personagem? - perguntei curiosa

— Foi ótima! Ela foi super aberta e sincera, vai acrescentar bastante na matéria.

— Que legal! - sorri

— Enfim, lhe chamei aqui pois quero lhe mostrar como está ficando… - disse virando a tela de cristal brilhante para mim

— Ah, claro!

O que estava aberto era um texto enorme, dava para ver que estava se dedicando e muito àquela ideia. Passei o olho rapidamente, tentando fazer uma leitura dinâmica e observando os principais pontos. Vi que ele fez uma pesquisa bem extensa sobre o surgimento do Coffee & Jewelry e várias outras entrevistas com clientes - perguntando sobre o que atraia eles ali e outras coisas - e contando suas histórias, as boas e as ruins. E mais lá para o final que contava sobre sua experiência desastrada com a ex e se levantava o grande ponto: existe alguma fórmula secreta para o amor? Uma parte dela está em beber o Tea for Two?

— E ai? O que acha? - questionou ansioso

— Eu adorei!

— Ah, que bom! Achei que ia querer me matar, porque eu tecnicamente direi que sua bebida mágica não funciona. - e riu - Falta só incluir a parte de hoje.

— Esperarei ansiosa para ler este final. Inclusive, esqueci de perguntar: qual o nome do seu blog?

— B Rhythm!

— Mas não é sobre música…

— Ele era sobre música quando criei. Ainda falo de vez em quando, é que quis abranger o leque de opções.

— Entendi! Vou deixar terminar seu chocolate em paz!

— Antes que vá… É… Bom, é que eu queria fazer outra matéria com você, sobre mulheres bem sucedidas, mas esta é para um freelance meu. Será que posso?

— Não precisava nem perguntar! - disse me levantando - A gente marca!

E retornei ao meu lugar no balcão, observando um cliente aqui, outro ali, atendendo mais um acolá e assim terminando mais um dia de trabalho no meu próprio negócio.

 

***

 

Diversos meses se passaram… A “apaixonada pelo chá”, ou melhor, a Laura, desapareceu depois daquele dia. O Gabriel se tornou uma figurinha carimbada e companhia frequente, ainda mais depois das três matérias que fez falando sobre o meu café. Uma de divulgação do ponto, outra sobre a eu empreendedora e a última com seu questionamento sobre o Tea for Two, que ficou intitulada: Um Chá Mágico traz mesmo o amor eterno? Existe fórmula mágica para encontrar sua alma gêmea?

Muita gente veria aquilo como um marketing bastante negativo, mas o que aconteceu foi ao contrário, muito mais gente foi atraída, mas mais para conhecer o café do que para tentar se juntar com alguém ou tentar salvar um relacionamento falido.

Não adianta, meu café é muito frequentado por casais mesmo, acabou sendo a marca registrada.

Passou o Natal, o Ano Novo, o Carnaval e mais um Dia dos Namorados estava à nossa espreita e eu resolvi criar outra bebida especial para a data, assim como foi com a Tea for Two.

Eu estava em casa, que fica num sobrado e apartamento logo acima do café, acompanhada do meu agora amigo jornalista, testando os últimos detalhes para declarar oficialmente qual seria a receita. Já tinha feito várias experimentações, mas o ingrediente que ficou foi o chocolate, acompanhado de umas doses de menta e hortelã, sendo quente e refrescante. Ela estava pronta e perfeita, do jeito que eu queria.

Minha cozinha estava inebriada pelo aroma de chocolate quente e biscoitos frescos em formato de coração - outro teste de receita, enquanto Gabriel estava escrevendo uma matéria. Ao finalizar, chamei-o para degustar. Ele logo respondeu e veio até a cozinha. Pegou a xícara com a bebida e tomou, fechando os olhos e parecendo ter gostado.

— Uma delícia! Já pensou em um nome?

— Pensei em chamar de Koi…

— Koi? Como assim?

— Significa amor, mas algo como “amor eterno” ou algo assim, não tem uma tradução tão certa do japonês.

— Você diz que não acredita em fórmula mágica, mas fica inventando um monte delas.

— Olha, eu tento só fazer umas bebidas gostosas.

— Vai me dizer que esta será a irmã mais nova da Tea for Two?

Apenas assenti, rindo sem graça. Ele colocou a xícara na bancada e, de surpresa, me puxou para perto dele e me deu um beijo. Seus braços se embalaram na minha cintura e eu me pendurei em seu pescoço, sem separar nossos lábios. Eu já estava sentindo alguma coisa por ele havia um tempo, só não fazia ideia de ser correspondida. O mais gostoso desse beijo foi a mistura do sabor dele com o da recém batizada Koi.

Quando nos desvencilhamos, ele sorriu meio sem jeito e soltou:

— Tinha muito tempo que eu queria fazer isto.

— Ainda bem que o fez!

Depois disso, uma sequência de beijos se seguiu, a gente se embolou na minha cama e começou a descobrir um amor novo, totalmente nosso.

 

***

 

Eis que finalmente chegou o Dia dos Namorados e como sempre, o café estava naquela agitação, lotado de reservas e com bastantes pedidos da Tea for Two. A inédita Koi estava também sendo muito pedida, ainda mais porque pus um banner enorme dela na entrada. Mas, o slogan da bebida era simplesmente: Quente e refrescante como um primeiro beijo. Sim, inspirado no que acontecera na minha casa, com o meu agora namorado, que inclusive decidiu ajudar neste dia.

Para nossa surpresa, ou talvez nem tanto, Laura cruzou a porta, acompanhada de um homem sorridente, assim como ela também estava radiante. O casal entrou de mãos dadas e sentou numa das mesas com bancos estofados, no fundo do café. Fiz questão de ir atendê-los e já dava para perceber a energia diferente deles. Pude ouvir brevemente antes de alcançar o campo de visão deles.

— Você fala tanto deste café que tínhamos que vir! - o rapaz disse

— Eu gosto muito daqui, mas mais pela comida… Não tenho lembranças muito boas daqui.

— Vamos criar lembranças boas a partir de agora, como sempre fazemos.

E então, eu cheguei, interrompendo a conversa.

— Boa noite! O que vão querer?

— Ah, oi, Rebeca! - ela disse e se virou para ele - Esta é a dona do café.

— E veio nos atender?

— É um dia bastante movimentado, toda ajuda é bem-vinda.

— Chegou a ler a matéria comigo? - ela questionou

— Mas é claro que eu li. - sorri - Inclusive, tenho uma novidade.

— Vocês estão namorando, não é?

— Como sabe?

— A gente ainda conversa. E eu sabia que ele estava afim de você.

— E pelo visto não sou só eu com novidades, né?

— Viemos comemorar seis meses juntos.

— Ora, meus parabéns!

— Obrigada! Dessa vez é sem fórmula mágica. - e piscou para mim

— O que nos recomenda? - ele questionou

— Bom, seria bem clichê recomendar a Tea for Two. Mas, tenho uma indicação nova, uma bebida refrescante como um novo amor, é a Koi.

— Ah, vamos querer este então.

— Acompanhados de biscoitos de coração. - ela completou

— Ok! - anotei o pedido - Só aguardarem.

Eles agradeceram e eu retornei ao balcão levando o pedido.

Durante todo o tempo em que o casal ficou no café, fiquei observando-os e pude notar bastantes diferenças de todas as outras vezes em que ela esteve aqui. Ela estava tão leve, tão feliz e claro, apaixonada, assim como eu. Eles conversavam e riam e tocavam as mãos de vez em quando por cima da mesa.

Fiquei distraída até que meu namorado veio e me abraçou pelas costas, dizendo:

— Que bom que está dando certo para ela.

— E com a gente também! - sorri - Mesmo que seja só o começo!

— E acreditar que eu e ela passamos um Dia dos Namorados péssimo um ano atrás.

— As coisas mudam, o mundo gira…

— A gente se apaixona pela dona do café mágico.

Não pude evitar de rir.

Uma coisa que aprendi, em todos estes anos observando casais, é que não existe um casal igual ao outro, um amor igual ao outro. Não existe amor perfeito, não existe fórmula mágica para fazer dar certo. Não é um chá ou um amuleto que vai fazer você ficar com alguém, são apenas as duas partes da relação que fazem isto acontecer. O amor sempre nasce e é construído a partir das pessoas que o sentem!

 

***

 

"Os amantes olhando um para o outro no filme que eu desejava quando criança

Tudo era ficção e eu pensei que era uma história de sonho

 

O mesmo sorriso de sempre, a interação de sempre

É chato e não funciona...

 

(...)

 

Não foi coincidência que eu os conheci.

Eu quero acreditar nisso, um amor maravilhoso

 

Oh certos sentimentos vivos com este peito

Eu quero sentir você mais perto

É romântico, ninguém pode parar mais

Você em todo o mundo...

Eu percebi que eu só gosto de você"

 

(Koi - Minori Chihara)

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