sexta-feira, 22 de abril de 2022

Capítulo 34 - Colocando a cara no sol

 

Enquanto dirigia de volta, fiquei pensando no que mais poderia fazer para superar este acontecimento. Já sabia que pagaria mais caro pela terapia no final do mês, mas, o que mais? Queria algo que calasse logo a boca de todas aquelas pessoas que estavam me xingando, que aquietasse a boca dos vizinhos e dos familiares mais tradicionais. Não há nada de errado no que eu faço no blog. Sou uma mulher adulta e livre - também responsável - para fazer qualquer coisa, desde que não prejudique outra pessoa. 

Realmente só mantive a identidade anônima por um medo besta, um que tenho desde que era adolescente e quando ainda namorava o Pedro. Uma insegurança, um julgamento infinito, sempre com expectativas altas.

Ainda lembro o quanto eu me esforcei para ser a filha que a minha mãe pediu a bendita entidade - seja lá que nome tiver - que nos rege ou protege lá de cima. Porém, o meu comportamento nunca foi o de uma menina “santinha”, ainda mais quando cresci um pouco mais e meu corpo foi tomando sua forma e suas curvas. Sabia bem de tudo, mas queria manter as aparências. Aliás, acho que é isto que me prende até hoje: mantém essas benditas, justamente para satisfazer algo externo.

O quanto não fiquei mais livre quando terminei com meu ex?! E o quanto não fiquei mais livre quando comecei a escrever sobre os temas que gostava, no blog de um tema que eu tanto gostava?! Foram coisas que eu levei muitos anos para perceber e finalmente viver assim, não queria jogar fora. Por isso, eu precisava reverter aquela situação a meu favor. Só que, de que maneira?

A música tocava baixinho no carro, apenas como um fundo para não ficar no completo silêncio, enquanto eu pensava numa talvez solução rápida.

Confesso que ainda estou baqueada com tudo, se dissesse que não, estaria mentindo. Contudo, o meu choro já havia secado e estava até um pouco mais tranquila, me encontrando no ponto da aceitação de que era aquilo mesmo e eu que lutasse para resolver agora.

E uma ideia me veio! Se fosse desenho animado, com certeza teria aparecido uma lâmpada acima da minha cabeça. 

Era algo bem simples, apenas gravar um vídeo mostrando finalmente meu rosto e falando com os meus fãs. Ou seja, um vídeo revelando a minha identidade de verdade e para quem quisesse ver! Porém, como o faria? Só tinha uma câmera de celular e eu não queria que tivesse uma cara de improvisado. E então, eu lembrei dele, a pessoa que também é vítima de toda essa história igual a mim: Gustavo.

Minha barriga roncou quando a música trocou. Decidi então parar e comer naquele restaurante perto do condomínio. E qual não foi a minha surpresa ao encontrá-lo lá, sorrindo e acenando para mim.

Almoçamos juntos e depois fomos para a casa dele. Contei a ele sobre a minha ideia e ele gostou bastante, dizendo que me ajudaria a fazer. Meio caminho andado já, agora só falta a coragem de falar diante da câmera, e claro, conversar com minha terapeuta e mais umas pessoas sobre isso para ter certeza mesmo.

***

O dia seguinte começou mais tranquilo do que eu estou acostumada. Ficar em pausa no blog tira toda a minha agitação, porque eu tô zero preocupação para escrever nada. Até o bendito do meu livro continua parado. Inclusive, o meu editor entrou em contato comigo, demonstrando apoio a tudo o que está acontecendo e que o nosso contrato de publicação continua de pé. Até porque ele era das poucas pessoas que me conhecia pessoalmente desde antes… Na verdade, é um amigo e antigo colega de trabalho - eles sabiam que eu escrevia outras coisas - que foi para o ramo de livros e me convidou para a sua nova editora. Ele ficou surpreso quando mandei os primeiros contos - que ele prontamente recusou - e ligou os pontos imediatamente. Claro, ele prometeu guardar segredo e sei que o faz.

Tomei o meu café na maior paz do mundo, peguei o carro e dirigi até o consultório da minha terapeuta que já estava me esperando para a sessão extra. Conversamos bastante sobre este último episódio e falei sobre todas as minhas frustrações e sentimentos quanto ao ocorrido. Da maior parte ela já sabia, só dei mais detalhes e desabafei. Confesso que acabei chorando de novo, contando a situação de climão que ficou na casa da minha mãe naquele quase-almoço. Sobre isto, a psicóloga comentou:

- Fez bem em falar finalmente sobre isto. Não foi da melhor forma e da mais assertiva, mas começar a expor os seus pensamentos e opiniões é um começo.

E claro, pedi a opinião sobre a minha ideia de gravar o vídeo…

- É uma excelente ideia. Mas, será preciso uma dose a mais de coragem. Tudo o que você passou anos tentando esconder virá à tona de uma vez. Então, esteja certa de sua decisão, porque com a popularidade do seu blog seu anonimato vai terminar.

- Ele já foi abruptamente acabado. Com a minha declaração no blog, o pessoal já sabe a verdade.

- Sim, é mesmo! Contudo, fazer o vídeo talvez até pare com os comentários, porque vai dar um rosto mais definido para a Echii. E mostre que realmente segue aquilo que fala no blog: não tenha vergonha do que lhe aconteceu, use isso para falar sobre o assunto.

Depois deste ótimo conselho, a sessão terminou e eu voltei para casa. Como não estava com vontade de cozinhar, resolvi ir ao restaurante comprar uma refeição para viagem. Como era ali perto, ia andando mesmo. Qual não foi a minha surpresa ao ver quem estava parado diante do portão do condomínio: Pedro. Não tinha só como fingir que não o vi, era onde ia passar. O que ele queria agora? Se bem que, percebi algo diferente na atitude dele.

- Olá, Pedro. - cumprimentei seca

- Helena… - pausa dramática - Fiquei sabendo da história do vídeo e das fotos suas que vazaram. É você mesmo? Eu não acreditei quando o Arthur me mandou.

- Sim, sou eu mesma. - cruzei os braços - O que tem?

- Eu não esperava isso de você, não se dá ao respeito mesmo. Ainda mais porque escreve naquele blog… Achei que tivesse parado quando tirei o computador daquela vez.

Lê-se “tirei o computador” como “quebrei o seu computador”. Era só o que me faltava agora, mais um para me dar sermão da moral e dos bons costumes e do que eu devo ou não fazer por ser mulher.

- Eu sempre gostei de escrever sobre este assunto. Nunca precisei da permissão de ninguém! - eu já estava ficando sem paciência - Afinal, Pedro, o que é que você quer? Veio aqui e está falando todas essas coisas por que motivo?

- Não dá para ter mais nada entre a gente. Não posso ficar com uma mulher tão sem vergonha quanto você.

- Era isso?! - bufei - Veio me avisar que vai desistir de mim, quando eu já virei essa página há tempos? Ora, não precisava. - joguei todo o meu sarcasmo - Quando eu fazia o que você queria estava tudo bem, quando eu sofria calada estava tudo bem… Agora que não sou mais “direita”, não sirvo mais! - respirei fundo, segurando as emoções para falar o que estava entalado - Pedro, já tinha tempos que essa relação não dava certo. Eu estava sufocada e presa. Não suportava mais e você ficou me perseguindo por meses, querendo me forçar a voltar com você. Olha, se eu soubesse que era só eu revelar que era a Echii para você desistir de mim… Tinha feito antes!

- Francamente, Helena… Você…

- Eu o quê? Agora fala!

- É uma vagabunda! - despejou e eu ri por dentro

- Ora, que bom! Pelo menos agora posso ser a vagabunda - enchi a boca para falar o adjetivo que me dera - que eu quiser em paz! Até mais ver, Pedro! - e segui meu caminho

Não pude evitar de rir de nervoso dessa situação toda. Tanto tempo sofrendo por causa dele - no caso, fugindo - e ele faz isso. Ah, se tivesse sido tão simples desde o começo! Só achei ridícula esta cena que ele fez como se eu fosse a errada e ele o certo, infelizmente, é algo que não irá mudar!

Pela primeira vez em um bom tempo, olhei para trás e vi que não tinha ninguém me seguindo. Meu meu ex simplesmente entrou no carro dele e saiu.

Comprei o almoço para viagem e logo voltei. Eu estava tão feliz que eu até pedi uma sobremesa e me deliciei com a comida ouvindo a minha playlist o mais alto que deu. E depois fui trabalhar neste mesmo ritmo! Aproveitei para montar o roteiro do vídeo, combinando junto com Gustavo um horário já naquele dia para gravarmos. Claro que seria logo após o jantar, que eu iria cozinhar.

No horário marcado, ele bateu à minha porta e eu atendi. Ele estava com os braços muito ocupados por causa dos equipamentos. Por sorte, a câmera dele também filmava e ele tinha alguns equipamentos de som bem simples, mas que iam servir ao nosso propósito.

Jantamos primeiro, conversando no mesmo clima de sempre, porém dessa vez a gente não podia ir para a cama na sequência. Tínhamos um trabalho a fazer!

- Animada com a gravação? - ele perguntou

- Nervosa, na verdade. Eu montei um roteiro, mas nunca falei na frente de uma câmera. - respondi

- Nem eu! Mas, eu te ajudo no que der. Faremos no seu escritório, H?

- Onde achar melhor, G!

Ele apenas assentiu.

Fui lavar a louça e deixar tudo arrumado enquanto Gustavo organizava o cenário para a gravação. O local escolhido foi o escritório mesmo!

Quando voltei ao ambiente, já havia uma cadeira posicionada diante da câmera. Duas softboxes fazendo a função de iluminar tudo, sem deixar uma sombra sequer. Ele pediu que me sentasse e foi ajustando mais alguns detalhes no aparelho. Quando estava com tudo pronto, disse:

- Tudo nos conformes, podemos começar quando você quiser. Não se importe em ter que fazer tudo de uma vez e numa tomada só. Tem bastante espaço nesse cartão de memória para usar. Se errar, pode voltar e repetir, que depois arrumo na edição.

- Não sabia que fazia vídeos também.

- Quando se é freela, tem que saber fazer de tudo um pouco. E creio que a sua edição vai ser o mais simples possível, então dá para eu fazer.

- Obrigada de novo!

- Disponha, Echii, - e riu - quero dizer, Helena.

- Pode começar a gravar.

Ele apertou o botão e ficou me observando falar. Até consegui falar com a câmera sem muitas dificuldades, o Gustavo nos deixa sempre a vontade diante das lentes e eu podia confiar, pois era ele quem estava me olhando por trás delas. Falei resumidamente sobre mim, sobre o ocorrido da última semana e revelei que tudo aquilo era verdade, contando também sobre os meus motivos de ter me mantido no anonimato, além de pedir a compreensão e o apoio de todos os que acessam o Contemporânea Erótica.

Gustavo parou a gravação e eu soltei um suspiro longo.

- E ai? Ficou bom?

- Ficou excelente! - sorriu, se aproximando - Até parece que faz isso há muito tempo.

- E quanto tempo leva para editar? - questionei

- Como você quer com urgência, posso trazer já amanhã. O que acha?

- Perfeito! - levantei-me

Estávamos de frente um para o outro e aquela proximidade sempre aflorava-nos, então, a visita à cama foi adiada só pelo tempo que o vídeo estava sendo gravado.

Eu espero que meu objetivo com ele seja alcançado e que fique tudo bem!

sábado, 16 de abril de 2022

Capítulo 33 - Pedido de perdão

 

Eu apenas tentei dormir, mas não preguei o olho de jeito nenhum, o meu sangue continua quente e minha cabeça uma bela confusão.

Meu celular não parou um segundo sequer durante a noite, enquanto eu tentava distrair a minha mente vendo um filme de comédia. Até consegui dar algumas risadas, porém nada que apagasse o que foram esses dois últimos dias.

Então, já sabendo que o sono não viria de jeito nenhum, decidi fazer algo de útil e fui trabalhar. Continuar cuidando das edições dos ensaios que me ocuparam nas semanas anteriores, que parecem até um universo paralelo. Lembrei rapidamente de onde parei e prossegui com a separação das fotos e as leves correções de cores.

Eu fiquei tão distraído e compenetrado no meu trabalho - e também distante do celular - que só notei que horas eram quando amanheceu. O cansaço da noite recém-virada finalmente me abateu e o sono forçado me cobrou seu preço. Apenas salvei tudo para não perder, deixei o computador em modo de descanso e me joguei na cama, não levando nem cinco minutos para adormecer.

Fui despertado abruptamente pelo meu celular tocando na sala. Eu não tinha colocado para vibrar apenas? Levantei me arrastando e fui ver quem era. Não foi nenhuma surpresa ver que era meu irmão. Ele só queria saber porque eu sumi a manhã inteira, porque nossos pais ligaram e ele também ligou diversas vezes e eu não atendia. Ficaram preocupados pois não é costume que não atenda sem motivo. Expliquei sobre como foi a minha última noite. Meu irmão se mostrou compreensivo e dizendo que avisaria meus pais, desligou.

Olhei o horário no celular e já era 13h. Depois de um ronco longo do meu estômago, decidi que ia comer alguma coisa no restaurante perto do prédio. Troquei de roupa, arrumei o cabelo e sai. Depois de cinco minutos de caminhada, cheguei e escolhi uma mesa. Uma garçonete veio logo me atender e anotou meu pedido. Então, fiquei aguardando a comida.

Eu estava sentado numa mesa longe da porta, mas que dava visão para a entrada do restaurante. Distraí-me um pouco olhando o celular, as redes sociais ainda bombando de comentários. Fui ver o aplicativo de mensagens e o “grupo força-tarefa” informou que o vídeo e as fotos já estavam fora do ar naquele site, agora estavam na busca das cópias para apagar também. Vi o nome e a foto da Helena na listagem, ainda sem nenhuma resposta dela. Sabia que não ia me responder. Só penso o quanto ela deve me odiar agora e por algo que eu nem fiz!

Qual não foi a minha surpresa em ver quem atravessou a porta do restaurante: Helena. Sorri internamente, mas percebi o quanto ela estava abatida… Ainda! Nossos olhares se encontraram de imediato e ela não demonstrou nojo quando me viu. O que é um bom sinal! Na verdade, ela sorriu e veio em minha direção.

- Oi, G! Posso sentar aqui com você?

- Olá, H! - acho que tinha essa liberdade de volta - Claro que pode! Já almoçou?

- Na verdade, eu ia almoçar na minha mãe. Ela me chamou depois daquilo e foi querer me dar um sermão, porém eu acabei falando demais e sai de lá porque ficou um climão.

- Imagino do que ela deve ter te chamado.

- Não chegou a dar um nome, mas se mostrou mais preocupada com o que os outros iam achar dela do que comigo. Todas as coisas acumuladas me subiram e eu vomitei de uma vez só. Eu e Marina a deixamos reflexiva! Ela cobra uma perfeição que inalcançável, ou melhor, nem sei qual é o patamar que ela quer que atinjamos.

- Entendi. Bom, espero que ela entenda. 

A garçonete chegou para atendê-la, Helena fez seu pedido e eu continuei a conversa:

- Enfim, você… Ainda está com raiva de mim? - indaguei para tirar a dúvida

- Eu estava com raiva de você. - ela sorriu sem mostrar os dentes - Só que aí você me aparece com este olho roxo e me deixa preocupada… - falou passando a mão no meu rosto - Acredito que não foi você, ainda mais quando falou que foi o Matheus. Não tinha ido com a cara e com razão.

Sorri aliviado. Um dos meus medos não precisava mais existir.

- Fico um pouco mais tranquilo por saber disso, H! Mesmo assim, quero te pedir desculpas pelo que aconteceu. Indiretamente tenho culpa nisso! Deixei meu “amigo” encontrar nosso vídeo e espalhar para quem quisesse. Olha que eu escondi bem… Ele realmente fuçou!

- Tudo bem, G! Nós somos as vítimas dessa história. Uma pena que tenha estragado o nosso projeto das fotos…

- Pois é! Eu estava tão animado… - e questionei outra coisa - E quanto ao blog? Já tem uma ideia do que fazer?

- Ainda não sei! Fiz aquele texto só para não deixar meus fãs sem satisfação.

- Aquela mensagem me destruiu por dentro.

- Eu sei! Foi doloroso escrevê-la! Aliás, não consegui responder a sua mensagem… Ainda estou mal com tudo. Estou perturbando a minha terapeuta desde ontem.

- Sem problemas, eu mandei por mandar, não precisava de resposta.

- Aquilo que disse no final dela… É verdade?

- Que eu te amo? - perguntei retoricamente - É sim! 

Ela permitiu que uma lágrima caísse de seu olho direito e pegou na minha mão. Não sei bem o que isso queria dizer, mas creio que seja um “Eu também”.

Mudamos levemente de assunto, comigo contando sobre as ações do grupo de ajuda, colocando ela a par do processo que o marido de sua amiga abriu.

Logo a comida chegou e continuamos conversando. Nem parece que a gente tinha brigado pouco antes desse momento. Não era nem um almoço romântico, mas mesmo assim fazíamos ser especial da nossa forma.

Ainda dava para sentir um pouco de receio e até ansiedade nas palavras da Helena. Ainda estávamos baqueados por todo o ocorrido e nem havia sombra das consequências. Eu já tinha plena ciência que eu estava fodido judicialmente falando, já que devo ter recebido mais uma denúncia por agressão para somar com a do Pedro. Confesso que não me arrependo de ter batido nos dois.

Eu estava tão no calor do momento quando fui na casa do Matheus que nem peguei meu equipamento de volta. Como farei isso agora?

- Pior que o equipamento que emprestei pra ele ficou lá. Acho que nem devo conseguir recuperar!

- Quer que vá para você? - H indagou

- Seria de grande ajuda. Não quero olhar pra cara dele de novo. Ou melhor, a mãe dele não me quer lá.

- Não gosto dele, mas posso fazer este esforço.

- Obrigado! - falei, por fim

Terminamos a refeição e pagamos. Helena pegou seu carro, fui de carona com ela e voltamos ao prédio. Fizemos o resto do trajeto até antes de nos separarmos no corredor, quando eu decidi lhe dar um beijo de despedida. Se é que eu podia fazer isso! Foi só um selinho. Ela tentou sorrir e ainda abatida falou:

- Eu não quero ficar sozinha agora. Será que posso ir pro seu apê?

- Pode! Claro!

Peguei em seu pulso e a trouxe comigo. Assim que abri a porta, entramos e começamos a nos agarrar. Tinha sido só um dia e meio de distância, mas a paixão é tanta que até parece uma eternidade.

Mal fechei a porta atrás de mim e ela se enlaçou no meu pescoço, beijando-me com vontade. A gente sabia bem no que aquilo ia dar e fomos logo para o quarto. E logo as peças de roupas foram saindo de nossos corpos e se espalhando pelo chão, enquanto eu e Helena exploramos um ao outro, revisitando cada cantinho, fosse com beijos, carícias, chupões, mordiscadas ou arranhões. De vez em quando, as coisas eram meio selvagens entre nós. A primeira transa mostrou que seria assim!

E nem tem tanto tempo assim que a conheci, mas aparenta já ser uma vida inteira, ou talvez mais tempo do que realmente os poucos meses. A admiração que dava a uma pessoa anônima e passou para a de verdade. Esperava que todo este ocorrido terminasse da melhor forma possível para ela, ou seja, que ela não perca o trabalho e o público que conquistou. E se depender de mim, colaborarei para isto.

Minha cabeça flutuava nos meus pensamentos e dando atenção a ela, que gemia baixinho ao meus estímulos. Sentia o meu membro doer por baixo da cueca, pedindo por Helena, como sempre. Decidi pegar a camisinha para ir finalmente ao que interessava.

Ela abriu as pernas para mim assim que estávamos prontos. Ela me queria e eu a queria, era o que bastava. Entrei com uma facilidade bem escorregadia e fizemos naquela posição bem tradicional, mas de formas diferenciadas. A posição das pernas de Helena que faziam o trabalho sujo, enquanto eu fazia só o costume. Nós dois ali, suados, enrolados um no outro, completamente entregues e juntos naquilo. Não demorou muito até que eu gozei, satisfeito. Pouco depois, ela relaxou e soltou um gemido mais profundo, tinha chegado a seu ápice também.

Joguei-me na parte vazia da cama, soltando o que eu queria ter falado desde que a encontrei no restaurante mais cedo:

- H, o que eu puder fazer para te ajudar a resolver esta situação, especialmente com os fãs do blog. Estou à disposição!

- Obrigada, G! Na verdade, acho que tenho uma ideia sim e você pode me ajudar. Mas, eu preciso maturar essa pequena grande decisão na minha cabeça antes de prosseguir.

- E o que seria?

- Bom, pensei em gravar um vídeo e finalmente revelar a identidade oficialmente. - sorriu amarelo - Ainda tenho medo e receio, mas era algo que estava pensando bem antes de te conhecer inclusive. Só que desisti!

- E por que voltou com isso?

- É uma gestão de crise, acho eu. Como pedi uma sessão extra com minha terapeuta amanhã, conversarei com ela sobre. O que acha da ideia?

- É uma boa! Vai calar o que usaram para te prejudicar. Quando quiser gravar, só avisar.

Ela sorriu. Agora sim, finalmente, depois daquela enorme tempestade, a calmaria retornava.

sexta-feira, 15 de abril de 2022

Capítulo 32 - Família e Ausência

 

Em meio a todo aquele dia horrível, em que praticamente o meu trabalho inteiro ia pelo ralo, ainda tinha que lidar com uma ligação da minha mãe, que disse que meu irmão viu umas coisas com relação a mim na internet.

Não sei o que ela vai falar, mas eu pressinto que não é coisa boa. Nunca é!

Respirei fundo, tomando coragem e indaguei:

- E o que ele viu?

- Um vídeo seu e daquele menino que trouxe aqui em casa. - respondeu confirmando as suspeitas - Também vi as suas fotos… Pelada! E sobre você ser a criadora daquele blog sem vergonha. - foi então que eu senti que o sermão vinha com força - Eu não criei filha minha para que ela fique falando sobre essas coisas e também exibindo o corpo para quem quiser ver. Além disso, fica fazendo filme pornô.

E a sua fala seguiu, com ela contando todo o sofrimento que ela e meu pai tiveram para criar a mim e aos meus irmãos. Sobre o quanto era vergonhoso para ela que a sua filha fosse a tal da Echii. O que os vizinhos iriam achar? O que os outros parentes iam achar? Ela ia destilando suas palavras que chegavam a mim através do alto falante do celular, enquanto as lágrimas não paravam de escorrer pelos meus olhos. Já não bastava a humilhação pública e todo o hate na internet, tinha que ouvir aquilo tudo.

Por fim, falei:

- Rita, essas imagens minhas foram divulgadas sem autorização. Não fui quem espalhou!

- Mas você tirou essas fotos e filmou o vídeo e ficou escrevendo aquilo tudo. Você não se dá ao respeito, minha filha.

Foi aí que meu sangue subiu a cabeça. Tudo que eu queria era mais um sentimento me destruindo: a raiva. Porém, Marina logo percebeu a situação e me tomou o telefone.

- Mãe, olha só, a Helena não está bem. Tudo o que ela menos precisa agora é de mais uma pessoa apontando e a culpando pelo que fez. Ela não tem culpa de nada do que houve, estamos tentando encontrar o culpado e ele vai sofrer as consequências. - um breve silêncio, pois mamãe gritava ao telefone - Se acalma. Amanhã eu e Helena iremos aí para conversar, está bem? Beijo! - e desligou

- Obrigada por isso! - sorriu ainda tristonha para ela

- Tudo bem, mana. Já disse que pode contar comigo.

- Estou com medo de amanhã. Eu nunca consegui encarar a mãe igual você faz. Ela acha que sou a vergonha da família.

- Provavelmente o Arthur já a envenenou com toda essa história. Vamos tentar mostrar nosso lado.

- Ela não me escuta! - rebati

- A mim muito menos. Mas, quem sabe, ouvindo as duas filhas falando, ela não entenda.

- Podemos tentar pelo menos. - tentei me animar

- Maninha, descanse. Pense com relação a como vai fazer para contornar essa situação.

- Precisarei dar uma pequena pausa no blog para pensar melhor.

- Ótimo! Então, peguei seu computador e escreva sobre isso para seus leitores. É essencial que pelo menos se pronuncie de alguma maneira.

- Tem razão!

Levantei do sofá, peguei o computador no escritório e voltei, desta vez sentando ao lado de minha irmã, que estava a todo o vapor observando as minhas redes sociais e também falando no grupo força tarefa. Porém, eu nem prestei atenção sobre o que estavam conversando, já que estava concentrada escrevendo o texto para colocar no blog.

Não sei se ficaria fora uma semana, um mês ou para sempre. Contudo, eu precisava mesmo tirar este tempo de lá e deixar a poeira baixar. Quem sabe eles não esquecessem logo? É assim com tudo na internet!

Fui colocando as palavras no editor de texto com todos os meus sentimentos transbordando. Essas mesmas palavras eram o começo de eu juntar os meus caquinhos e começar a me consertar novamente.

Quando acabei, mostrei a minha irmã, que disse estar muito bom e que podia postá-lo imediatamente. Assim o fiz, desligando em seguida o computador e indo ver um filme.

Já havia anoitecido há um tempo e aquele dia complicado estava chegando ao fim, mas creio que as consequências dele ainda vão perdurar por um tempo.

E foi neste momento que pensei em Gustavo. A forma que ele apareceu aqui na porta, todo machucado e disse ter provas sobre quem fez isso - o bendito Matheus, não fui com a cara dele quando o conheci.

Não é a mesma coisa do que comigo, porém imagino o quanto ele está chateado com toda essa situação também. Claro que eu o culpei num primeiro momento e fazia sentido. Só que agora toda essa raiva e tristeza não estava direcionadas mais a ele, mas para os comentários negativos de todos, incluindo a minha mãe. Ou seja, eu fiz uma merda com o Gustavo e não sei como posso voltar atrás, já que praticamente o expulsei da minha casa hoje.

O meu coração se quebrou ainda mais quando o celular vibrou e fui olhar o que era: uma mensagem do Gustavo. Li, comecei a chorar e não tive coragem de responder.

***

Tive umas das piores noites de sono da minha vida. Ou melhor, eu dormi pouco, tamanha é a minha preocupação com tudo o que está acontecendo.

Levantei e minha irmã já tinha posto a mesa do café e estava me esperando. Acho que ela passou na padaria, porque claramente não tinha metade daquelas coisas na minha despensa.

- Bom dia, irmã! - sorriu assim que me viu - Comprei umas coisinhas pra tomarmos café juntas e te animar um pouco.

- Bom dia, mana! - sorri de volta

- Dormiu bem?

- Na verdade não. Eu mal preguei o olho. Minha cabeça continua a mil!

- Eu imagino. Bem, tenho uma coisa boa para te contar: o vídeo e as fotos foram retirados do site. Ainda estamos procurando se tem réplicas em mais algum lugar, mas não encontramos ainda.

- Não sei o que seria de mim sem vocês. - falei sentando por fim

Então, começamos a comer e continuamos a conversa.

- Já falou com o Gustavo?

- Ainda não. Ele até me mandou mensagem ontem, só não tive coragem de responder.

- A gravação que ele conseguiu vai ajudar bastante, é uma confissão praticamente.

- O problema é que ele agrediu esse ex-amigo dele e o Pedro também.

- Será que finalmente o Pedro larga do seu pé, depois dessa história toda? - questionou

- Quem sabe? - respondi desanimada - Que horas iremos na mamãe?

- Pro almoço! Ela ligou ainda agora para marcar.

- Eu estou com medo do que ela pode falar.

- Mana, venhamos e convenhamos que nós duas nunca fomos as filhas que nossa mãe sonhou. Só o Arthur é o filho querido dela.

E rimos, pois era a mais pura verdade. Não que eu e minha irmã fossemos rebeldes enquanto adolescentes, mas para a Rita tudo era motivo. Desde ficar até mais tarde na casa de alguém a sair com os amigos ou até beber um pouco, sempre via defeito.

Fiquei perdida nesse pequeno devaneio e Marina voltou a falar:

- Até porque eu também tenho uma coisa a contar. - fazendo suspense

- E o que seria? - perguntei curiosa

- Bom, sabe a minha “amiga” que está morando junto comigo? - ela não esperou que eu respondesse - É minha namorada!

- Sério?! - sorri sinceramente - Fico feliz por vocês duas. Mesmo! - falei pegando em sua mão

Sempre tive a pequena suspeita de que minha irmã gostava de meninas também. Ela já tinha namorado algumas vezes com homens, porém com meninas só havia ficado, geralmente até nas festas que íamos juntas. Eu já sabia sobre a sexualidade dela, a surpresa foi o namoro mesmo.

Terminamos de tomar café conversando sobre trivialidades. Depois limpamos tudo e nos arrumamos para ir a casa de nossos pais, porque esse dia prometia que seria longo.

Descemos para a garagem e eu fui dirigindo, enquanto a playlist tocava no máximo dentro do carro e nós duas cantávamos a plenos pulmões. Era a nossa forma de extravasar, ainda mais que vinham duas “bombas” daquelas pros nossos pais. A filha piranha - no caso, eu - e a sapatão - a minha irmã; as duas desvirtuadas.

O caminho foi rápido, já que nos distraímos com a música. Estacionei na frente da casa e chamamos no portão. Logo nosso pai veio nos atender e nos recebeu com um abraço bem apertado. E se dirigiu a mim em seguida:

- Filha, fiquei sabendo daquela coisa de ontem. Quero que saiba que te apoio!

- Obrigada, pai. - pelo menos uma parte desse casal apoiava as filhas

Entramos e lá estava a minha mãe na cozinha fazendo o almoço. Nos cumprimentou quando nos viu, contudo olhou para mim de cara feia e só falou:

- Nós precisamos conversar, mocinha!

Um calafrio subiu pela minha espinha no instante em que ela terminou a frase. Eu e minha irmã sentamos na mesa ali na cozinha e a Rita começou a despejar tudo o que estava entalado nela e não era nada muito diferente do que sempre ouvíamos ou do que ela queria me dizer ao telefone no dia anterior. E fechou a tampa do caixão com uma coisinha:

- O que os vizinhos vão achar? - e olhou para mim - Saiba que essa história já rodou a rua inteira. Que vergonha!

- Vergonha de quê, Rita? - eu retruquei - Eu sou só vítima nessa história. Não espalhei as fotos de propósito.

- Ainda foi aquele garoto que recebi nesta casa. Senti que ele não era boa coisa.

- Não foi ele! - falei

Eis que meu irmão chegou ao recinto:

- Ora, ora, se não são minhas irmãs queridas. Ainda mais essa daqui que é uma estrela pornô.

- Vai tomar no cu, Arthur.

- Calma, não fique estressada. - debochou - Faz e acontece na internet e não posso falar nada.

Bufei, não queria discutir mais, pois não ia chegar a lugar nenhum. Meu pai também apareceu na cozinha, já era quase hora de comer.

- Alias, eu tenho uma coisa para contar a vocês também. - Marina soltou

- Oh, não, você é estrela pornô também? - Arthur quis fazer graça de novo

- Vai a merda, Arthur, é sério. Enfim, sabem aquela amiga com quem estou morando agora?

- O que tem? - mamãe questionou

- Bem, ela não é bem amiga, é a minha namorada.

- Era só o que me faltava agora. - reclamou Rita

- Querida calma.- meu pai respondeu - Fico feliz por vocês duas, filha. - segurou nas mãos da minha irmã

- Onde foi que eu errei com essas duas? Por que vocês não são como seu irmão?

Ela não vai começar com isso, vai?

- Você não errou em nada, mãe! Eu sou assim desde sempre. Na verdade, eu gosto é dos dois.

- E nem comigo! Eu gosto de falar abertamente sobre um assunto que não é tão bem visto. Porém, acho que devemos falar. A questão das fotos era um projeto por fora e que eu sempre sonhei em fazer, mas não contava que fosse acontecer isto tudo.

- Nem sei como vou encarar o resto da família e da rua depois disso. - ela simplesmente ignorou o que falamos - Uma filha piranha e uma sapatão…

- Sério que está preocupada com isto? - Marina reclamou - Com que os outros vão achar? Helena está passando por um dos piores momentos dela, movendo um processo contra a pessoa que divulgou a imagem, mas pode perder o trabalho de anos no processo. E eu… Levei muito tempo para aceitar que sinto as mesmas coisas por meninos e por meninas também.

- Mãe, - falei para chamar sua atenção - quer saber mesmo qual foi o seu erro? A sua ausência, em muitos momentos. Tanto comigo quanto com a Marina. Quando terminei com o Pedro e você não me deu apoio algum, continua recebendo-o aqui em casa como se nada tivesse acontecido. Eu e ela nunca tivemos uma mínima abertura para conversar o que quer que fosse com você, já que nós não somos as filhas perfeitas, não como o Arthur é né?

- Ei, não me mete nos teus B.O.s! - gritou meu irmão

- Cala a boca! - Marina respondeu a altura

- Marina trabalha e faz a faculdade dela. Eu já me formei, trabalhei e estou com o blog que está me rendendo uma grana boa. Somos independentes, não moramos mais aqui e não dependemos do dinheiro de vocês. Nós duas nunca demos trabalho, sempre fomos responsáveis com tudo o que fazemos. O que falta para sermos as filhas perfeitas que tanto quer? - comecei a chorar - Sabe, mãe, eu só estou cansada de tentar atender às suas expectativas irreais. Nada do que faço é bom ou suficiente para você. Se dependesse de ti, eu estava afundada naquele relacionamento de merda e abusivo com o Pedro, que não me deixava fazer nada. Ainda bem que eu consegui sair, porém ele ainda não saiu da minha vida e isso me perturba muito. Não faz ideia de quantas vezes me mudei só porque tenho medo do que ele pode fazer comigo.

Marina pegou um copo de água e me entregou. Estava precisando!

Rita se manteve imóvel, olhando para mim durante o meu grande monólogo, sem dizer uma palavra. Não faço ideia do que se passa na cabeça dela agora.

- Mana, - falou minha irmã - acho melhor a gente ir.

Assenti. Foi péssimo deixar aquele climão todo, mas acho que minha mãe precisava de um choque de realidade. Eu já estava me sentindo horrível por conta de todo o acontecimento dos últimos dias, não precisava dela me criticando também. Talvez tenha sido meio injusta de apenas despejar tudo o que guardei por anos, só que um dia ela teria que ouvir o que sempre queremos dizer e não o fazemos.

Despedimo-nos e falei para que todos pensassem sobre o que foi conversado ali, mesmo que não tenha sido dito da maneira correta, mas eu precisava desabafar.

Eu e Marina voltamos para o carro e eu a deixei na porta do trabalho. Ela já tinha tirado um dia de folga e não podia perder mais um dia. Agradeci por tudo o que ela fez por mim e fui para casa, pois eu necessitava ficar um pouco sozinha.

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