quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Mirror Magic



"Você consegue ser diferente?
Se olhando no espelho, todo dia
e sempre ver a mesma expressão cansada
Cansada da mesmice
Do mundo, das pessoas, das coisas
Tudo é tão vazio
que este vazio se reflete no seu espelho"

(Mirror Magic - Cammy, As Super Agentes)

Foi apenas mais um dia normal, voltei do trabalho e ia tomar um banho para finalmente assistir o season finale da minha série favorita.
Separei o meu pijama e me dirigi ao banheiro. Soltei os cabelos, olhando o meu reflexo no espelho. Os cabelos caíram sob meus ombros e vi minha cabeça sacudir no espelho, mas... Eu não tinha feito isso. Fechei os olhos com força, meio incrédula e ouvi um riso.
-Você não está maluca, querida. - tinha sido a "eu do espelho"
-Quê?
-Surpresa? Pois fique mesmo.
-Eu não estou surpresa, tô assustada mesmo. Meu reflexo falando comigo.
-E daí? A coisa mais normal do mundo. Quem nunca conversou com seu reflexo no espelho?
-Não com ele respondendo.
-Nitrato de prata é só para iludir vocês, existe mesmo um mundo dos reflexos, onde cada pessoa tem sua cópia dentro do nosso mundo. - outro riso
-E por que resolveu falar justo hoje? - no dia do meu season finale, pensei
-Tédio!
Ficou um silêncio e nos olhamos, foi muito constrangedor. Então, resolvi puxar assunto:
-Como é ai no mundo "através do espelho"?
-Normal. Igual o mundo fora do espelho. Só que estamos sempre correndo atrás de vocês, porque sabe-se lá aonde você vão a um banheiro com espelho e precisam de um reflexo.
-Eu não consigo imaginar como é.
-Sabe sim. Lembra quando correu atrás do seu ex? Aquele idiota completo! É tipo isso.
Fiquei sem resposta. Não precisava não é, meu reflexo?
-Só estou sendo realista. - ela continuou - Ele não te merecia. Ainda bem que largou ele.
-Já que falamos de ex... Você tem? Reflexos se relacionam?
-Somos pessoas como vocês. A gente só vive num outro plano, que é paralelo. E temos algumas janelas, que nada mais são que... - e desenhou no ar - espelhos.
-Interessante. - comentei - Então sua vida deve ser igual a minha, já que você é meu reflexo.
-Nem tanto assim. A começar que sua direita é minha esquerda e minha esquerda é sua direita. Tenho um trabalho legal, um bom peguete, que é um gato. Uma casa legal, parecida com a sua. Acho que minha vida é boa!
-Pelo menos parece que as coisas estão correndo bem para uma de nós duas pelo menos. As coisas no meu trabalho estão merda. Meu chefe resolveu dobrar as metas. Estamos correndo que nem loucos.
-Eu sei. Não se que esqueça que eu vejo sua vida todinha daqui.
-Desculpe.
-Não há razão para se desculpar. Você não sabe como é a vida de um reflexo.
-Mesmo assim, sinto-me esquisita de pensar que sabe muito sobre mim. Já tive altos papos contigo.
-Espelhos são bons para epifanias e nós, reflexos, adoramos estes momentos. São um dos mais interessantes para nós. - ela fez uma careta curiosa - Quer saber de mais uma coisa do mundo através do espelho?
-Sim. - sorri
-Chegue mais perto, porque isso é confidencial. - Fiz conforme ela disse e ela prosseguiu - Alguns espelhos são portais entre os mundos e nós, reflexos, podemos atravessar e fazer o que quiser com nossos "originais".
Os braços dela saíram do vidro e me agarraram, tentando me puxar para dentro do espelho. Forcei para trás e consegui me desvencilhar, mas trazendo-a junto. E só então percebi que ela estava me manipulando para fazer isto, além da outra surpresa: uma faca, que ela usou para tentar me ferir. Começamos uma luta naquele banheiro que era uma pequeno corredor e acabamos chegando até a sala nessas condições. Não entendia os reais motivos dela e não tive coragem de perguntar, porém a própria tratou de se explicar, demonstrando sua raiva.
-Não aguento mais apenas ficar te seguindo e só olhando do outro lado. Você não sabe o que está fazendo com a sua vida, você faz tudo errado. Eu quem devia ser a original e fazer coisas maravilhosas e não servir apenas como o seu outro lado. Quero uma vida dessa para mim e o único jeito é matando você!
E a luta continuou. Ela conseguiu me machucar algumas vezes e eu já percebia uma pequena perda de sangue dos cortes, mesmo que fossem só superficiais. Era um caso de vida ou morte, notei isto logo, só pelas ações e o modo desesperado da outra. Tinha que fazer alguma coisa e rápido. Minha vida estava em jogo!
Nos atracamos novamente e eu consegui empurrá-la para longe, afastando-a e derrubando-a por tempo suficiente para que pudesse correr a cozinha e me armar. Peguei uma faca e escondi um grafo atrás, nas costas, segurando com a outra, conforme o plano que pensei na hora.
-Estou armada agora também. - exibi a faca, provocando-a
-Ora sua... - ela esbravejou, vindo para cima
Retirei a mão escondida com o garfo e cravei no pescoço dela. Com a imensa dor repentina, ela berrou, largando sua uma forma de se defender. E eu fui certeira. Peguei a faca e cravei no peito dela. Só que, não houve sangue, apenas uma fumaça preta saiu, dos dois ferimentos que abri nela. Não falou mais nada, perdeu a cor, caindo no carpete da sala. Logo seu corpo de desfez, também numa fumaça preta, sem deixar vestígio algum, assim como a faca que munia.
Corri para o banheiro e parei diante do espelho, mas, como um vampiro, não havia reflexo algum. Foi só ai que caiu a ficha de que aquilo ocorrerá de verdade. Pensei ser um pesadelo, mas não.
Acho que nunca acreditamos quando algo surreal e repentino nos acontece. Demora a cair a ficha, aquilo tornar-se realmente real.
Decidi conferir outra coisa. Peguei o celular e abri a câmera frontal. E sim, consegui me ver. Bem, o celular seria o meu espelho a partir de agora. Ainda bem! Eu não quero mais contato com nenhum reflexo maluco e assassino.
E quanto ao season finale da série? Bem, acho que tive uma noite season finale demais. Então, decidi deixar para o dia seguinte, mesmo que corresse o risco de tomar spoiler.

O Chapéu



Há uma teoria que já ouvi e que acredito veemente ser verdade: Os objetos carregam energias de quem os usa, de onde ficar e dos momentos.
E eu tenho este poder, de ler as leituras destes objetos e caminhar por dentro de suas memórias, que ao ver dos de fora dura apenas um segundo. Para mim, parecem ser horas algumas vezes.
E quantas histórias não conheci através destas minhas viagens temporais energéticas objectuais? Tá acabei de inventar este termo para parecer bonito, mas em suma, se eu encostar em algum objeto "novo" eu posso acessar as memórias dele. Sim, como um HD imutável mesmo.
Quando mais nova, não tinha muito controle sobre meu poder. Imagine o quão perturbador não seria encostar em algo e ter um flash de várias passagens de anos e até épocas diferentes. Mas, com os anos, aprendi a controlar e as memórias só vem se eu quiser vê-las.
Por conta do meu poder, eu trabalho como arqueóloga e também faço uns freelancers analisando objetos de museus. Imagine quanto da história do mundo não vi só de pegar nestes objetos antigos.
Porém, meu poder é um segredo só meu. Acabo misturando meus conhecimentos científicos e meus poderes para construir histórias verossímeis para os objetos que encontra e analiso, porque ninguém acreditaria em mim se citasse detalhes tão ricos como os vejo nas minhas viagens.
***
Estava trabalhando num museu na minha cidade natal, quando meu telefone toca e recebo a notícia do falecimento de uma tia. Ela já estava doente havia um tempo, mas a gente sempre tem esperanças de que a pessoa vai conseguir se curar, porém isto não ocorreu.
O enterro seria no dia seguinte e informei no trabalho que precisaria sair um pouco mais cedo por conta disso. Não ocorreu nenhum problema quanto a isso.
Depois do sepultamento, fomos comer todos da família juntos, na casa desta tia.
Conversa vai, conversa vem, a gente acabou se distraindo e não viram que meu tio, marido da falecida, se recolheu para dentro. Ou só queriam deixá-lo sozinho, sabiam que ele precisava disso.
Mas, eu senti algo me puxando. Não sabia exatamente o quê e eu também queria ir ao banheiro.
No caminho de volta, passei pelo quarto e, pela porta aberta, vi meu tio mexendo em algumas roupas do armário, tirando-as. A curiosidade me fez entrar e perguntar:
-O que está fazendo, tio?
-Separando umas roupas dela, para doar. E, queria lembrar um pouco dela também.
Sorri, E fiquei aqui com ele, enquanto ele ia puxando as peças e citava algumas ocasiões em que ela foi usada. Uma sessão de nostalgia e histórias certamente.
Eis que o resto da família notou minha falta e foi a minha procura. Logo todos se juntaram e continuamos ouvindo as histórias daquelas roupas. Todo mundo tinha uma pequena amostra do meu poder, mas através das palavras do meu tio.
Podia ver que tinha algo brilhando, leve, dentro do armário. Eu sentia que algo emanava dali, junto com aquela luz. E estava me coçando de curiosidade para descobrir o que era, não é qualquer objeto que é assim não,
E parece que ele leu meus pensamentos. Abrindo um sorriso, ele pegou e era um chapéu de praia. Com uma cor bege, parecida com palha, com alguns tons de verde misturados com a outra e uma fita fazendo um laço em cima.
-Esse chapéu... - começo meu tio - Era o favorito dela! Sempre usava quando íamos a praia, outra coisa que ela adorava.
Tinha realmente algo especial naquele objeto. Era ele que estava me atraindo já lá de fora.
-Eu posso ver, tio?
-Claro! - respondeu e entregou-me
Coloquei-o, me olhando no espelho que tinha ali por perto e permiti que as memórias dele fossem até mim. E assim, começou mais uma das longas viagens que faço dentro dessas linhas temporais.
Visitei todas as memórias deste chapéu, maioria delas envolvia realmente sol, mar e calor. Porém, especialmente duas me chamaram com mais força. A primeira, quando o chapéu foi comprado; e a última, quando foi usado pela última vez por minha tia.
Era uma feira de uma cidade litorânea, provavelmente a área turística também. E lá estava o chapéu, pendurado em meio a tantos outros, em uma tenda, como tantas que haviam ali. *
Quando faço uma viagem, eu sou apenas mera observadora do que aconteceu. O objeto simplesmente me apresenta sua história.
E ao longe vi meus tios vindo. Conversando, rindo, observando descompromissadamente as barracas da feira. Não parece ser uma memória tão distante, dez anos no máximo. Eis que passam pelos chapéus e minha tia tem vontade de comprar um.
Ela conversa com a vendedora e vai experimentando chapéus dos mais variados tipos e cores, enquanto o que me trouxe até aqui continua no seu canto, pendurado.
Minha tia não parecia gostar muito do que a dona da tenda indicava e estava desanimando de levar alguma coisa. E meu tio percebia isso.
-Tem mais alguns trás da senhora. - falou a vendedora
Ela se virou e bateu o olho direto no chapéu bege e verde. Foi amor à primeira vista, acontece muito isto com objetos. Experimentou e só conseguiu sorrir.
-É este! - disse - Quanto é?
A vendedora respondeu, eles pagaram, agradecendo e minha tia saiu já usando o chapéu na cabeça.
Depois disso passei por longas memórias desta mesma viagem a praia deles e muitas outras.
E nesse meio tempo, ela acabou adoecendo e por conta do tratamento mal podia sair de casa. E foi ai que cheguei a última memória: da última vez em que ela foi à praia.
Eles foram de carro até um praia próxima, ela já estava bem debilitada por conta do tratamento.
Era uma praia com calçadão e vários quiosques pela orla. Uma areia clara, uma calçada em preto e branco, um céu ficando alaranjado. Acabou indo na cadeira de rodas e só pode ir a areia porque foi carregada. Foram ela, o marido e os dois filhos, meus primos a propósito. Estenderam um pano grande na areia e colocaram sentada, com apoio nas costas.
Eles assistiram ao pôr-do-sol e minha tia, em momento nenhum tirou aquele chapéu. Fizeram um piquenique.
Ficaram até pouco depois de escurecer, já que pelas conversas ela devia ir logo para o hospital. Esta memória é de algumas semanas atrás e infelizmente, minha tia não pode ver o mar de novo, como ela tinha dito que queria.
-Assim que sair do hospital virei aqui e tomarei um banho de mar. - e sorriu, do jeito mais lindo que só ela tinha
E acabou ali. Retornei a realidade. Para mim, pareceram algumas horas, mas para os outras em volta era apenas um segundo.
Não consegui e uma lágrima correu do meu rosto. Ninguém entendeu nada, só meu tio que falou, em seguida:
-Leva o chapéu de presente para você.
-Não precisa. - olhei para ele - Ele tem muitas histórias. Guarde e quando quiser lembrar dela é só pegá-lo.

Hachi



Dia 17 de Junho de 2017, aniversário de oito anos de namoro de um certo casal.
Resolveram comemorar este aniversário de uma maneira bem simples, já que nenhum dos dois estava com vontade de sair: jantar em casa. Eles trocaram presentes singelos e desfrutam da companhia um do outro. Na sequência do jantar, assistiram alguns episódios de uma série.
Quando ela foi pegar mais refrigerante na cozinha, encontrou uma carta sob a mesa. Ela encheu os copos e voltou com eles  e a carta.
— Nem sabia que tinha escrito uma carta também, amor. Não precisa.
— Não escrevi. - disse ele.
— Quem mandou então?
— Não sei.
— Acende a luz para a gente ler.
Ele fez conforme ela falou e foi aí que eles viram o remetente: Tempo.
— Isso é alguma brincadeira? - ele reclamou.
— Só vamos saber se lermos.
Abriu o envelope, tirou a folha que havia dentro e começou a ler, em voz alta:


"Olá querido casal,

Como vai a comemoração de mais um aniversário de namoro? Espero que bem.
E sim, vocês leram certo. Sou eu, o Tempo quem lhes enviou está carta.
Sempre envio cartas aos casais que alcançam os oito anos juntos. Porque este número carrega um valor especial, que lembra muito de mim.
Um 8 deitado lembra o símbolo de infinito. E é isso o que eu sou: infinito. Não há começo ou fim para mim, apenas passagens, marcos, momentos e lembranças. Vejo sempre alegria, tristeza, amor, ódio. Vejo vidas indo e vindo, começando e terminando. Eu só passo, mas também observo tudo.
E sei que oito anos passaram para vocês. Longos, mas importantes anos. Ainda me lembro bem dos dois, alunos de ensino médio, com rolos e mais rolos que não vou ficar recordando porque aí somaríamos quase 10 anos. (Aliás, gravem aquele vídeo sobre esta história de vocês, porque como é chato ver que sempre contam para os amigos. Vídeo é praticidade.)
Enfim, acho que eu sou muito importante para qualquer relacionamento. Quanto mais há de mim, melhor. E oito anos não são qualquer coisa. São oito anos de convivência, de amizade, de companheirismo, de amor, de bom ou mal humor e de atuar sogra - para ambos.
Quantas coisas já não viveram juntos? Quantas histórias já não têm para contar? As risadas, as brigas (elas existem, admitam), os passeios, ou só as tardes entediantes de domingo, recheadas com pipoca, brigadeiro e algum filme.
O amor de vocês é infinito, igual a mim. Aproveitem todos os outros momentos juntos. Eles vão duram, com certeza.
Não me arrependo de nada que fiz com vocês, eu os transformei em quem são hoje. Eu faço isso, eu passo e transformo, desejando que sempre seja para melhor. O melhor remédio para muitas coisas é o tempo, seja para esquecer ou para fortalecer. Especialmente o amor!
Despeço-me aqui, lhes desejando o melhor e o maior amor do mundo. Vocês merecem!


Com carinho,

Tempo."



Após o final da leitura, o casal se sentiu feliz e entendeu o significado de tudo o que já passaram, fosse bom ou ruim. Foram estas coisas que os fizeram chegar onde estão e serem quem são hoje. Inclusive, a razão de estarem juntos.
Decidiram guardar aquela carta tão única e especial. Porque o tempo é algo precioso.
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