terça-feira, 8 de abril de 2014

Capítulo 3 - Treinamento

Eles estavam indo até o destino a pé mesmo. A garota conhecia aquele caminho, era o qual ela fazia todos os dias para ir ao colégio.
–Por que estamos indo pro colégio? - ela questionou
–Vamos treinar lá um pouco. Não acha legal?
–Sabe que é errado entrar na escola a noite.
–A gente vai roubar alguma coisa? Claro que não! Só vamos usar a sala do clube de luta e os objetos deles, depois, é só pôr no lugar.
–Seu doido!
–Nem tanto assim. Só se for por você!
Finalmente chegaram ao Colégio Sakura. Os portões estavam fechados, então eles pularam o muro. Depois correram até a sala do clube de luta, obviamente, trancada. Chikayo teve que dar um jeito de abrir a fechadura.
–Só você para me meter nessas furadas! -ela reclamou
Eles puxaram dois sacos de pancadas para o centro. Hiryu tirou a camisa para treinar, ela não evitou de olhar o belo físico que ele tinha. Era bem no meio-termo, ele não era um magricelo e nem muito musculoso, era apenas definido.
Chikayo também tirou o seu casaquinho, já que dentro da sala era mais abafado. A sua blusa, bem justa e um pouco decotada, mostrou um pouco os seus seios. Da mesma maneira que o garoto ela se localizava em um meio termo, não era uma despeitada e nem uma siliconada, só tinha peitos.
–Não sabia que seus seios eram tão bonitos. - Shinto não segurou o comentário
Ganhou mais um tapa de presente.
–Não é para ficar olhando, idiota! Eu tirei porque estou com calor.
–Ora, eu também. E você ficou olhando para o meu peitoral.
–Não olhei nada!
–Olhou sim, senhorita. Pensa que me engana?
–Cala essa boca e vamos treinar logo.
Utilizaram um pouco cada um dos aparelhos do clube da luta, depois foram para um treino corpo-a-corpo. Eles ficaram brincando de lutinha e se divertindo bastante. Passou-se mais de uma hora assim.
–Tô com fome. - falou Chikayo
–Eu também. Acho que já está bom de treino por hoje. Tem um restaurante aqui perto, quer ir lá?
–Claro!
Eles colocaram as peças de roupa que tiraram e saíram. O restaurante era de comida tradicional japonesa. O nome: Sushi xBar. Era um lugar bem agradável, como eles nunca tinha ido ali após a escola?
Escolheram uma mesa mais reservada dentro do restaurante. Pediram o prato que dava nome ao local: Sushi. Enquanto comiam, conversavam:
–Então, como a Yuki é? Eu só a conheço de vista.
–Também não falo muito com ela, mas eu diria que ela bem moe e kawaii, sabe. - Hiryu riu. Ela continuou - Ela é bem fofinha, sorridente, usa aquelas coisinhas rosinhas e tudo mais.
–E por que você não fala com ela?
–Nós somos bem diferentes, Hiryu-kun. Ela gosta de coisas de menininha. Eu já sou mais madura do que ela.
–Você é uma tsundere, isso sim!
–Tsundere eu? Garoto, não viaja.
–Não tô viajando. Você é totalmente tsundere. Agressiva, explosiva, sempre na defensiva, sempre com um fora na ponta da língua. Só que... Quando observamos melhor podemos ver que não é só aquilo que vemos, de certa forma, você tem um bom coração.
–E você é um garoto popular metido a besta. Pronto falei!
–Não que eu seja popular porque eu quero, me fizeram assim. Deve ser pelo fato que eu também sou meio carente.
–Carente? Como assim?
–Eu raramente vejo os meus pais. Eles são empresários, vivem sempre muito ocupados e nem moram aqui no Japão.
–Por isso que as vezes você me parece tão solitário.
Shinto fez uma careta, meio sem entender e ela explicou:
–Eu te vejo andando com a cabeça baixa, as mãos nos bolsos e um olhar meio perdido. Eu lembro de mim, eu também ando assim de vez em quando.
–Obrigado! - falou sorrindo – Ninguém nunca me olhou ou falou comigo desse jeito. Você é a primeira a me observar e entender.
–Deve ser porque tem pouco tempo que o meu pai foi embora. Ele e minha mãe se separaram tem uns seis meses. Eu e minha irmã sentimos muito a falta dele, afinal, só o vemos em alguns feriados.
–E como se tornou agente? Não pode ter sido do nada.
–Foi por causa do meu pai, ele também é um agente. Ele queria que eu e minha irmã tivéssemos a mesma carreira que ele. Sempre treinamos para isso. Isso causava muitos atritos entre meus pais. Apenas eu consegui seguir. Minha mãe ficou abalada quando soube. Os problemas com meu pai aumentaram e acabaram se separando no fim das contas. Tudo por minha culpa! - e uma única lágrima caiu do seu olho
Hiryu enxugou a lágrima com o dedo e consolou-a:
–Não fique assim. Nada disso é culpa sua. Eles mesmo já brigavam, conforme me disse.
–Acho que eu não tivesse feito o teste de agente, nada disso aconteceria...
–Para com isso! - ele encorajou-a – Seus pais já tinham problema independente de você ser agente ou não. Isso é coisa deles e não sua. Por favor, não fique se culpando.
–Perdoe-me por isso. Eu devo estar parecendo uma imbecil.
–Está tudo bem! E não, não te acho idiota, é você quem pensa isso de mim.
Chikayo não pode evitar gargalhar, fora um comentário engraçado.
–Tô começando a mudar de opinião sobre você.
–Isso é bom, não é?
–Depende de como quiser entender.
Dividiram a conta e cada um pagou uma metade. Shinto foi levar Asai para casa. A garota lhe contou algumas histórias de suas missões para ele. O rapaz as achavam interessantes e ao mesmo tempo engraçadas. O seu encanto por Chikayo aumentava cada vez mais, poder-se-ia dizer que já se tornava um “algo mais”.
Alguns minutos de caminhada e finalmente voltaram a casa de Chikayo. Hora da despedida.
–Obrigada por me trazer até aqui.
–Nos vemos amanhã a noite?
–Claro. E sou eu quem escolhe onde vamos treinar dessa vez. Nada de invadir a escola.
Hiryu riu. E os dois foram surpreendidos pela porta da casa se abrindo, era a mãe Chikayo: Nayumi.
–Chikayo, filha, dá para entrar logo? - e foi ai que ela viu o garoto – É esse o menino que está saindo com você? - e acenou – Entrem por favor!
Não adiantava insistir com Nayumi, então, eles obedeceram o pedido. Hiryu entrou e viu que era uma casa simples, mas ainda assim muito bonita.
–Quem é esse, irmã? Nossa!
–Hiryu, essa é minha irmã: Naoki. Naoki, esse é o Hiryu, um amigo.
O garoto fez a reverência devida.
–E está é minha mãe. - completou Chikayo, o garoto também cumprimentou-a
–Ele é da escola, Chi-chan? - era assim que a irmã chamava-a
–É sim! Ele é de outra turma. - respondeu sorrindo
–Só não faço ideia do que esse garoto viu em você.
–Fique quieta, Naoki. - repreendeu a mãe – Quer tomar um chá, Hiryu-kun?
–Não, obrigado! Na verdade, eu já estava de saída, só vim trazer a Asai-san em casa.
–Ora, então, tudo bem. Espero que volte outro dia. Filha, leve-o no portão.
Hiryu se despediu simpaticamente de Nayumi e Naoki. Chikayo levou-o até o portão.
–Desculpe pela minha mãe e irmã, tem horas que elas complicam a minha vida.
–Quem dera eu tivesse parentes próximos para dizer isso... Então, te vejo amanhã.
–Espera! - ele o puxou e eles ficaram próximos demais – Você... Não vai querer um beijo de despedida?
–Agora que falou, eu quero sim.
E diferente do dia anterior, um beijo consentido. Eles estavam conectados e total sintonia. O beijo não teve pressa para acabar. Quando os lábios se separaram vieram sorrisos das duas partes. Despediram-se com esse beijo, os sorrisos e um aceno. Os outros dois membros da família assistiram a toda a cena. Quando ela adentrou de novo a casa, as duas soltaram comentários que perturbaram bastante Chikayo. A garota subiu para o seu quarto e ficou pensando no acabara de fazer, definitivamente ela não estava em seu estado normal. O coração acelerado e os sorrisos bobos.
“Ai, não! Eu não posso estar com essa queda pelo Hir... Shinto-kun. Olha a merda em que eu me meti! Se o pessoal do colégio descobrir, eu tô lascada.”
Ela não admitia querer se apaixonar pelo garoto pelo simples fato dele ser “o inimigo mortal” dela no colégio. E quem os via na escola os entendiam como inimigos e que não poderiam se relacionar de maneira alguma. Só que agora ela já estava saindo com ele e tudo por conta de manter o seu segredo a salvo.
***
O dia seguinte na escola acabou sendo bem corrido e os dois não conseguiram combinar de ser ver no período da noite. O treinamento surpresa de Chikayo ficou preparado para a sexta-feira, o dia que viria depois. Eles também continuavam tomando cuidado para que ninguém os visse juntos, tanto no colégio quanto fora dela.
As aulas de sexta-feira fecharam aquela semana. Alguns alunos ficavam depois do horário para organizar mais coisas para o festival da escola. A turma de Hiryu Shinto ensaiava a peça de Romeu e Julieta. A garota sortuda que foi escolhida como Julieta estava entusiasmada por contracenar com o garoto mais cobiçado do Colégio Sakura. Foi apenas uma passagem de texto, não bem um ensaio, para que os atores se familiarizassem com ele.
Chikayo também estava na sua sala, em uma reunião, decidindo quais seriam as competições do torneio esportivo que fariam.Quando a reunião acabou, a garota pegou a sua bolsa e foi corredor abaixo, em direção as escadas, para ir para casa. No caminho ficava a sala de Hiryu. A porta se encontrava aberta e ela não evitou de olhar para dentro, diretamente para Shinto, quando passou. Um dos colegas de classe comentou:
–Nossa, que olhar de ódio ela te lançou, Hiryu-kun.
–Isso é normal!
–Sabe de uma coisa?! - acrescentou outro – Acho que todo esse ódio no fundo, mas lá no fundo, é amor!
–Caralho, não viaja, cara! A Asai só não matou ele ainda porque não tem uma arma. Se tivesse, os miolos do Hiryu já estariam explodidos há séculos.
E o resto da sala riu do comentário. O celular do garoto vibrou no bolso, ele puxou e viu a mensagem:
“Eu te vejo mais tarde?”
“Claro! Te pego na sua casa?”
“Sim. Só espero que minha mãe não peça para você entrar. haha”
“Hahaha! Às 20hrs está bom?”
“Ótimo. Até mais tarde, Hiryu-kun. Nyan~ =3”
O garoto sorriu ao término da leitura da última mensagem.
Chikayo ligou para um dos seus amigos do mundo secreto dos agentes, avisando que iria treinar no local que o tal construiu e disse que levaria uma outra pessoa. Alguns ex-agentes, ao se aposentarem, constroem centro de treinamento para outros praticarem sempre que precisar.
A garota chegou em casa e fez os seus deveres de casa, odiava deixá-los para cima da hora. Quando se aproximava a hora de Hiryu chegar, se banhou e colocou uma roupa confortável. De repente a campainha tocou. Sua mãe chamou-a dizendo que era ele. Chikayo se despediu da mãe e da irmã e saiu de casa depressa. O garoto a aguardava no portão.
–Boa noite, Hiryu-kun! Demorei?
–Não! - respondeu sorrindo – Qual é a sua surpresa para mim hoje?
–É surpresa, esqueceu? Só vai saber quando chegar lá, criatura.
Então eles pegavam o transporte para o tal lugar, que ficava a uma distância razoável da casa da menina. Estavam em um lugar mais afastado da cidade, entre umas ruelas bem estreitas. Então, entraram num local que era apenas uma porta normal e pequena, onde havia uma placa em cima escrita: Errol "Pieces Of Eight" Agent Training Center.
–Que lugar é esse?
–Espera! Você vai ver!
Era uma sala pequena, com um balcão e um cara sentado do lado de dentro dele. A garota falou com ele:
–Ayumu, tudo bem?
–Chikayo-san, tudo ótimo! O que te traz aqui hoje?
–Vim treinar um com um amigo.
–Esse rapaz, suponho. - fez a reverência – Boa noite, sou o Ayumu.
–Hiryu. É um prazer, senhor!
–E como estão vocês, Chikayo?
–Estamos bem, apesar da pensão do meu pai ser pouca. Meu dinheiro de agente ajuda bastante.
–A separação dos seus pais pegou todos de surpresa.
–Pois é! A mim também. Está muito cheio hoje?
–O mesmo de sempre. Vão lá! Divirtam-se!
Eles descerem pela escadinha que tinha no outro canto da sala, que era bem estreita. No andar de baixo, deram de cara com um enorme salão e com uma quantidade razoável de pessoas.
Havia dois espaços. O primeiro, onde eles estavam, era uma espécie de salão de tiro, com várias baias e alvo para treinamento de tiros. Do outro lado, separado por uma parede era uma campo de paintball. Uma área de simulação de um combate real.
Hiryu estranhou que muito cumprimentaram Chikayo. E tinham intimidade com ela. Parecia que não vinha ali poucas vezes. O garoto foi devidamente apresentado apenas como um amigo de Asai. Ninguém indagou nada sobre como ele foi parar ali, pensaram que ele fosse uma agente como a sua companheira. Tecnicamente, naquela situação, ele era isso mesmo.
Havia um outro local em que se pegavam as armas, as de verdade ou as de mentira, e, também, os equipamento para utilizar o espaço de paintball.
A menina foi até o tal balcão, pediu duas pistolas de calibre 40 mm, óculos e fones protetores, dois pentes de bala.
–O que vamos fazer com isso? - ele questionou
–Não é óbvio? Nós vamos meter bala, criatura!
–Aprender a atirar que você quer dizer?
–É... Aprender. Acho mais divertido falar do outro jeito.
Dirigiram-se até duas baias, uma do lado da outra. A garota colocou um pistola e um pente em uma e entregou a seguinte a Hiryu.
–Você coloca o pente de bala assim. - e fez o movimento, encaixando o pente na parte de baixo da arma - Ouviu o "tec"?
–Sim!
–Então está certo: Carregada! Cada pente tem dezesseis balas. Agora um noção básica sobre onde acertar o alvo. Vai depender muito da situação. Se você quiser matá-lo, prefira áreas vitais, como cabeça e tronco, de preferência o coração. Se apenas quiser pará-lo, atire nos membros, tanto inferiores quando superiores. Entendeu?
–Entendi, Senhorita Asai. - ele falou em tom irônico
–Para, garoto! Eu tô falando sério! Agora você segura assim: Ou com as duas mãos segurando o cabo da arma, um dedo no gatilho. Ou com uma mão só, no caso você tiraria a mão que fica por cima. Vamos fazer oito de cada jeito. Tudo bem?
–Tranquilo!
–Não esqueça de engatilhar a arma, só precisa uma vez, já que ela é semi-automática. Só vai disparar quando puxar o gatilho sem precisar "reengatilhar".
E foram para a sessão de tiros. Chikayo já sabia muito bem manusear aquilo. Todos os seus tiros foram certeiros. Já Hiryu teve algumas dificuldades em mirar, enquanto Asai deu todos os tiros, ele ainda estava ajustando para não errar.

Capítulo 2 - Agente, mas como assim?

O garoto saiu mais cedo de casa e foi ao destino pegando um metrô. Ele chegou um pouco mais cedo do que o horário combinado. Ficou em frente ao café esperando.
Chikayo tomou uma ducha rápida, colocou uma roupa simples e confortável. Saiu de casa e foi caminhando mesmo, afinal, ficava a apenas duas quadras dali. Ela estava um pouco nervosa no percurso. Estava para revelar uma coisa crucial e que traria um trauma a sua vida. Mas ou era um saber de sua vida secreta ou toda a escola chamá-la de uma coisa que ela não é.
Seu chefe Shouta nem poderia imaginar que ela faria aquilo, senão ela estaria completamente frita...E com manteiga.
Quando avistou o letreiro do café também viu Hiryu. Ele trajava uma camiseta em gola V azul, com uma jaqueta e calça preta. Ele sorriu quando percebeu a garota se aproximar.
–Boa noite, Shinto-kun! - Ela falou educadamente – Eu demorei?
–Boa noite. Não! São 20hrs em ponto agora, eu que cheguei cedo mesmo. Vamos entrar?
–Claro!
Eles escolheram uma mesa ao lado da janela e fizeram os seus pedidos. Chikayo pediu um pedaço de torta de morango e chocolate quente. Hiryu pediu um pedaço de torta de chocolate e um cappuccino. Não demorou muito para que a garçonete trouxesse os pedidos. Então, saboreando a comida, começaram a conversar:
–Então, eu vim aqui para saber o seu segredo.
–Eu sei! É que... Bem... Acho que eu não posso ficar te enrolando. Eu fui naquela casa ontem porque eu fui pegar algumas informações.
–Pegar informações?
–Sim, eu sou uma agente do governo. Estou em meio a mais um caso relacionado a Ryouta Matsumura.
–Aquele corrupto filho da puta! O que ele está aprontando dessa vez?
–Ela quer se vingar dos adversários políticos. Não temos certeza do que ele vai fazer ainda.
–E por que você está metida nessa história?
–Porque fui eu quem descobriu os desvios dele da outra vez.
–Ah sim!
–Você não estranha eu ser uma agente não, criatura?!
–Não! Eu só nunca pensei que você fosse uma.
–Mas acredita em mim? Se bem que ainda assim é uma história bem doida.
–Não acho que mentiria sobre algo tão sério assim. Sinceramente, a história que eu inventei parecia bem mais maluca.
–E vai manter o segredo não é?
–Sim! Mas eu quero saber mais desse caso do Matsumura. Se não notou, você me contou metade da história apenas.
–Bem, um dos planos que estavam supondo era que ele raptaria os filhos dos inimigos e pediria resgates absurdos, desde altas quantias até alguma chantagem.
–E o que descobriu na casa dele ontem?
–Que é esse mesmo o plano dele. E em uma das fichas havia um “Primeiro” escrito em vermelho. É a Yuki Oouchi da minha classe. Agora eu devo ficar de olho nela na escola para o caso dela ser atacada poder protegê-la.
–Entendi. Outra pergunta: Quem é Shouta?
–Ele é o meu chefe! E se souber que eu te revelei minha identidade, ele me mata.
–Não seja exagerada!
–Ah, desculpa! Ou era ser uma agente correndo o risco de ser morta pelo chefe ou teria fama de piranha na escola! E sabe o que é engraçado? Os dois seriam por sua causa!
–Você que fica dando mole e deixando os outros ouvirem sua conversa no telefone.
–Como adivinharia que estava por perto? Alias, onde é que você estava para ter ouvido a conversa?
–Na sala de depósito!
–Fazendo o quê lá, doença?
–Eu só queria ficar sozinho.
–Lugar estranho para ficar sozinho não acha?
–Acredite! Aquele é o último lugar que alguém pensaria em me procurar.
–Também é o último lugar onde eu pensaria que alguém poderia escutar conversa alheia.
Ambos riram. Depois, Chikayo disse séria:
–Você vai mesmo guardar meu segredo, Shinto-kun?
–Vou sim... Contudo, com duas condições...
Asai soltou um grunhido baixo de “lá vem” e indagou:
–Quais?
–Eu vou te ajudar nessa missão. Vão ser duas babás da Yuki na escola.
–Bem, isso não é todo ruim! A outra?
–Você vai sair comigo!
–Como é que é?!
–Isso mesmo: Nós vamos sair!
–Você só pode estar de sacanagem com a minha cara, criatura!
–Ou isso ou eu espalho que você é puta para a escola toda.
Ela fez uma careta. Já tinha se metido naquela furada, não tinha como sair, só restava aceitar as condições.
–Tudo bem! Mas sem que ninguém da escola saiba.
–Você sabe que não vamos conseguir esconder por muito tempo. Ainda mais depois daquilo hoje na escola.
–Culpa sua também! - ela suspirou – Vamos tentar esconder o máximo de tempo que der então. Estamos acertados?
–Sim, Asai-san.
Até aquela altura eles já tinham acabado de comer. Pediram a conta para a garçonete. Cada um pagou o que comera. Então eles saíram do café.
–Então, Shinto-kun, eu já vou. Nos vemos na escola amanhã.
–Eu te levo até em casa.
–Não precisa disso.
–Eu faço questão. E pode me chamar de Hiryu.
Ela nem quis insistir, aprendera rápido que não adiantava fazer isso com ele. Apenas aceitou a sua companhia até a porta de casa. Eles não trocaram uma palavra durante o caminho.
–Eu moro aqui! - comentou quando chegaram
–Bonita a sua casa.
–Obrigada! Não deve ser tão boa quanto a sua, mas ainda assim é um lar. - falou sorrindo – Te vejo amanhã na escola.
–Espera! - chamou-a pegando em seu braço – Não vai me dar um beijo de despedida?
–O quê?!
–Não se esqueça que estamos saindo.
–Isso já é demais! Me poupe!
–Pode ser só um selinho. - falou com um olhar de mendigo pedindo esmola – Por favor!
–A minha mãe pode ver!
–Se parar de reclamar, gritar e der a porra do selinho logo, ela não vai.
–Nesse fato, tem razão. - concordou rindo
Chikayo observou o belo rosto de Hiryu, focando primeiro nos olhos e depois na boca. Então ela se aproximou dele e tocou em seus lábios, porém quando ela ia se afastar, Hiryu a pegou e obrigou o beijo a continuar. As bocas se entrelaçaram por um tempo e seus corações aceleraram. Ao se separarem, o garoto tomou um belo tapa no rosto. Chikayo falou:
–Você disse que era só um selinho!
–Desculpe, eu não resisti.
–Debochado! - olhou para ele com raiva, abriu o portão – Até amanhã, Hiryu-kun.
–Até!
Ela entrou e ele pegou o metrô de volta para a sua casa.
Antes de dormir, Shinto ficou pensando em tudo o que Chikayo lhe falara. Foi uma grande surpresa, sem dúvidas! Mas era menos pior do que ele pensara. Na verdade, o fato de ter descoberto que ela era uma agente fez com que o encanto que já tinha por ela aumentasse ainda mais, junto também com as outras coisas. Era sim uma garota totalmente diferente das outras. Agora que se aproximara dela, não a deixaria escapar.
Chikayo também pensava em tudo o que aconteceu. Poderia até ser sido bem pior, mas agora o tal vai ficar na sua cola chantageando-a o tempo inteiro. Ele já a irrita só por existir, imagine falando com ela... Vai acontecer o apocalipse no mínimo!
Era culpa dela, não intencionalmente. Agora tem que encarar as consequências.
***
No dia seguinte, na escola, ninguém conseguia dar atenção as aulas direito, pelas preocupações com o festival da escola. Todos queriam se focar naquilo, já que a reputação da escola e a vinda de novos alunos no próximo ano letivo dependia disso. Os professores entendiam essa preocupação dos alunos, então davam uma pequena aliviada em deveres de casa, mas não diminuíam o ritmo das aulas, aquele tempo tem que ser aproveitado ao máximo.
A turma de Hiryu Shinto decidiu fazer uma peça de teatro. O garoto acabou pegando o papel principal da peça por pura imposição da turma. Ele não se considerava um bom ator para aquilo, mas os colegas de classe pediram, ele atendeu. Eles já estavam na metade da semana, então era uma semana e meia para o festival. Três pessoas da sala se pronunciaram para escrevê-la em apenas dois dias. Os ensaios seriam na semana seguinte. Por enquanto Shinto poderia ficar mais relaxado.
O sinal para o almoço tocou, como em todos os dias. Ele comeu rapidamente na sala e foi para a sala de depósito, de novo. Ele estava em mais uma crise existencial e queria ficar sozinho.
Chikayo aproveitava a diversão com as amigas no pátio e continuava cumprindo a sua missão de observar Yuki. Mas ela tinha coisas a tratar com o seu “parceiro”, onde ele estaria? “Aquele é o último lugar que alguém pensaria em me procurar”, se lembrou ela. Sim, o depósito, no segundo andar. Desconversou com as amigas e saiu. Subiu para o segundo andar e desceu até o fim do corredor. Nem bateu na porta, só abriu.
Hiryu estava encostado na parede ali do lado e riu quando a viu, depois declarou:
–Ora, aprendeu a me achar! Meus parabéns!
–Não seja tão engraçado! Vim aqui para te perguntar uma coisa séria.
–E o que é?
Ela fechou a porta e se sentou defronte dele.
–Você sabe técnicas básicas de defesa pessoal ou de alguma luta?
–Olha, eu fiz um pouco de karatê quando era criança. Vira e mexe eu dou umas praticadas só para não enferrujar.
–Ótimo! Sabe manusear armas?
–Obviamente não. Se eu soubesse, já tinha dado um teco na testa de muita gente desse colégio.
–Eu sei e nunca acertei um tiro na sua cabeça! Mas vontade não me falta.
–Então você tem um bom coração ou será que não?
–Seguinte, já que a gente vai ter que se encontrar e tudo mais...
–Ora, mas que pressa é essa! Gostou do beijo ontem foi?
–Cala essa boca e me escuta! Por que não fazemos alguns desses encontros como treinos também? Eu conheço academias de tiro e de luta, podemos dar uma passadinha por lá.
–Acho uma ideia legal. Desde que eu possa passar um tempo com você, por mim tranquilo.
–Do que você tá falando, criatura?!
–Não notou que eu tenho uma quedinha por você?
–Azar o seu! Eu não sou flor que se cheire e sabe disso. Outra coisa: Preciso do seu número de celular?
–Para?
–Ora, para não precisar vir aqui atrapalhar a solidão da pessoa bipolar que você é. E também não ser necessário te ver na escola para podermos nos falar. Afinal, você é meu parceiro de missão agora, não é?
–Ah é! Anota ai então! - E ditou, pegou o seu celular em seguida – Quero o seu também.
Asai deu o seu número para ele. Depois, ela deixou o garoto sozinho de novo.
Chegara o período das aulas da tarde. Os alunos realmente não estavam muito animados naquele dia. Chikayo tentava prestar atenção na aula, até que seu celular deu uma leve mexida na mesa. Era uma mensagem, ela sabia. A curiosidade fez que ela abrisse, a mensagem era de Hiryu e dizia assim:
“Quer sair comigo hoje a noite?”
“Eu tenho opção. Aonde iremos?” - Ela respondeu
“Encontre-me na frente do café que nem ontem. Vai ser surpresa!”
“Tudo bem, senhor misterioso. Que horas então?”
“Ás 19hrs!”
“Combinado então.”
E ela bloqueou o celular para que o professor não chamasse a sua atenção. Uma das amigas indagou quem era, mas a garota mentiu falando que era sua irmã.
Algumas horas se passaram e o sinal que indicava o final das aulas daquele dia finalmente tocou. Os alunos estavam saindo e enchendo a rua com as cores do seus uniformes. Chikayo estava descendo a rua em companhia das amigas. Hiryu passou correndo por elas, virou-se de frente e deu um sorriso para a garota e seguiu seu caminho. Asai respondeu sorrindo também. Uma das amigas comentou:
–Você tá saindo com o Shinto-kun?
–Eu? Não!
–Não minta.
–Não estou mentindo.
–A escola inteira viu vocês dois ontem.
–Ele tava de implicância comigo, como sempre.
–E essa troca de sorrisos agora?
–Já ouviu falar de uma coisa chamada educação? E quem disse que foi necessariamente para mim?
–Nossa, Chikayo, você já vem toda agressiva. A gente só perguntou.
–Desculpa, gente! Mas não sei o que vocês tem na cabeça para achar que eu combino com esse garoto.
A amigas simplesmente riram.
Chikayo recebeu mais informações de Shouta acerca do andamento do Caso Matsumura, que já havia outros agentes observando os outros jovens. E reforçou que ela deveria ter estar atenta com Yuki Oouchi.
Estava chegando perto da hora do seu encontro com Hiryu. Ela tinha que ir, apesar disso perturbá-la um pouco. Tomou um banho e simplesmente avisou a mãe que iria sair.
–Você saiu mais ou menos essa hora ontem?
–Sai sim, mãe!
–E o que vai fazer de novo na rua?
–Coisas, mãe! Não quero falar.
–É algum namorado? Se for isso, tudo bem. Não aguento esse jeito que você trata os garotos.
–Ele não é namorado, mãe!
–Então é um menino! - e riu – Vai filha! Pode ir!
A menina não evitou de gargalhar da reação da mãe. Todos da família queriam que ela arranjasse um namorado, mas não era da vontade dela, simples assim.
Shinto já esperava por ela como no dia anterior.
–Chikayo-san, tudo bem?
–Sim, Hiryu-kun. Então, aonde vamos?
–É surpresa esqueceu?
–Não!
–Venha. Eu te guio. - falou rindo
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