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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Prólogo - Tana, Serec e Ioma

Antigo Japão, Século XXIII

O mundo e sua população estão em constante mudança e evolução. Mas, em alguns momentos acontecem para pior, demonstrando que ainda há muita coisa a se transformar.
O Japão já foi conhecido como um dos países mais conservadores por um lado e também mais liberais por outro. Porém, os anos e séculos passam, países mudam de nome e também de conceito.
E na antiga região que era conhecida como Hokkaido, existe a cidade de Ioma, que é uma junção das antigas cidades de Tana e Serec, que há cerca de 60 anos entraram em guerra que ficou registrada nos livros de história como A Guerra do Minério.
Tana era conhecida por ser um grande polo tecnológico. Novos produtos e tecnologias eram criadas e fabricadas constantemente. Em poucos meses, um lançamento logo já era considerado obsoleto. E esta demanda de produção requeria muita matéria-prima em estoque, porque nem mesmo a reciclagem dava conta sozinha. Tudo era vendido interna e externamente, para cidades e até países vizinhos.
E de onde Tana conseguia tantas matérias? De Serec.
Serec era cerceada por montanhas repletas de minérios dos mais variados tipos. Maior parte da riqueza da cidade vinha da venda destas matérias, especialmente para Tana.  Vendidas para as enormes fábricas que preenchiam boa parte da cidade.
Tana veio com mais uma inovação, dessa vez uma linha de carros que praticamente zerava os poluentes emitidos e com o máximo de potência. (Sim, a humanidade ainda tentava descobrir esse tipo de coisa.) Contudo, havia algo que encarecia e talvez até impedisse que o produto fosse ao mercado. Um minério raríssimo e que só se encontrava em regiões muito distantes. Além disso,  o próprio transporte do material era caro.
Só que houve uma surpresa: o tal minério foi encontrado em abundâncias nas minas de Serec. Logo explodiu o interesse de cidades vizinhas e próximas, incluindo Tana.
Mas, Tana era mais ambiciosa do que se poderia imaginar. Eles não iam dividir toda essa raridade com os vizinhos, lhes dando oportunidade de enriquecer. E também não iam deixar Serec enriquecer de maneira tão fácil.
Então, decidiram por algo bem simples: Invadir Serec e toma-la. Sem aviso prévio, afetando todo o território e principalmente a população.
Na verdade, é errado usar o termo Guerra. O que aconteceu naquele dia foi um verdadeiro massacre. Serec foi tomada sem qualquer chance de defesa.
Apenas a população pobre foi prejudicada com tudo isso. Os donos de mineradoras de Serec e os donos de fábrica de Tana fizeram um acordo de comércio.  Realizou-se um referendo entre as populações ricas das duas cidades decidiu pela unificação, criação de Ioma  e a subjulgação da população mais pobre.
Criaram a Lei dos Escravos, que foi uma maneira de diminuir a prostituição na região. Onde crianças entre 10 e 18 anos são vendidas como escravos sexuais para os ricos, tudo para eles tenham o prazer dentro de casa.
Todos os ricos de Serec mudaram-se para a região que pertencia a Tana. As fábricas foram transferidas para a antiga área das ricas mansões de Serec.
Tudo mudou em alguns poucos meses, a ex-Serec se tornou uma área pobre e de favelas. A ex-Tana era a área dos ricos, dos arranha-céus e das mansões.
Os com mais condição simplesmente continuaram com suas vidas, como se nada tivesse acontecido. Porém, os mais pobres foram obrigados a se lembrar todo dia do que aconteceu, obrigados a servir os ricos em suas casas.
Crianças e adolescentes tinham suas vidas destruídas por conta da escravidão. Muitos mal conseguiam terminar os estudos. Isso piorou ainda mais a já precária condição deles.
Tudo o que mais queriam era ter a sua liberdade plena e não viver a mercê de alguns poucos. Maiores oportunidades para eles, uma chance, uma luz no final do túnel.


terça-feira, 14 de julho de 2015

Capítulo 25 - Aniversário de Kazuko

No meu intervalo de almoço, enquanto o escritório estava vazio fui ler mais um trecho do diário.
O que eu estava preparando para Kazuko era uma digna festa surpresa. Mas eu chamei pessoa de quem ela gostava muito: família e amigos. Entrei em contato com a mãe dela, Saiko, e organizei tudo com a ajuda dela. Ela se tratou de chamar os convidados e eu auxiliei com o resto. Decoração, doces, bolo, outras coisas. Combinei também o horário que levaria Kazuko, já que a festa seria na antiga casa dela, do lado pobre da cidade. Aproveitei e pedi um dia de folga para isso.
Li um pouco e finalmente cheguei a data do dia seguinte do aniversário dela. Foi quando escreveu sobre a surpresa.
“Querido diário,
eu sou agora uma pessoa maior de idade. Completei dezoito anos finalmente. Não foi do jeito que eu queria que fosse, de acordo da forma que a minha vida se encontra agora. Mas até que foi melhor do que pensei que seria.
Eu acordei bem desanimada e cheguei até a ficar pior ao olhar o calendário. Makoto abriu a porta, ele estava vindo me acordar. Só que como já estava desperta, falou me abraçando:
-Feliz aniversário, Kazuko!
-Obrigada, Makoto! - respondi desanimada
-Ora, vamos, pare com isso. Hoje é seu dia.
Então, notei que horas o relógio marcava.
-Não vai trabalhar?
-Não! Passarei o dia com a aniversariante.
-Ah, Makoto. O que vamos fazer? - indaguei já esperando uma lista de atividades que seriam bem chatas
-Eu tenho uma surpresa para você.
Fiz uma careta, contudo uma pontinha de curiosidade veio também. Acabei de me arrumar e descemos. Entrei no carro e ele pegou um lenço e iria amarrá-lo no meu rosto.
-Ei! - reclamei
-Preciso vendar você para a surpresa.
-Eu fecho os olhos quando estivermos perto.
-Não! Tem que ser durante o caminho todo.
Soou como uma ordem. E eu acatei. Ele me vendou e seguimos viagem. Foi uma boa meia hora sem ver nada. Não sabia o que pensar, só sentia o carro andando. E de repente, percebi que ele parou. Makoto bateu a porta do carro abriu a do meu lado depois e me guiou na saída do carro. Andei um pouco e senti um cheiro familiar. Ele me levou até o lugar e tirou a venda. Ouvi e vi pessoas conhecidas gritando “Surpresa” e depois parabéns para mim. Um sorriso, que há tempos não fazia, se acendeu. Minha mãe correu para me dar um abraço, minhas amigas em seguida. Recebi também “Feliz aniversário” delas.
Todos presentes. Família e amigos. Eles me fizeram uma festa surpresa, algo que nunca tive na vida. O ambiente da minha, agora antiga, casa estava como em todos meus aniversários. Decorado com balões, fitas, uma mesa com doces, bolo e uma faixa escrito: Feliz Aniversário, Kazuko. Esqueci do Makoto e fui ficar com meus convidados.”
Pois é, eu fiquei em um canto isolado durante toda a festa. Somente Saiko que vinha falar comigo de vez em quando. Mas, isso faz parte.
“Minhas amigas contaram como andavam suas vidas. Algumas completaram dezoito anos e curtiam sua liberdade. Outras ainda com medo de serem compradas por serem obrigadas a ir ao centro de escravos todas as noites. Logo, elas foram querer saber como eu estava:
-E você, Kazuko?
-Eu estou bem. Levando tudo na medida do possível.
-Poxa, o seu dono te trata tão mal assim?
-Pois é, ele que organizou essa festa para você. Falou com a sua mãe e também viu o melhor horário para que pudéssemos comparecer.
Eu não sabia desse detalhe. Procurei por ele e o vi em um canto, ele me sorriu. Respondi.
Outra amiga continuou:
-Mas tem alguma coisa. Você tá com uma carinha abatida.
-É! Aconteceram umas coisas.
Acabei contando os ocorridos dos últimos meses, destacando o incidente no aniversário do Makoto e minha gravidez.
-O quê? Ficou grávida? Como?
-Ficando oras! Não pude tomar o remédio por uns dias e aconteceu.
-E ele? O que fez quando descobriu?
-Ele me apoiou. E fez da mesma forma quando perdi.
-É, Kazuko, tirou a sorte grande. Conseguiu um bom dono!
-E bonito também!
Todas nós rimos desse comentário. Passamos as horas seguintes falando besteira e jogando conversa fora. Infelizmente, elas tinham que sair. Algumas voltariam para casa, e outros iriam ao centro de escravos.
Cantamos o parabéns, cortamos o bolo e os convidados foram embora. Isso indicava que logo eu voltaria também.
Ajudei a minha mãe a arrumar tudo e fui ao meu quarto para poder sofrer de nostalgia.
O quarto estava do mesmo jeito que me lembro. Vi todos os meus livros na estante, minha escrivaninha e minha cama, onde eu deitava todas as noites e agradecia por ter mais um dia de liberdade. Com exceção de uma noite, quando fui comprada por Makoto, o travesseiro sabe o quanto chorei.
Joguei-me na cama e respirei fundo. Pensei em tudo o que passei. Foi ruim, mas poderia ter sido bem pior. Minhas amigas têm razão: tirei a sorte grande, consegui um bom dono.
Makoto entrou.
-Kazuko, hora de voltarmos.
Sabia que isso chegaria. Levantei. Ele continuou:
-Este era o seu quarto?
-Era!
-É bem a sua cara! - comentou com sorriso no rosto – Se quiser pegar algo para levar.
-Posso?
-Claro que pode. Estou te esperando lá em baixo.
Só peguei alguns livros que estava com vontade de ler de novo e os meus presentes. Despedi-me de mamãe.
-Tchau, mãe. Foi tão bom te ver.
-Também acho, filha. Feliz aniversário de novo e se cuide em, fiquei assustada com essa história da gravidez.
-Eu sei. Se eu pudesse conversar com você quando aconteceu. Mas o que podemos fazer, né, mãe? Eu não comando a minha vida.
-Adeus, Sra. Saiko.
-Tchau, Makoto. Foi um prazer te conhecer.
-Igualmente.
Abracei-a forte e entrei no carro. Makoto me perguntou no caminho se eu me diverti, respondi que sim. Cheguei a casa e estava organizando meus presentes no quarto. Logo, Makoto me interrompeu para o jantar que Keiko deixara pronto, pois foi embora mais cedo. Iria voltar ao que fazia, contudo Makoto pediu minha presença no quarto.
-O que foi, Makoto?
-Ainda estão faltando alguns presentes meus.
-Achei que a festa fosse o meu presente.
-Também. Só que tem mais coisa.
Eu me aproximei da escrivaninha dele e tinham três embrulhos. Um maior, um médio e um mais comprido, porém fino. Escolhi o maior primeiro. Era um computador portátil. Uma caixa que ser ligada projeta a imagem para frente e seus mecanismos de uso (mouse e teclado) são projetados do outro. Um computador holográfico. Abri um sorriso e agradeci. Fui ao próximo, de tamanho mediano. Este era um celular, tão fino e transparente quanto uma placa de vidro. Agradeci novamente e questionei:
-Para quê tudo isso, Makoto?
-Calma! Abra o terceiro presente.
Fiz o que ele disse e quase cai para trás. Era um documento. Seria uma carta de alforria? Não! Quando li melhor vi que era só para “liberdade diurna”. Havia uma espécie de identidade com uma foto minha.”
Isto foi o motivo que me fez chegar mais tarde em casa. É algo que existe, mas, como é raro, é bem complicado de fazer.
“-Liberdade diurna? O que significa isso?
-Quer dizer que pode sair daqui durante o dia. Passear, visitar seus parentes e o que mais quiser.
-Sério? - falei empolgada
Ele assentiu.
-Obrigada, Makoto. - abracei-o, mais feliz do que podia imaginar
Quando desvencilhei dele, ele estava sorrindo e me olhando nos olhos. Ficou parado por uns segundos, antes de se aproximar e me beijar. Exatamente isso: ele me beijou! Puxo-me para perto de seu corpo e eu correspondi aos movimentos dele instintivamente. Não sei o porquê!”
Esse beijo não estava no script. Foram os meus sentimentos por Kazuko já aparecendo.
“O momento que nos separamos foi uma troca de risos bobos e Makoto dizendo que faltava ainda mais uma coisa. Mandou-me deitar na cama e assim fiz.
Tirou apenas a parte de baixo das minhas roupas. Masturbou-me um pouco com os dedos. Pensei que ele arrancaria as calças e começar o que interessava, mas não. Ele dirigiu a cabeça para minhas partes íntimas e eu senti uma lambida em seguida. Não achei nojento, aquilo me excitou. Ele continuou fazendo. Lambia, sugada, mordiscava, explorava cada canto daquele lugar. Eu respondia com gemidos agudos que começavam a me secar a garganta.
O dedo voltou junto com a língua depois, o que aumentaram ainda mais os meus sons. Ele manteve o ritmo por alguns minutos, até que eu senti um calafrio subir na espinha e eu soltei o gemido mais forte que consegui. Makoto saiu com sorriso malicioso e comentou:
-Você gozou. Achei que tinha enferrujado nisso. Pode colocar sua roupas e voltar pro seu quarto.
-Makoto! - chamei-o – Vem! Faça isso comigo.
-Como é que é?
-Transa comigo!
Ele podia bem me ignorar, mas acho que os meus gemidos o excitaram. Penetrou e começou os movimentos de vai e vem, devagar e acelerando logo em seguida. Não tinha controle dos sons que emitia, eles apenas saíam, a cada estocada que Makoto dava. Eu devia estar mais sensível que o normal.
Após alguns minutos, ele finalmente gozou, deitou-se sobre mim, tentando recuperar o fôlego. Pude ouvi-lo sussurrar:
-Kazuko.
Sorri por dentro. É uma sensação boa quando dizem o seu nome nessa circunstância.
A atitude seguinte dele me impressionou. Levantou e me deu outro beijo, este que foi tão bom quanto o anterior. Dessa vez não teve nenhum riso. Ele me olhou sério, saiu de dentro de mim e se ajeitou, ficando de barriga para cima. Colocou a minha cabeça sob o seu peito, desejou-me boa noite e adormecemos.
Eu ainda estou tentando entender o porquê dos dois beijos. Admito que gostei! Só quero saber os reais motivos dele para tal.
Agora, tomarei meu banho matinal.”
Os motivos para tudo isso foram eu simplesmente querer ver Kazuko bem, ainda mais depois do que ocorrera. E também já estava me apaixonando por ela. Só não sabia disso ainda!

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Capítulo 24 - Depressão

Passaram-se alguns dias e eu não tive tanto tempo para ler o diário. As coisas no escritório me deixavam cansado. Só tinha disposição para ler uma anotação por dia. Minha sorte é que elas eram bem pequenas.
Kazuko estava passando por um momento depressivo, ainda se mostrava muito abatida com a perda do bebê. Os dias dela já eram sempre os mesmos, depois do acontecido ela não tinha ânimo para nada. Ela se comportava bem diferente do que realmente é. Agora ela está brincando com o nosso filho e ele só sorrisos.
Tirei o diário da gaveta, sentei na cama e fui ler outra anotação.
“Querido diário,
Os meus dias parecem cada vez mais arrastados. Os minutos e as horas passam muito mais devagar do que realmente eu sinto. Fico bastante tempo devaneando ou tentando me distrair, quando acho que se passaram horas foram apenas alguns minutos.
O que aconteceu alguns dias atrás ainda perturba a minha mente. O pesadelo e depois todo aquele acontecimento onde perdi o bebê. Makoto em momento algum me culpou ou me deu um sermão, dizendo que não me cuidei direito e contrariei as regras explícitas dele.
Ele também não tem me chamado para o quarto nos últimos dias. Nós mal temos conversado, só nos cumprimentamos.”
Eu sabia que ela precisava desse tempo, desse espaço. O baque que ela tomou foi bem mais forte que o meu. Afinal, foi ela quem engravidou e perdeu depois. Eu apenas assisti tudo. Não queria importuná-la fazendo-a ficar no quarto comigo. Era óbvio, por conta das circunstâncias, que era algo que ela não gostava.
Ela realmente precisava de um tempo, mas já começava a achar que era “tempo demais”.
“Ele até pergunta como estou e eu respondo com um “Bem”. Monossilábico, seco e que acaba com qualquer possibilidade de continuar a conversa. Apenas assente e continua a comer.
Apesar de tudo, a Keiko ainda é uma ótima companhia. Com ela o tempo não é uma coisa amarga como quando estou tentando pegar no sono. Keiko consegue arrancar alguns sorrisos e risadas minhas, porém ela sabe bem o quanto estou abatida. Até tenta me animar, só não adianta muito.
E desta forma, como descrevi nos outros dias, meus dias se passaram.
Eu realmente estou em um momento depressivo e não tenho ideia de como sair.”
Eu já não aguentava mais vê-la dessa forma. Kazuko sempre foi sorridente e cheia de palavras. Mesmo sendo pobre e ter virado escrava, ainda encontrava maneiras de sorrir. Não suportava mais vê-la com aquela cara triste, se arrastando daquele jeito. Sentia saudade do sorriso e da risada dela, daquelas palavras animadas que dizia.
Agora ela ficava com aquela cara fechada, monossilábica e séria. E até eu estava começando a ficar mal com aquilo. Tinha que fazer algo antes que começasse mesmo a me afetar ou Kazuko tomasse uma medida drástica.
“Com tudo isso, eu também perdi noção do tempo. Olhei o calendário e notei que meu aniversário de dezoito anos é daqui alguns dias. E pela primeira vez na minha vida não estou nem um pouco animada quanto a isso.
Meu aniversário sempre me foi motivo de alegria. Pessoas reunidas por minha causa, presentes e bastante comida. A única ocasião onde os pobres não tem miséria, porque sempre queremos que sejam coisas inesquecíveis. Um momento para esquecer a nossa vida ruim, mesmo que só um pouco. Mas, este ano, o que eu tenho a comemorar? Eu sou escrava e acabei de passar por uma situação horrível.
Gostaria muito de poder voltar no tempo e mudar o que aconteceu. Não o que aconteceu na semana passada, mas sim o que foi há quase seis meses. Queria de alguma forma impedir que Makoto viesse e me comprasse. Com certeza tudo seria diferente se aquele dia fosse diferente. Estaria animada como sempre fui e muito empolgada cursando a faculdade.
Eu queria passar o aniversário com a minha mãe e com as minhas amigas. Poder ficar jogando conversa fora, rindo de coisas bobas e esquecer dos problemas. E mais tarde, poder abrir os meus presentes e me sentir mais feliz ainda.
Pena que nunca acontece como queremos. Agora eu estou aqui presa. Tudo o que mais quero é minha liberdade, só isso! Voltar a ser aquela Kazuko feliz, sorridente e livre.
Infelizmente, nada disso depende de mim.”
Segui para a anotação seguinte, que diferente da que acabara de ler, era pequena.
“Querido diário,
perdoe-me o desabafo ontem, estava precisando. É só com você que posso fazer este tipo de coisa. Só me sinto confortável aqui.
Meu dia de hoje foi como sempre, acordei, tomei café da manhã, ajudei Keiko nos serviços de casa... Uma coisa estranha é que Makoto chegou bem mais tarde do que o habitual. Ele disse a Keiko que acabou ficando um bocado ocupado no escritório. Eu não acreditei muito não! Não sei o porquê, mas eu senti que ele mentiu. Ele não aparentava cansaço como descreveu.
Aí tem algo!
Agora, eu dormirei.”
Neste e em mais alguns dias que se seguiram, eu cheguei um pouco mais tarde em casa. Justamente porque estava tomando uma atitude. Uma atitude pelo bem de Kazuko.
Ela iria ter um aniversário que nunca esqueceu.

sexta-feira, 27 de março de 2015

Capítulo 23 - Grande Trauma

Só pude ler novamente quando voltei do trabalho. Troquei de roupa, peguei o diário e me sentei no sofá. Li uma anotação bem semelhante à do dia anterior. Quando acabei, Kazuko se sentou ao meu lado e ligou a TV.
-Que parte você está lendo? - disse espiando – Ah, essa parte. Eu não gosto muito de lembrar desse dia.
Sabia bem a que dia ela se referia, pois eu dei uma espiada em algumas linhas lá embaixo. Comecei da linha seguinte.
“Diário,
Eu nem sei nem por onde começar a dizer tudo o que aconteceu ontem à noite. As lágrimas e a culpa não saem de mim.
Tive um dia bem normal e estava me sentindo ótima. Eu adormeci rápido a noite e foi então que este pesadelo começou. Na verdade, no início parecia um sonho como qualquer outro.
Colocava o bebê para dormir, carregava-o em meus braços. Os olhinhos dele abriam e fechavam, até finalmente dormiu. Observei seu rosto sereno e uma coisa estranha aconteceu. Uma brisa soprou atrás de nós e o bebê começou a se desfazer, como se fosse areia.
Assustei-me e perplexa, o vi sumir diante de mim. E não pude fazer nada. Tentei gritar no sonho, mas aconteceu de eu acordar gritando. Foi tão forte que me secou a garganta. Makoto levantou num pulo e perguntou:
-Kazuko, o que houve? - então acendeu o abajur e pude ver uma expressão de aflição em seu rosto quanto olhou em direção as cobertas.
Foi aí que eu senti e vi. Uma sensação idêntica a quando minhas regras vêm e sangue. Apesar da pouca luz dava para ver, nitidamente, que era sangue, os lençóis são claros.
O desespero veio, uma grande dor também e só consegui chorar. Makoto me chamou e falou, segurando em meus ombros:
-Temos que ir ao hospital agora. Se troque depressa e vamos.
Fiz conforme ele mandou. Coloquei um vestido simples e saímos. As lágrimas e nem a dor não paravam. Ele parou o carro, levantou me rosto e me disse:
-Kazuko, tá tudo bem!
Assenti concordando e seguimos.”
Eu não queria pensar no pior nesse momento. Tinha esperanças de que ela não abortara. Também estava desesperado e nervoso, porém eu tinha que mostrar segurança e apoiar Kazuko.
“Por sorte, Rin estava no hospital, pois uma de suas pacientes encontrava-se em trabalho de parto. Durante a triagem, eles a chamaram para me atender.
-Boa noite, Kazuko, Makoto!
-Boa noite! - respondemos em uníssono
-E o que aconteceu? - indagou Rin, próxima de mim e me olhando
-Ela teve um sangramento.
-Muito sangue? Pouco sangue?
-Bom, o lençol ficou razoavelmente sujo.
-Ok! Vamos ter que ir a máquina de ultrassom para ver se está tudo bem.
Fizemos conforme ela disse.
Eu me deitei na maca e ela pôs aquilo na minha vagina. Mexeu por um tempo e pude pressentir pelo olhar dela que vinha uma má notícia. Não tive coragem de perguntar, quem o fez foi Makoto:
-E então?
-Eu lamento. - ela virou-se para ele – Kazuko sofreu um aborto.
A única coisa que consegui fazer foi chorar, apenas uma lágrima solitária caiu. Rin discursou o resto dos procedimentos:
-Kazuko, vou te colocar em observação até amanhã. Vamos ver se vai sair alguma coisa, caso não mandarei fazer a curetagem para tirar o que ainda estiver dentro de você e também para estancar esse sangramento. Com licença! - e saiu
Então desabei de novo. Makoto estava parado ao meu lado. Seu olhar parecia perdido e triste.”
Eu ainda estava em choque com a notícia repentina. Não sabia como reagir, só não queria era chorar diante dela.
“-Makoto! - chamei-o tocando em sua mão
-Oi, Kazuko. - falou sentando-se na maca e olhando para mim
-Me desculpa.
-Pelo quê?
-Por ter perdido o bebê.
-Kazuko, já te disse que está tudo bem. - apertou a minha mão – Estamos juntos nisso, lembra? - assenti – Então, não fiquei assim.
-Tentarei fazer o meu melhor. - sorri um pouco
-Sendo assim está bom.
E não falamos mais nada. Ficamos nos olhando, um clima meio desconfortável até chegarem para me levar ao quarto. Makoto me acompanhou até lá. Fiquei algumas horas em observação e nada aconteceu. Acabaram me levando para fazer a curetagem. Ele não pode ir comigo.”
Vi Kazuko sendo levada na maca. Eu sai dali e fui ao banheiro, era o único lugar onde poderia ficar sozinho.
Adentrei em um dos boxes e, fora do meu controle, as lágrimas caíram em silêncio. Todo o choro que segurei na frente dela caiu naquele momento.
Também fiquei triste por ela ter perdido o bebê. Assim como ela, já estava imaginando a vida com ele. Nós dois ainda estávamos assimilando e acostumando a ideia de termos um filho juntos. Foi um choque ao descobrir e outro choque ao perder.
Todos esses sentimentos escorriam por meus olhos. Com certeza, isso foi um grande trauma para mim e para Kazuko.
“Levaram-me para uma espécie de sala de cirurgia e a própria Rin estava lá me esperando. Ela veio me explicar o que faria:
-Kazuko, eu vou te anestesiar. Vai dormir uma meia hora. Talvez acorde um pouco dolorida, mas isso é normal. Alguma pergunta?
-Eu vou para o quarto depois disso?
-Sim!
Então, ela me deu a anestesia e eu apaguei.
Quando dei por mim já estava no quarto. Makoto e Rin conversavam, mas só ouvi uma fala da conversa:
-Quando a menstruação dela voltar, podemos retornar com o anticoncepcional.
Rin saiu.
-Parece que acordou. - falou ele – Como se sente?
-Bem, apesar de meio sonolenta.
Ele se sentou na cama e eu perguntei:
-O que a Rin tava falando com você?
-Sobre o que aconteceu. Ela me disse que o bebê ainda estava dentro de você. Só que ele descolou na parede e foi parar no colo do seu útero.
-Por isso eu sangrei daquele jeito.
-É! Foi!
-Ela disse em quanto tempo eu posso me recuperar?
-Entre dois ou três meses.
Ele baixou o olhar e ficou acariciando a minha mão.
-Makoto, - soltei, ele levantou a face – se quiser, podemos tentar de novo.
Por que eu falei isso?
-Não precisa, Kazuko. Lembra que eu não quero filhos agora?
-Lembro sim. Mas, eu pensei que tivesse mudado de vontade.
-Eu só me conformei com o houve. Aceitei a ideia de ter um filho.
-Eu também, Makoto.
-É melhor descansar, teve uma noite cansativa.
-Cansativa? Acabei de acordar de um cochilo.
Foi só nesse momento que eu notei, Makoto estava com os olhos vermelhos e visualmente abatido. Não aparentava mesmo estar conformado com o ocorrido. Parecia que também havia chorado.
-E esses olhos vermelhos? - indaguei
-É só sono, só isso.
-Melhor descansar um pouco. - olhei as horas no relógio – E o seu trabalho?
-Eu falo com o meu chefe, você sabe que ele é bem compreensivo.
Apenas concordei. Makoto saiu em seguida e o ainda efeito da anestesia me fez dormir de novo.”
Eu liguei pro meu chefe na hora que costumo sair de casa para trabalhar e lhe contei toda a história. Ele se mostrou triste por mim, afinal, ele já passou por isso também.
“Acordei porque o Sol me incomodava. Ele já estava razoavelmente alto no céu, pelo que percebia. Cobri parte do rosto com a mão e olhei para o sofá ali perto. Makoto dormia sentado, com uma postura firme e braços cruzados.
A enfermeira entrou no quarto trazendo meu café da manhã. Sua voz acabou despertando Makoto abruptamente.
-Bom dia, Srta. Hirasawa.
-Bom dia. - respondi
Ele também respondeu, entre dois bocejos.
A enfermeira ajudou-me a me ajeitar na cama, posicionou a mesa e saiu. Foi então que Makoto se levantou e veio falar comigo.
-Dormir bem?
-Sim. O efeito da anestesia ajudou um pouco. E você?
-Mais ou menos. Aquele sofá não é muito confortável.
Tentei um sorriso, mas não estava com tanto ânimo para tal. Minha mãe veio a minha cabeça.
-O que foi?
-Só queria a minha mãe aqui. Queria conversar com ela.
-Eu posso trazê-la aqui para te ver.
-Não, Makoto, não precisa. Eu não quero incomodá-la.
Comi após isso. Passei o resto do dia em observação, apenas para certificarem que eu não voltaria a sangrar. Sai quase amanhecendo de novo. Viemos direto para casa e Makoto teve que pedir folga ao chefe de novo.
Ao chegarmos, só me veio uma vontade de ficar sozinha. Fui a caminho do meu quarto, Makoto me interrompeu:
-Onde vai, Kazuko?
-Pro meu quarto. Eu só quero ficar sozinha!
Ele não disse nada e também não era para isso mesmo.
Eu já chorei bastante e ainda preciso chorar. Não faço ideia de como tirar essa tristeza e culpa de mim. Achei que desabafar aqui fosse melhorar, mesmo que um pouco, mas não adiantou.
Só espero que o tempo consiga curar esta ferida.”
Era o fim da anotação.
Eu permiti uma lágrima solitária cair, apenas por conta das lembranças. Deixei o diário de lado e Kazuko me consolou.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Capítulo 22 - Atitudes

Minha esposa me chamou para o jantar, acabei ficando por lá até a hora de deitarmos. E como eu e nem ela estávamos muito afim, fui ler mais um trecho do diário.
Kazuko, na época do diário, estava completamente chateada comigo. Eu não sabia o motivo (pelo menos até algumas horas atrás) e tinha que resolver isso. Essa anotação data do dia seguinte.

“Querido diário,

Está um lindo Sol lá fora, pena que eu não posso sair.
Ontem foi um dia, eu diria, um tanto estranho. Makoto está com umas atitudes que me deixam com a pulga atrás da orelha.
Eu ainda fiquei meio chateada com o ocorrido. Aquele maldito sussurro de nome alheio do Makoto. Ele percebeu que eu estava meio para baixo e tirou o dia para me dar um tratamento digno.
O próprio me acordou, e ao despertar, pude ver que ele trouxe o café da manhã na cama.
-Bom dia, Kazuko! - falou com um sorriso
-Bom dia, Makoto. - bocejei – Para quê isso? - apontei
-Você ficou meio mal ontem, só quero te agradar.
-Obrigada. - sorri
Acha mesmo que seria mal educada ao ponto de não agradecer?
Comemos junto ali mesmo, e em seguida, iria tomar meu banho matinal.
-Por que não usa a banheira daqui?
-Até que não é má ideia.
Adentrei ao banheiro da suíte e enchi a banheira, sem me esquecer de colocar os sais de banho de minha preferência. Tirei a roupa e entrei, sentei e reclinei a cabeça, respirei fundo. Ouvi a voz de Makoto em seguida:
-Eu posso tomar banho com você?
Ele me perguntou? Foi isso mesmo?
-Pode! - não podia responder de outra forma
Ele se despiu e sentou-se atrás de mim, me abraçando. Que coisa desconfortável!
Pôs o queixo na curva do meu pescoço e indagou:
-Por que você chorou ontem?
-Hormônios.
Eita porra de desculpa esfarrapada.
-Entendo.”

Eu realmente caí nessa desculpa. (risos)

“Suas mãos estavam sob a minha barriga, acariciando o bebê.
-Engraçado... Você não tem vomitado mais.
-Eu já acostumei. Só tô um pouquinho enjoada porque acabei de comer.
Peguei o sabonete e comecei a limpar os braços e peito.
-Deixa que eu passo nas suas costas. - se pronunciou
Entreguei o sabonete a ele que passou nas minhas costas.
-Quer que eu lave as suas também?
-Deixo você me ensaboar todo. - falou rindo”

Vai dizer que não é bom quando alguém dá banho em você?
Eu estava aproveitando para ter alguns momentos mais afetivos com a Kazuko, afinal, nós teríamos um filho juntos. E também havia essa história de “encararmos isso juntos”. Desde sempre quis ter uma relação mais próxima com ela, e esta estava sendo a oportunidade perfeita.

“Realmente, o que deu nele?
Eu me enxaguei e passei o sabonete em Makoto depois.
Fui ao meu quarto e troquei de roupa. Dirigi-me a biblioteca e peguei alguns livros de gravidez, tudo por curiosidade. E não esqueci do meu chá.
Fiquei algumas horas lendo, sentada no sofá. Não percebi o tempo passar, só ouvia Makoto mexendo com as panelas e outras coisas. Também sentia o cheiro da comida. Ele me chamou:
-Kazuko, almoço.
-Não sabia que você fazia sopa.
-Keiko me ensinou. Temei para acertar, agora sempre dá certo.
Era uma simples sopa de legumes, mas que estava uma delícia. Eu até repeti, coisa que não costumo fazer.
-Parece que tá com fome, hein.
-Acho que comendo por dois, não é uma coisa estranha. - soltei um bocejo – E também esse sono interminável...
Makoto sorriu.
Eu saí da mesa e me deitei no sofá. Acabei adormecendo. Acordei com Makoto me chamando e me pedindo para trocar de roupa. Íamos dar uma volta, já que ele estava sem a costumeira “roupa de casa”. Fiz conforme ele disse. Parecia que preparara algumas coisas para comermos. Será que iríamos tão longe assim?
Ainda era o meio da tarde quando saímos. Makoto saiu da cidade e começou a subir a montanha. Curvas e mais curvas. Elas estavam me deixando enjoada. Já conhecia aquele caminho, só não recordava dele tão nitidamente. Fomos para lá durante a noite. O mesmo lugar onde vislumbrei a vista noturna da cidade.”

Pois é, eu e Kazuko gostamos muito deste lugar. Já perdi as contas de quantas vezes fomos lá.

“Chegamos, e ele estacionou o carro, tirando as coisas da mala em seguida. Montou um piquenique em baixo de uma das árvores.
Olhei surpresa para ele.
-Piquenique, Makoto?
-É! E também veremos o pôr-do-sol. Que foi? Que cara é essa?
-Eu nunca fiz um piquenique antes. Bem, do “meu lado da cidade” mal tem árvores.
-Sei disso! - sorriu – Porém, nunca é tarde para uma primeira vez. - fez um gesto para que me sentasse – Trouxe uns sanduíches, sucos, frutas e bolo
-Oba! - comentei”.

Vocês devem ter uma curiosidade sobre como é o “meu lado da cidade” que Kazuko tanto falava. Permitam-me esclarecer.
A cidade onde moramos, Ioma, é dividida em dois lados: O “rico” e o “pobre”.
O lado rico é constituído por muitos prédios altos e mais adiante, as casas. Podemos ver o céu limpo por entre os prédios cinza-claro. As ruas são limpas, claras, com árvores e bastante trânsito. Muitas pessoas dia e noite. Já o lado pobre, também tem muitos prédios e casas. Porém, não há quase natureza alguma. O céu lá é sempre cinzento e chove na maioria dos dias. As ruas são cheias de sujeira. Realmente lá tem um ar mais sombrio, principalmente à noite, quando as ruas são mais vazias e os centros de escravos estão abertos.

“Comi algumas coisas e o sono veio, outra vez. Bocejei.
-Quer descansar? Deita aqui. - falou Makoto, sinalizando o seu colo – Só não durma, senão vai perder o Sol se pondo.
Bem, era melhor deitar no colo dele do que na toalha esticada na grama. Assim o fiz, e ele começou a mexer em meus cabelos e perguntou (algo até normal pelas circunstâncias, mas estranho por ser para mim):
-Então, Kazuko, você pensou em um nome?
-Nome?
-Para o nosso filho.
-Ah, pode ser o nome que você quiser.
-Mas não chegou a pensar em nenhum?
-Pensei sim. Se for menina: Kimiyo. Se for menino: Kazuhito.
-Eu gosto de Takumi.
-Takumi? É um belo nome.
-Sempre imaginei que teria um filho com esse nome, mas gostei dos que escolheu.
-O próximo pode se chamar Takumi.
-Próximo? - ele quem se chocou dessa vez
-Não vai querer outro no futuro?
-Claro que sim! - ele respondeu, encabulado – Mas não é hora de pensar nisso.
-Eu só comentei, Makoto. - falei rindo
Ficamos alguns minutos em silêncio.
-Olha, Kazuko, hora do pôr-do-sol. - ele me chamou
Levantei, e passamos a observar a paisagem. Eu vi o Sol se escondendo devagarzinho por entre as montanhas. Era laranja e amarelo, misturado com o verde das árvores. Uma vista tão bonita quanto as luzes noturnas do outro dia. Nunca vi o Sol se pôr de maneira tão nítida e bela. É muito difícil vê-lo por entre todos os prédios. Eu me permiti chorar, não sei o porquê, só chorei.
-Kazuko, tá tudo bem?
-Tudo bem, Makoto. - respondi, enxugando as lágrimas – Eu jamais vi nada igual a isso na minha vida.
Ele me abraçou, me consolando e proferiu em seguida:
-Acho que viver do lado pobre da cidade te privou de muitas coisas simples.
Não disse mais nada depois disso. Eu chorei por mais uns minutos e quando já estava escuro, voltamos para casa.
Comi mais um pouco da sopa e fui ver algo na televisão e acabei pegando no sono. Despertei sentindo o meu corpo sacudir, como se se alguém me carregasse. E era isso mesmo. Makoto me levava até a cama. Ele viu que eu abrira os olhos:
-Desculpe. Eu te acordei. Já vai poder dormir de novo, estamos chegando.
Ele abriu a porta do meu quarto com o pé, já que estava entreaberta. Colocou-me na cama e se deitou ao meu lado. Desejou-me boa noite, me deu um beijo na testa e eu apaguei de novo.
Levantei hoje com ele me chamando. Fizemos todas as coisas rotineiras e antes de se despedir, ajoelhou-se diante de mim e beijou a minha barriga. Tudo bem que eu permiti, só que eu fiquei muito envergonhada da Keiko ter visto essa cena.
-Ai, ai. Nunca imaginei que o Makoto fosse fazer isso. Ele parece estar tão feliz pelo bebê.
Eu sorri, concordei e depois, vim para cá.
Bem, diário, agora cuidarei dos meus outros afazeres.”

E a anotação terminou, com um enorme bocejo na sequência.

Pus o diário na mesa de cabeceira e me ajeitei para dormir. Tinha trabalho no dia seguinte.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Capítulo 21 - Sociedade

Na manhã seguinte, eu tive um julgamento e retornei mais cedo para casa. Falei com Kazuko e Keiko. Dei um beijo no meu filho. Tomei banho apenas para relaxar e fui descansar mais ainda lendo outro trecho do diário.
“Oi diário,
acabei de voltar de festa de aniversário do chefe de Makoto: Yuuki. Mas tenho coisas a contar antes disso!
Acordei com Makoto na mesma posição. Tirei o braço dele e fui ao banheiro. Tomei banho com o sonho que tive na cabeça. Sonhei com um possível futuro parto, com todos a minha volta, me sufocando. Gritando para eu empurrar o filho do Makoto. Quando ele finalmente saía, todos se voltavam para ele e me esqueciam. Eu ficava ali, ofegante.
Olhei para a minha barriga e falei:
–Espero que não seja assim, bebê. - coloquei a mão – Não será como naquele sonho.
Saí, fui colocar uma roupa. Coloquei a calcinha e decidi me olhar no espelho. Notei o quanto meus seios estavam maiores e também doloridos. Virei de lado e pude perceber a protuberância da minha gravidez aparecendo. Percebi muitas mudanças no meu corpo em apenas algumas semanas.
Ele levantou e veio atrás de mim no espelho.
–Bom dia, Kazuko.
–Bom dia, Makoto. - falei me virando para ele
–Eu não tinha visto o quanto seus seios aumentaram.
–Não só os seios, o corpo todo praticamente.
–É, você engordou um pouquinho. - pegou em meus ombros e me pôs em direção ao espelho – Mas é por uma boa causa: Nosso filho. - colocou a mão na barriga, abraçando-me por trás
–Nosso não, Makoto, só seu.
–Nosso sim. Esqueceu que estamos junto nisso?
–Não me esqueci.
Posicionei minha mão sobre a dele, sorri e uma lágrima caiu do meu olho direito. - ele olhava para através do espelho.
–Não precisa, Makoto. - respondi, rindo – Eu preciso comer, para tomar o meu chá.
–Tudo bem.
Então fomos tomar café, e Makoto me disse da festa de mais tarde.
O resto do dia se passou normalmente, até que nos arrumamos e saímos para a festa.
Não era muito longe, logo chegamos. O chefe de Makoto também morava na cobertura do seu prédio. O apartamento estava cheio. Makoto desejou parabéns ao chefe e lhe deu o presente. Em seguida, fui falar com ele.
–Obrigado, Kazuko. Parabéns a você também, pelo seu bebê.
–Obrigada.
–Bebê? Como é? - era Yoko, ela aparecera
–Boa noite, Yoko. - falei – Eu estou grávida.
–Ora, meus parabéns!
Sorri, agradecendo.
Revi pessoas que foram ao aniversário de Makoto e conheci muitas outras. Nunca recebi tantos parabéns na minha vida, nem no meu aniversário.
Ele foi conversar com outros, e fiquei sentada no sofá. Só que eu tenho essa cara de escrava e chamo atenção das pessoas. Dessa vez foi da Yoko e as amigas dela. Elas se sentaram ao meu lado e à minha frente.
–Está de quantos meses?
–Acho que um mês e meio, quase dois.
–E é escrava do Makoto há quanto tempo?
–Menos de seis meses.
–Nossa, você é apresadinha em.
–Pois é, meu marido achou cedo eu ter engravidado no segundo ano de casamento.
–E tem uns três anos que estou tentando ter o meu segundo.
–E como fez para conseguir tão fácil? - outra me indagou
–Ora, só esqueci de tomar o anticoncepcional.
–O quê? Não foi intencional?
–Nem um pouco.
–Poder da juventude.
–Enquanto isso, Yoko está tentando ter o dela.
Yoko fechou a cara, detestando aquele comentário. Seu olhar se encontrou com o meu, me fuzilando. Senti o ódio que carregava. E fiquei tentando entender o porquê desse olhar ser para mim. Quem falou foi a amiga dela, não eu.
Não quis continuar ali, parecia que o se assunto se estenderia mais ao ponto de ficar desfavorável para mim. Pedi licença, educadamente, e me isolei na varanda daquela cobertura. Fiquei apoiada na sacada observando o céu noturno. Podia ouvir o som dos carros lá em baixo e também as vozes atrás de mim. Percebi alguém se aproximar e falar comigo.
–Kazuko, o que faz aqui?
–Apenas aproveitando a vista, senhor...
–Me chame de Yuuki. Mas meu sobrenome é Shimono. - falou sorrindo – Elas te pertubaram muito?
–Só aquela indagação infinita que é muito comum na minha vida. Perguntam como aconteceu, o que Makoto achou e de quanto tempo estou. Não é mais fácil simplesmente entender que estou grávida e ficar sem fazer perguntas?
–Nem faço ideia de como se sente, mas a Yoko pareceu um pouco perturbada com essa notícia.
–Deve ter notado a maneira que ela me olhou.
–Ela também falou comigo. Ela se sente impotente quando vê que alguém engravida e ela não.
–Tem muito tempo que tentam?
–Desde que nos casamos. Até adotamos o Hiro. Nós o amamos muitos, porém ele não supriu a vontade de ter um filho biológico. E bem... Ela ficou meio revoltada com a facilidade com a qual você conseguiu.
–Yuuki, eu lamento por vocês, mesmo não gostando tanto da Yoko.
–Já sei dessa história. - riu – Mas vamos parar de falar de coisas tristes, afinal, hoje é meu aniversário. E eu sei que um dia terei o meu filho em meus braços e você, em breve, também terá o seu.
–Assim será, Yuuki. - respondi sorridente
–Vou voltar para dentro, tenho que dar atenção aos meus convidados.
Yuuki retornou a festa. Outra pessoa foi a varanda: Makoto.
–O que conversava com o meu chefe?
–Nada demais.
–Não estavam falando mal de mim, né?
–E o que eu diria de mal sobre você?
–Eu sei lá qualquer coisa.
–Estávamos falando da Yoko. Há anos ela tenta ter um filho e não consegue.
–Eu já os aconselhei a fazer inseminação artificial, contudo a Yoko ainda quer que seja do jeito tradicional.
–Ela tem algum problema?
–Não que eu saiba. Só sei que ela abortou algumas vezes quando mais jovem.
–E agora que quer, não consegue.
–Bem por aí.
–Foi por isso que quis ficar com ele? - coloquei a mão na barriga
–Pode ser que você queria um filho no futuro, um aborto acaba machucando o seu corpo e prejudicando as futuras chances. Pode ser que eu queria mais um filho no futuro e não tenha sucesso. Então essa não teria sido uma oportunidade jogada fora. E é injusto com a vida que está se formando... Interrompê-la assim.”
Deu para notar, claramente, que eu sou contra o aborto, não é?
Acho que Kazuko entendeu que se ela engravidasse dez vezes, terias os dez filhos. Não permitiria que abortasse.
Já vi muitos casos parecidos com de Yoko. Abortaram antes e depois ficavam sofrendo na tentativa.
É melhor não brincar com o destino e com a sorte. Eles podem não querer colaborar de novo.
“Não fazia ideia de que ele pensava assim. Sinto-me bem sabendo que levou em conta os três lados da situação.
Um silêncio se fez, não tinha o que responder. Depois, soltei:
–Entendo. Não seria uma coisa boa matar essa criança.
Makoto sorriu e me abraçou, de forma bem parecida daquele dia lá na estrada, quando víamos toda a cidade do alto. Entramos em seguida.
Durante o resto da festa fiquei junta a Makoto, apenas acompanhando a conversa dele com seu chefe. Dava para perceber que elas eram bem amigos.
Uma mulher prestava muita atenção onde estávamos, e a todo momento olhava para Makoto. E Makoto também trocava olhares com ela. Acabou indo falar com ela e não tive como não perguntar para Yuuki:
–Quem é essa?
–É Kobayashi Kana, amiga da minha esposa. E se não me engano, ela e Makoto já namoraram.
Isso é um mau sinal. “Pode ser que tenha que dormir sozinha hoje”, pensei.
Pude ver que a conversa era bem íntima. Isto poderia me causar problemas. Aliás, o que não poderia me causar problemas pelo simples fato de ser escrava?”.
Permitam-me explicar está última observação da Kazuko. Afinal, por que tudo é problema para uma escrava?
É justamente por ser uma posição de impotência e risco constante.
Se uma escrava engravida: problema.
Se uma escrava se rebela: problema.
Posso ficar aqui citando várias situações, mas o que Kazuko quis dizer é que aquela mulher com a qual eu conversava poderia lhe causar problemas.
Quando o dono se relaciona, a escrava corre o risco de ficar de lado, esquecida. Isso, de certo ponto de vista, é ruim. O dever da escrava é satisfazer o dono. Porém, se o dono já tem um outro alguém para isso, pode acontecer a alforria do escravo. Isso é bom! Só que considerando o fato de que alguns largam os estudos, como vão seguir a vida?
É algo, inclusive, bem relativo. Cada um pensa de um jeito. Então, levarei em conta o que minha própria esposa disse: “Eu me sinto vulnerável”. Se sente desesperada e com medo de qualquer coisa que acontecer.
“Makoto ficou um bom tempo conversando com ela. Após isso, cantaram o parabéns e cortaram o bolo. Voltamos para casa.
Ao chegarmos, tomei um banho, Makoto também. E fez algo bem fora do padrão dele depois disso. Agarrou-me e atirou-me na cama. Despiu-me e fez umas preliminares bem básicas e penetrou. Assim, seco e grosso!
Foi um sexo básico e sem graça. Ele só queria descarregar. Obviamente porque viu a ex e deve ter fantasiado com ela. Ficou mais claro ainda quando balbuciou o nome dela antes de gozar.”
Eu nem me lembro disso. Que merda! (risos)
“Com outro sussurro ao nome dela foi ao lado vazio da cama.
Eu me senti péssima. Tudo bem que nunca foi algo que me completasse. Sempre sinto um vazio quando as transas acabam. Só que nessa hora, o vazio foi bem maior.
Normalmente, eu me sinto um objeto. Mas ao ouvir o nome de outra pessoa, piora essa situação.
É muito complicado de explicar!
Olhei para o teto escuro, com uma enorme vontade de chorar. Não queria que ele me visse! Levantei e caminhava a porta do quarto. As lágrimas começavam a escorrer. Makoto me chamou.
–Kazuko, aonde você vai? - falou, pegando no meu braço e então, percebeu – Espera aí! Tá chorando?
–Não é nada, Makoto. Só preciso ficar sozinha.
–Vem cá!
Tentei protestar, mas ele me alojou em seu peito, me abraçando. Começou a acariciar meus cabelos e foi aí que eu realmente desabei.
Ele não falou nada, não perguntou nada. Só permitiu que eu chorasse em seu ombro.
Quando eu me acalmei, voltamos a nos deitar. Makoto me obrigou a dormir sob o seu peitoral. Por que ele está com essas atitudes agora?
Esperei ele cair no sono e dei uma escapada para escrever aqui. Eu precisava colocar o que sentia para fora. E o único lugar possível é aqui.
Agora partirei, pois preciso dormir. E também ele não pode perceber que eu fugi. (risos)”
Kazuko entrou no quarto e me chamou para ficar com ela e Keiko lá na sala.
–Você tá muito isolado. - foi o que ela disse
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