sexta-feira, 24 de abril de 2015

Capítulo 2 - O melhor da academia

Dois meses se passaram desde a primeira vitória de Amélia. Ela melhorava cada dia mais e perder deixou de ser parte de sua rotina.
Marc continuava seu treinamento para ser o melhor da academia, com ajuda de Amélia. Agora, ela era uma adversária e tanto. O senso de observação, cujo ele ensinara a menina, se mostrava contra ele. Em um dos treinos, na casa de Marc, ela segurou o soco dele. Aquilo era meio impossível, devido a velocidade, até para o professor de karatê. Chocado, falou:
Como fez isso?
–Você sempre começa com a direita.
Marc, totalmente revoltado, continuou a sequência de golpes. Tudo foi seguido narrado pela voz de Amélia, enquanto defendia:
–Esquerda, direita, chute baixo, direita, direita de novo, chute alto. – deu um passo para trás – Opa! Esquerda, esquerda e direita.
–Eu não deveria ter te ensinado isso. - disse rindo
–Impressionado?
–Totalmente.
Amélia não conteve o riso, por causa da expressão que Marc fizera.
O garoto já se preparava para desafiar o melhor da academia e fazer do duelo deles um grande evento. Pedira para sua parceira, Amélia, espioná-lo. Ela descobriu muito sobre ele. Se chamava Rafael e era boxeador. Estava em seu posto há dois anos e recebera muitos desafios, porém ninguém fora capaz de derrotá-lo.
Apesar da enorme fama e favoritismo de Rafael, Marc estava determinado a quebrar isso.
Mas, algumas coisas teriam de ser feitas antes de Marc fazer o desafio frente a frente a Rafael. Foi, então, falar com o professor de karatê.
–Professor, posso falar com você?
–Claro! Vamos ali, para termos mais privacidade.
Dirigiram-se ao local indicado.
–Fale.
–É que... Bem, eu quero desafiar o Rafael pelo título da academia.
–Hum... E quer minha ajuda?
–Exatamente.
–Amélia. - a menina olhou – Venha aqui! - disse fazendo o gesto com a mão.
–Diga, professor.
–Acho que vamos precisar da sua ajuda para sondar e observar o Rafael.
–Eu já até sei o motivo. Não será necessário explicar. - comentou Amélia
O professor esclareceu todos os pontos aos jovens alunos. Falou um pouco o que sabia sobre o boxeador. A garota deu um jeito de descobrir quais eram os dias que Rafael estava na academia.
Alguns dias se passaram. Marc e Amélia marcaram de comparecer a academia para o garoto fazer o desafio. Ele pedira a menina para acompanhá-lo, apenas para ter um apoio moral.
Ao entrarem, todos pararam para observá-los, principalmente o rapaz. Rafael estava no saco de pancadas, Marc aproximou-se dele e falou:
–Rafael, posso falar com você?
–Claro. Mas, primeiro, quem é você?
–Sou Marc, faço karatê aqui.
–Hum... O que quer comigo? - perguntou Rafael, já pressentindo algo
–Eu te desafio a uma luta. Pelo título de “melhor da academia”. Aceita?
–Sim. Vai ser divertido!
Um aperto de mão selou tudo.
Então os dois karatecas saíram Cada um foi para sua respectiva casa.
Amélia chegou ao lar e percebeu que seu pai encontrava-se muito feliz e reuniu a família para contar uma novidade.
–Filhos, querida, tenho uma boa notícia.
–Diga, pai. - falou o irmão de Amélia
–Fui promovido!
–Isso é ótimo! - exclamou a esposa
–Ganharei o dobro, mas... Teremos que nos mudar para outra cidade.
–O quê?! - gritou Amélia – E nossa vida aqui?
–Ora, vai ficar por aqui.
–De novo não é, papai? Serei a novata da escola de novo. Legal!
Eles já passaram por situações de mudanças pelo menos umas três vezes; E a garota demora a se acostumar aos novos lugares.
–E alias, Amélia, não vai mais fazer essa coisa de luta. Não é coisa de menina e também não gosto daquele garoto que anda com você.
–O Marc? Você não o conhece, pai.
–E nem preciso. Estamos de mudança.
–Que raiva que eu tenho disso. Quando eu tiver minha vida... Ah...
Amélia saiu rápido da sala e bateu a porta do quarto. Ela afundou o choro no travesseiro, por dois motivos: Passaria por outra mudança; Por causa de Marc, tanto pelo que o seu pai disse, como o que sentia por ele.
Teria que tomar uma coragem tamanha para lhe dizer. Mas de quê adiantaria? A distância viria mais rápido do que pensasse. Ainda havia a reprovação do pai.
Amélia decidiu manter a sua mudança em segredo do amigo, para não preocupá-lo. E se concentrou em ajudá-lo no seu objetivo: Ser o melhor da academia.
A pedido de Marc, Amélia, disfarçada, fora até a academia com uma câmera para filmar o adversário dele treinando. Com isso, fariam um mapeamento completo do seu estilo. Uma vantagem para Marc.
Mais dias se passavam e a grande luta se aproximava. Era mais uma das tardes em que Marc e Amélia treinavam juntos. E naquele dia ele ensinava a ela alguns modos de derrubada. Marc fazia os movimentos e Amélia era a cobaia. O seu lado infantil gostava de girar, indo de um lado a outro e caindo.
Em um destes, Marc perdeu o equilíbrio e caiu em cima de Amélia. O corações de ambos aceleraram pela proximidade dos rostos. Os olhares se cruzaram, a menina sorriu. Os rostos se aproximaram mais, os lábios quase se tocando... O pai de Marc apareceu e os interrompeu.
–Filho, telefone para você.
Ele ajudou Amélia a se levantar e foi atender o telefonema. Quando Marc terminou, Amélia foi para casa, tinha que arrumar a mudança. Ambos estavam sem graça com o que acontecera. Ralph falou com o filho:
–Quase que beijou a Amélia hoje em. Gosta dela não é?
–Gosto. E agradeço por ter me interrompido. - disse ironicamente
–Acho que eu sou adivinha é?
E os dois riram. E depois, o pai comentou:
–Eu gosto da Amélia e acho que vocês formariam um belo casal.
–Obrigado, pai.
–Só digo a verdade.
Amélia chegou a sua casa.
–Filha, precisa arrumar suas caixas depressa. Mas mudamos semana que vem.
–Como é? Mas... Semana que vem é... A luta de Marc.
–Não interessa.
A menina sabia que não poderia reclamar.
–Tudo bem, pai.
E foi ao quarto, entristecida, arrumar as coisas.
A partir daquele dia, faltavam sete dias para a luta pelo título da academia. Os dois garotos treinavam a todo punho. Rafael estava confiante e tinha certeza de que ganharia. Afinal, ela era forte e musculoso. Seu adversário aparentava ser bem fraquinho. Marc prometera se esforçar para vencer a luta honestamente e ele não desonraria seu inimigo.
E finalmente chegou o dia! Dia da grande luta e da mudança de Amélia.
Os dois garotos decidiram descansar durante o dia para guardar energia e queimá-la a noite.
Amélia passou o dia fechando caixas e empacotando coisas. Terminaram tudo próximo ao horário da luta. Não demoraria muito para que fossem embora. Amélia queria falar com Marc antes da luta, se despedir dele, desejar-lhe boa sorte. Saiu de casa e foi correndo a academia.
Marc estava no vestiário, havia se trocado e esperava lhe chamarem. Ele estava nervoso, pela luta em si e por não ter visto Amélia aquele dia. Ele queria que ela participasse disso com ele. O professor de karatê apareceu.
–Marc, como está? Está nervoso?
–Um pouco. Rafael é muito bom!
–Modéstia a parte, acho você bem melhor.
O garoto sorriu. O professor desejou-lhe boa sorte e saiu.
Em seguida, Amélia chegou e viu a academia lotada. Realmente muitos vieram para ver. Ela encontrou o professor, cumprimentou-o e logo perguntou onde Marc estava. Ele indicou e a menina correu para lá, já que não tinha muito tempo. Abriu a porta, Marc estava de costas e ao vê-la entrar, se virou e falou:
–Pensei que não viria.
–Fiquei ocupada o dia inteiro. - disse mordendo os lábios
Marc percebera que havia algo errado.
–Aconteceu alguma coisa?
Amélia sabia que não poderia mentir.
–Eu só vim aqui para desejar boa sorte. E me despedir.
–Despedir?
–É! Eu não te contei, hoje eu vou me mudar para outra cidade. Não disse porque não queria te preocupar.
Marc ficou estático e demorou a responder.
–Então é isso mesmo? Vai largar tudo? Por que vai se mudar?
–Meu pai foi promovido.
–Entendo! - falou ele ficando triste, sentindo o coração apertar.
Amélia se aproximou dele. Colocou a mão no rosto de Marc, ele pôs a dele por cima.
–Manteremos contato. - disse ela sorrindo
Se olhares cruzaram-se novamente. A menina foi tomada por uma vontade do seu âmago. Nem pensou, apenas beijou Marc. Um beijo apaixonado e triste, por conta do clima de despedida.
Quando o beijo terminou, Amélia, caída em si, enrubreceu. Num sussurro, completou:
–Boa sorte, Marc.
Então, ela saiu. O coração de Marc estava confuso e totalmente fora de ritmo. Decidiu se concentrar em ganhar sua luta por Amélia.
Amélia saiu sentindo o peito pulando e um pouco ofegante. “Mas o que eu fiz?”, pensou. Ela sabia o porquê fizera, mas não queria admitir.
Aquele momentos se manteria na mente de ambos por um longo tempo.
A garota retornou a casa e logo a família partiu com a mudança. Em sua cabeça só tinha uma coisa: Marc.
O garoto logo foi chamado para a arena. Como o desafiado fora Rafael, ele escolheu o ringue de boxe para a luta; Marc não ligava para o lugar, desde que pudesse bater.
Os lutadores subiram, foram apresentados e logo começaria a luta. O professor de karatê apenas falou para Marc:
–Faça o seu melhor, sei que consegue e boa sorte!
Os dois jovens foram ao centro do ringue, se cumprimentaram. Rafael ironizou:
–Não vai colocar suas luvas?
–Eu não preciso.
O juiz deu o “valendo” e o sinal tocou.
Ambos armaram suas guardas e começaram a se encarar. Rafael deu uma sequência de socos, porém Marc desviou de todos. Rapidamente, contra-atacou e acertou uma belo golpe no rosto do adversário, que fez Rafael ter a cabeça jogada para trás.
Ele voltou da vertigem logo e continuou os seus ataques. A velocidade de Marc auxilou-o a desviar novamente. Rafael se irritou com aquilo e prosseguiu golpeando, cada vez mais rápido. Então, Marc finalmente recebeu alguns socos no rosto e barriga.
Pulou para trás para desviar da ferocidade de Rafael e dar uma respirada. Sentiu as dores e voltou ao combate. Marc quem realizou o próximo ataque. O combo que Amélia defendera facilmente, entrou no corpo de Rafael. Os dois chutes que causaram o maior dano.
Marc não deu tempo para o adversário recuperar o fôlego. Uma sequência de diversos chutes se seguiu. E afetou drasticamente Rafael. O boxeador ficou totalmente tonto e desnorteado. Marc apenas encerrou a luta com um outro chute em sua nuca, nocauteando-o. Toda a plateia vibrou, principalmente o pai de Marc.
Quando Rafael acordou, foram declarar o vencedor. O juiz chamou os dois ao meio do ringue. Levantou o braço de Marc e o anunciou como o novo melhor da academia.
Respeitosamente, ele abraçou Rafael e agradeceu pela luta. Ele retribuiu e se sentiu honrado por ter perdido seu título para um ótimo lutador.
–Eu posso treinar com você, cara? - perguntou Rafael
–Claro! Vamos trocar nossos ensinamentos. - respondeu sorrindo
Depois de tudo, no caminho de casa, Ralph indagou ao filho:
–E Amélia? Não a vi.
–Ela foi falar comigo enquanto estava no vestiário. Ela estava de mudança.
–Assim de repente?
–Já fazia um tempo, mas só me contou hoje. - Ele suspirou – E tem mais: Ela me beijou.
O pai deu uma risada de “Eu sabia!”.
–Espero que ela mantenha contato como prometeu.
–Eu também, filho. Eu também.

Capítulo 1 - Aluno novo

Amélia chegou a academia para mais uma aula de karatê. Fazia pouco mais de um ano que a garota de 16 anos ia para lá dois dias na semana.
Ela não era muito boa. Nos treinos em dupla ou em grupo, ela realizava tudo corretamente. Porém, quando ela ia para um combate era uma negação. Não conseguia fazer nada. Sempre perdia!
E por conta de tudo isso, ela era a pior aluna. E também a que mais sofria bullying. Amélia não ligava, se divertia bastante nas aulas.
E neste dia havia um rosto novo, um novo aluno. Ele se apresentou devidamente em frente a turma. Seu nome? Marc. As meninas logo ficaram loucas por ele, assim como eram por todos os outros.
E era hora de formar as duplas para treinar. Como sempre, todos se juntando e Amélia ficava de lado. Talvez fosse assistente do professor de novo.
Muitos queriam ser a dupla de Marc. Ele recusou todas as propostas, a maioria de garotas. Ele vasculhava o tatame a busca de alguém. E encontrou! Se dirigiu a menina isolada no canto:
–Olá! Eu já me apresentei lá na frente, mas eu sou Marc.
–Eu sou Amélia. Prazer! - disse envergonhada
–Ninguém veio falar com você. - Ele perceber que ela era excluída - Quer ser minha dupla hoje?
–Claro! - respondeu mais sorridente e radiante do que nunca
Os dois foram mais ao centro. Os olhares se dirigiam a Amélia.
“O que esse garoto tem na cabeça?”, pensou um.
O professor brincou com ela:
–Ora, Amélia, alguém escolheu você. Perdi a minha assistente hoje. - olhou para Marc – Se deu bem né? Essa menina é boa!
Marc não evitou de questionar:
–Por que não fazem dupla com você?
–É que o pessoal aqui não gosta muito de mim. - Ela foi sincera – Me rejeitam, porque eu não sou boa em combate.
–Não tem nada de errado nisso. Nada que um pouco de treinamento não resolva.
Amélia sorriu para ele, como era simpático.
Em seguida, o professor iniciou a aula. Este exercício era para conhecerem e fazerem alguns golpes.
Amélia ajudava bastante Marc quanto a posição ou o jeito de chutar, entre outras coisas.
Terminada esta parte, vez das lutas e as duplas foram mantidas para tal. E lá foi Marc contra Amélia. O garoto estava um pouco receoso, ela era menina. O professor disse que não havia problema. Mas o seu cavalheirismo mandou maneirar um pouco.
A luta entre eles começou e nem demorou a acabar. Amélia tentou dar um soco e mais outro, mas Marc deu-lhe um chute e mantendo a rotação do corpo acertou mais um. Só se viu a garota se distanciando e parando perto da ponta da arena.
Imediatamente vendo o que fez, correu para a acudi-la. O professor foi também. Por sorte, ela estavam bem, apenas dolorida com a queda.
Marc pediu um zilhão de desculpas a ela.
Mais alguns dias de aula se passaram. Marc fazia dupla com Amélia. E depois aconteciam as lutas, algumas foram com ele, outras não. Ele sempre observava a menina e começara a montar o perfil de lutadora dela.
Amélia era excelente na teoria. A prática que ela não era boa. Marc viu que ela não tinha tempo de reação rápida. Já ele, que conseguia olhar para si, era o contrário dela.
Ocorrida a última aula da semana, o garoto pensou e pensou... Como ajudar Amélia? E na semana seguinte, ao final, abordou-a:
–Amélia, posso te perguntar uma coisa?
–Diga, Marc! O que?
–Podemos treinar juntos?
Se fosse outro, falaria gaguejando e ficando totalmente rubro. Contudo, Marc era determinado.
–Como assim?
–Na minha casa, tem uma sala que meu pai fez para mim. Eu posso te ajudar com o combate e você me auxilia com as posturas. Que tal?
Um sorriso se formou no rosto da jovem.
–Eu treino com você sim! Vai ser divertido.
Marcaram de começar no dia seguinte. Marc passou o endereço a ela. No dia marcado, a tarde, Amélia bateu a porta dele. Um senhor atendeu:
–Boa tarde, mocinha!
–Boa tarde! Aqui é a casa do Marc?
–Sim. Mas a pergunta é o que quer com meu filho?
–É que eu vim aqui para treinarmos karatê juntos.
–Ah, ele me falou de ti. Amélia, não é?
–Sim!
–Eu sou Ralph, pai de Marc. Ele está no salão de treino dele. Eu te levo lá!
Amélia acompanhou Ralph. Marc, que estava todo suado, já que golpeava o saco de pancadas, cumprimentou-a:
–Amélia, que bom que chegou.
Ele viu que tinha alguma coisa diferente nela, havia algo pendurado em seu nariz.
–Não sabia que usava óculos.
–Ah, é que nas aulas eu coloco as lentes de contato.
–Fica bem melhor com os óculos.
–Obrigada! - falou timidamente e ajeitando a armação com o dedo.
A jovem trocou de roupa e eles começaram a treinar.
Assim eles fizeram ao correr dos dias. Divertiam-se e aprendiam. Conheciam-se mais ao conversar durante os intervalos. Mantinham-se juntos nas aulas de karatê. Cada dia mais próximos e a amizade entre eles surgiu. Os treinos deixaram de ser os únicos momentos em que se viam. Passaram a sair para o shopping ou cinema de vez em quando. Quem via aqueles dois, percebia que algo novo aparecia. Todos enxergavam, exceto os próprios.
Marc se mostrou um menino simpático, determinado, excêntrico e companheiro.
Amélia revelou-se tímida, bem fechada em seu mundo, boa ouvinte e amiga.
Eram bem diferentes um do outro, mas se atraíram, por ter um ponto em comum: a luta.
E os treinos que eles mantinham já estavam dando resultados. Amélia raramente pedia para Marc consertar suas posturas. A menina por trás daquelas lentes passara a observar melhor seus adversários, achar e utilizar seus pontos fracos a seu favor.
Essa evolução apresentou sua efetividade em uma das aulas, na parte do combate.
Amélia foi contra outra garota, que era razoavelmente melhor do que ela. Parecia mais uma daquelas batalhas rotineiras em que a excluída perde e vira motivo de risada dos outros. Contudo, agora ela estudava todas as movimentações dos vários alunos. Sabia, tinha previsão do que ia acontecer.
Sua adversária avançou sobre ela, com a mesma sequência de ataques com a qual começa. Amélia, se aproveitando isso, desviou de todos os socos. Quando a outra abriu a guarda, foi sem pena em seus golpes. Por pouco a garota não desmaia.
O professor ficou muito feliz de, pela primeira vez, declarar Amélia vencedora. O resto da turma aplaudiu. Amélia ajudou a outra a se levantar. Foi falar com Marc em seguida. Ela recebeu um abraço forte e um “parabéns” da parte dele.
No dia seguinte, Marc e Amélia estavam passeando, distraídos, olhando as vitrines. Em uma loja de joias e bijuterias, os olhos da menina bateram em um cordão com um pingente que era luvas. Não evitou de dizer:
–Nossa, que lindo!
–Quer para você? - Ele perguntou de repente
–Ah, não precisa, Marc.
Ele viu o brilho no olhar dela. Sem nada dizer, puxou-a para dentro da loja. Pediu o colar ao vendedor, que trouxe e mostrou. Amélia não perdia o encanto pelo objeto, apesar de falar umas dez vezes que não era necessário. Ao ouvir o preço, ela se surpreendeu.
–É muito caro! Marc, não precisa. É sério!
Claro que o menino ignorava os protestos dela. Daria aquilo como um presente. Comprou, agradeceu ao vendedor e saiu. Amélia estava irritada com a teimosia dele. Marc retirou o colar da caixa e falou:
–Deixa eu colocar em você.
Ela apenas virou-se de costas e segurou o cabelo. Ele pôs o cordão nela, que indagou:
–Por que me comprou isso?
–É um presente! Pela sua primeira vitória ontem.
Ambos sorriram e sentiram seus corações acelerarem neste momento. Amélia, completamente envergonhada, disse “Obrigada!”.
–Só não se acostume com tantos presentes. - foi o que Marc respondeu.
A noite, antes de dormir, os pensamentos dos dois foram povoados pelo outro. Então, perceberam o que sentiam.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Capítulo 23 - Grande Trauma

Só pude ler novamente quando voltei do trabalho. Troquei de roupa, peguei o diário e me sentei no sofá. Li uma anotação bem semelhante à do dia anterior. Quando acabei, Kazuko se sentou ao meu lado e ligou a TV.
-Que parte você está lendo? - disse espiando – Ah, essa parte. Eu não gosto muito de lembrar desse dia.
Sabia bem a que dia ela se referia, pois eu dei uma espiada em algumas linhas lá embaixo. Comecei da linha seguinte.
Diário,
Eu nem sei nem por onde começar a dizer tudo o que aconteceu ontem à noite. As lágrimas e a culpa não saem de mim.
Tive um dia bem normal e estava me sentindo ótima. Eu adormeci rápido a noite e foi então que este pesadelo começou. Na verdade, no início parecia um sonho como qualquer outro.
Colocava o bebê para dormir, carregava-o em meus braços. Os olhinhos dele abriam e fechavam, até finalmente dormiu. Observei seu rosto sereno e uma coisa estranha aconteceu. Uma brisa soprou atrás de nós e o bebê começou a se desfazer, como se fosse areia.
Assustei-me e perplexa, o vi sumir diante de mim. E não pude fazer nada. Tentei gritar no sonho, mas aconteceu de eu acordar gritando. Foi tão forte que me secou a garganta. Makoto levantou num pulo e perguntou:
-Kazuko, o que houve? - então acendeu o abajur e pude ver uma expressão de aflição em seu rosto quanto olhou em direção as cobertas.
Foi aí que eu senti e vi. Uma sensação idêntica a quando minhas regras vêm e sangue. Apesar da pouca luz dava para ver, nitidamente, que era sangue, os lençóis são claros.
O desespero veio, uma grande dor também e só consegui chorar. Makoto me chamou e falou, segurando em meus ombros:
-Temos que ir ao hospital agora. Se troque depressa e vamos.
Fiz conforme ele mandou. Coloquei um vestido simples e saímos. As lágrimas e nem a dor não paravam. Ele parou o carro, levantou me rosto e me disse:
-Kazuko, tá tudo bem!
Assenti concordando e seguimos.”
Eu não queria pensar no pior nesse momento. Tinha esperanças de que ela não abortara. Também estava desesperado e nervoso, porém eu tinha que mostrar segurança e apoiar Kazuko.
Por sorte, Rin estava no hospital, pois uma de suas pacientes encontrava-se em trabalho de parto. Durante a triagem, eles a chamaram para me atender.
-Boa noite, Kazuko, Makoto!
-Boa noite! - respondemos em uníssono
-E o que aconteceu? - indagou Rin, próxima de mim e me olhando
-Ela teve um sangramento.
-Muito sangue? Pouco sangue?
-Bom, o lençol ficou razoavelmente sujo.
-Ok! Vamos ter que ir a máquina de ultrassom para ver se está tudo bem.
Fizemos conforme ela disse.
Eu me deitei na maca e ela pôs aquilo na minha vagina. Mexeu por um tempo e pude pressentir pelo olhar dela que vinha uma má notícia. Não tive coragem de perguntar, quem o fez foi Makoto:
-E então?
-Eu lamento. - ela virou-se para ele – Kazuko sofreu um aborto.
A única coisa que consegui fazer foi chorar, apenas uma lágrima solitária caiu. Rin discursou o resto dos procedimentos:
-Kazuko, vou te colocar em observação até amanhã. Vamos ver se vai sair alguma coisa, caso não mandarei fazer a curetagem para tirar o que ainda estiver dentro de você e também para estancar esse sangramento. Com licença! - e saiu
Então desabei de novo. Makoto estava parado ao meu lado. Seu olhar parecia perdido e triste.”
Eu ainda estava em choque com a notícia repentina. Não sabia como reagir, só não queria era chorar diante dela.
-Makoto! - chamei-o tocando em sua mão
-Oi, Kazuko. - falou sentando-se na maca e olhando para mim
-Me desculpa.
-Pelo quê?
-Por ter perdido o bebê.
-Kazuko, já te disse que está tudo bem. - apertou a minha mão – Estamos juntos nisso, lembra? - assenti – Então, não fiquei assim.
-Tentarei fazer o meu melhor. - sorri um pouco
-Sendo assim está bom.
E não falamos mais nada. Ficamos nos olhando, um clima meio desconfortável até chegarem para me levar ao quarto. Makoto me acompanhou até lá. Fiquei algumas horas em observação e nada aconteceu. Acabaram me levando para fazer a curetagem. Ele não pode ir comigo.”
Vi Kazuko sendo levada na maca. Eu sai dali e fui ao banheiro, era o único lugar onde poderia ficar sozinho.
Adentrei em um dos boxes e, fora do meu controle, as lágrimas caíram em silêncio. Todo o choro que segurei na frente dela caiu naquele momento.
Também fiquei triste por ela ter perdido o bebê. Assim como ela, já estava imaginando a vida com ele. Nós dois ainda estávamos assimilando e acostumando a ideia de termos um filho juntos. Foi um choque ao descobrir e outro choque ao perder.
Todos esses sentimentos escorriam por meus olhos. Com certeza, isso foi um grande trauma para mim e para Kazuko.
Levaram-me para uma espécie de sala de cirurgia e a própria Rin estava lá me esperando. Ela veio me explicar o que faria:
-Kazuko, eu vou te anestesiar. Vai dormir uma meia hora. Talvez acorde um pouco dolorida, mas isso é normal. Alguma pergunta?
-Eu vou para o quarto depois disso?
-Sim!
Então, ela me deu a anestesia e eu apaguei.
Quando dei por mim já estava no quarto. Makoto e Rin conversavam, mas só ouvi uma fala da conversa:
-Quando a menstruação dela voltar, podemos retornar com o anticoncepcional.
Rin saiu.
-Parece que acordou. - falou ele – Como se sente?
-Bem, apesar de meio sonolenta.
Ele se sentou na cama e eu perguntei:
-O que a Rin tava falando com você?
-Sobre o que aconteceu. Ela me disse que o bebê ainda estava dentro de você. Só que ele descolou na parede e foi parar no colo do seu útero.
-Por isso eu sangrei daquele jeito.
-É! Foi!
-Ela disse em quanto tempo eu posso me recuperar?
-Entre dois ou três meses.
Ele baixou o olhar e ficou acariciando a minha mão.
-Makoto, - soltei, ele levantou a face – se quiser, podemos tentar de novo.
Por que eu falei isso?
-Não precisa, Kazuko. Lembra que eu não quero filhos agora?
-Lembro sim. Mas, eu pensei que tivesse mudado de vontade.
-Eu só me conformei com o houve. Aceitei a ideia de ter um filho.
-Eu também, Makoto.
-É melhor descansar, teve uma noite cansativa.
-Cansativa? Acabei de acordar de um cochilo.
Foi só nesse momento que eu notei, Makoto estava com os olhos vermelhos e visualmente abatido. Não aparentava mesmo estar conformado com o ocorrido. Parecia que também havia chorado.
-E esses olhos vermelhos? - indaguei
-É só sono, só isso.
-Melhor descansar um pouco. - olhei as horas no relógio – E o seu trabalho?
-Eu falo com o meu chefe, você sabe que ele é bem compreensivo.
Apenas concordei. Makoto saiu em seguida e o ainda efeito da anestesia me fez dormir de novo.”
Eu liguei pro meu chefe na hora que costumo sair de casa para trabalhar e lhe contei toda a história. Ele se mostrou triste por mim, afinal, ele já passou por isso também.
Acordei porque o Sol me incomodava. Ele já estava razoavelmente alto no céu, pelo que percebia. Cobri parte do rosto com a mão e olhei para o sofá ali perto. Makoto dormia sentado, com uma postura firme e braços cruzados.
A enfermeira entrou no quarto trazendo meu café da manhã. Sua voz acabou despertando Makoto abruptamente.
-Bom dia, Srta. Hirasawa.
-Bom dia. - respondi
Ele também respondeu, entre dois bocejos.
A enfermeira ajudou-me a me ajeitar na cama, posicionou a mesa e saiu. Foi então que Makoto se levantou e veio falar comigo.
-Dormir bem?
-Sim. O efeito da anestesia ajudou um pouco. E você?
-Mais ou menos. Aquele sofá não é muito confortável.
Tentei um sorriso, mas não estava com tanto ânimo para tal. Minha mãe veio a minha cabeça.
-O que foi?
-Só queria a minha mãe aqui. Queria conversar com ela.
-Eu posso trazê-la aqui para te ver.
-Não, Makoto, não precisa. Eu não quero incomodá-la.
Comi após isso. Passei o resto do dia em observação, apenas para certificarem que eu não voltaria a sangrar. Sai quase amanhecendo de novo. Viemos direto para casa e Makoto teve que pedir folga ao chefe de novo.
Ao chegarmos, só me veio uma vontade de ficar sozinha. Fui a caminho do meu quarto, Makoto me interrompeu:
-Onde vai, Kazuko?
-Pro meu quarto. Eu só quero ficar sozinha!
Ele não disse nada e também não era para isso mesmo.
Eu já chorei bastante e ainda preciso chorar. Não faço ideia de como tirar essa tristeza e culpa de mim. Achei que desabafar aqui fosse melhorar, mesmo que um pouco, mas não adiantou.
Só espero que o tempo consiga curar esta ferida.”
Era o fim da anotação.
Eu permiti uma lágrima solitária cair, apenas por conta das lembranças. Deixei o diário de lado e Kazuko me consolou.
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