sexta-feira, 11 de março de 2022

Capítulo 22 – Planejando a viagem

 

O domingo passado terminou da pior forma, nem eu poderia sequer supor que aquilo aconteceria.

Passei uma tarde bastante agradável na casa da família do Gustavo. Eu estava me sentindo tão bem e tão leve e veio aquele baque. Pedro simplesmente apareceu lá. A minha família e a de Gustavo moram meio próximas. Bem provável que ele estivesse passando pelas redondezas e viu meu carro estacionado. E na cabeça maluca dele resolveu – de novo – que era uma boa ideia vir falar comigo. Foi o que Pedro falou assim que me viu, se era verdade ou não, é outra história. 

Eu fiquei estática enquanto todo mundo a minha volta me protegia e defendia. O sangue de Gustavo subiu a cabeça e ele nocauteou Pedro novamente.

A situação piorou depressa até demais, pois logo surgiram meu irmão, o resto da família e também a polícia. Claro que tive que ouvir gracinha da minha mãe, tentando justificar as ações de Pedro, me dando um sermão como se eu estivesse errada em não querer ficar com ele. Sinceramente, acho que vou precisar adiantar a minha sessão de terapia para essa semana.

A polícia chegou e não deu para resolver tudo lá – e nem tinha como -, então fomos para a delegacia e acabei registrando outro boletim de ocorrência contra o Pedro. E meu ex registrou contra o Gustavo por agressão. Foi um estresse tão grande e eu só queria ir para a minha cama depois disso, pois quando saímos era mais de meia-noite já!

Eu e G saímos da delegacia e entramos no meu carro para podermos voltar para o condomínio. Nós dois estávamos com cara de cansados. Ainda bem que não passei uma maquiagem tão pesada, porque senão tinha borrado tudo. Eu chorei um bocado com toda essa situação!

- Desculpe por acabar com seu domingo. - falou Gustavo assim que sentou no banco do carona

- Não precisa se desculpar, eu agradeço por ter me defendido. E sinceramente, não foi a primeira vez que bateu no Pedro.

- Ele mereceu, como todas as outras vezes.

- Nisso eu concordo! - falei rindo de canto de boca

E dei a partida no carro, ficamos conversando no caminho.

- Tirando esse grande evento para a rua toda, gostou do almoço?

- Sim! Eu me diverti bastante. Ainda mais com seus pais me elogiando. - sorri

- O sonho deles era ter uma filha e bem, minha mãe acompanha o blog por minha causa.

- Posso te declarar meu fã número nº1, G?!

- Pode e deve! - riu – Aliás, chegou a ver algo da viagem?

- Nem deu tempo, fiquei trabalhando no livro. Se tiver cabeça, até vejo amanhã.

- Você sabe que eu ainda estou com a grana meio curta para viajar né? Não pode ser num lugar tão longe, H.

- Eu sei! Vou ver um lugar que fica no máximo umas quatro horas de carro.

- Estou ansiosa para isso, devo confessar.

- Também! Ainda porque vamos poder passar um tempo juntos. Não que já não façamos isso…  - tentei me justificar

- Viajando é diferente! Eu entendi. - ele sorriu – Lembra: sem pressa tá?

Depois disso, o assunto se encerrou. Gustavo consegue acalmar meu coração sempre que diz isso. Acho que deve ser por isso que nossa amizade colorida funciona tanto, a gente só curte os momentos. Contudo, estamos chegando numa altura em que um está começando a sentir algo mais pelo outro. Eu tenho certeza que o G está da mesma forma que eu com relação a ele. Só que temos medo de dar o próximo passo. Eu pelos meus traumas. Já para Gustavo não consigo imaginar os motivos, talvez esteja esperando só o meu tempo mesmo.

Colocamos uma música no carro e viemos cantando o resto do caminho. Estávamos precisando depois daquela merda toda! Acabamos nos distraindo e logo chegamos ao condomínio. Estacionei na minha vaga e subimos juntos no elevador.

- Vai trabalhar amanhã? - perguntei a elevador

- Não tão cedo quanto outros dias, mas tenho certeza que estarei bem cansado quando o dia acabar.

- Mais sessões de fotos?

- Sim! Mas são todas no mesmo lugar, pelo menos isso.

- No parque?

- Sim! São umas fotos de debutante, de grávida, essas coisas.

- Ah, que legal! Isso me lembra da minha formatura na faculdade. - sorri – Como estava feliz tirando foto com a beca.

- Recordo da minha também. Ah, bons tempos os da faculdade.

A porta do elevador se abriu e nos despedimos.

- Bom trabalho para você amanhã. - falei, dando um beijo em sua bochecha

- Para você também! - e me deu um selinho – A gente se vê amanhã?

Assenti e seguimos cada um para um lado do corredor. Só cheguei em casa e tomei um banho antes de cair na cama.

***

Levantei no dia seguinte e já peguei o computador, durante o meu café da manhã já fui pesquisando os possíveis locais para a nossa viagem e sessão de fotos. Fui fazer isso logo, porque não queria ficar remoendo o ocorrido do dia anterior.

Pensei em um lugar com praia ou até na montanha, bastante luz natural, uma casa ampla para também ser um cenário e também um local bem reservado, por motivos bem óbvios. Queria ficar à vontade para tirar as fotos e continuar preservando a minha identidade como a Echii. Talvez um dia eu revele quem eu sou para todos os meus leitores e seguidores, mas ainda me falta a segurança e confiança para tal. Quem sabe não conte a alguém da família primeiro? A minha irmã?

Estou distraída olhando fotos e anúncios de vários lugares, um mais lindo que o outro, até que meu celular apita com uma mensagem, justamente da pessoa que pensei: Marina, minha irmã.

“Irmã, acabei de saber do que houve ontem. Como você está?”

“Bem, na medida do possível. Com certeza, mamãe já te contou todos os pormenores.”

“Até demais, incluindo o sermão e fez questão de falar de que recebeu seu amigo aqui e ele faz isso com uma pessoa que é outro filho para ela.”

“Já cansei dessa falta de noção dela.” 

“O pior é que foi por ligação. Achava que era algo importante e ela me prendeu por 15 minutos. Sorte que estou de folga hoje.”

“Não pode deixar ela falar muito, irmã. Se bobear, fala da vida de todo mundo, sempre foi assim.”

“Eu sei. Só fiquei ouvindo porque fiquei preocupada mesmo… Até porque o Pedro te persegue desde que terminaram. Fico com medo de que aconteça algo contigo.”

“Dessas últimas vezes, o Gustavo estava comigo. Foi sorte!”

“Daria tudo para ver a cara arrebentada do Pedro.”

“Foi bem feio! Ele só desmontou no chão. Se não estivesse tão nervosa, teria sido uma cena engraçada.”

“Enfim, irmã, só mandei mensagem para saber se você estava bem. Saiba que qualquer coisa, pode contar comigo.”

“Sei disso, irmã. E é recíproco. Qualquer coisa, estou aqui.”

“Beijos, mana!”

“Beijos!”

Larguei o celular e continuei com a minha pesquisa. Separei uma pequena lista   de alguns destinos interessantes de ir, porém eu queria uma opinião do Gustavo também e mandei todos os que me interessei através de mensagens, falando:

“Oi, G! Mandando algumas sugestões de lugares que podemos ir.”

Levou alguns minutos – devia estar ocupado - mas ele respondeu:

“São todos lindos, H. Se fosse só este quesito, seria complicado escolher. Mas, pensando no meu bolso, as escolhas diminuem.”

“Eu cubro os gastos se precisar.”

“Nada disso. Nós vamos dividir! Essa sessão de fotos é um projeto nosso.”

“Tá bom! Não vou insistir.”

“Praia ou montanha? Prefiro praia, tem mais luz natural. E podemos aproveitar para tirar bastantes fotos de biquíni.”

“Pensou o mesmo que eu!”

“Devo admitir que selecionou bem, pelo pouco que consegui ver aqui. Estou vendo na correria mesmo, meu intervalo está acabando.”

“Não precisa fazer agora. Mandei para dar uma olhada depois. Podemos escolher mais tarde.”

“Mas eu sou ansioso, quis ver logo o que você escolheu. Haha Como já disse, gostei das opções. Vemos isso melhor quando nos encontrarmos mais tarde.”

“Te espero mais tarde para decidir os detalhes então. Beijos, G!”

“Beijos e até mais tarde, H!”

Com isso já meio encaminhado, resolvi tirar o resto do dia para ver mais coisas do livro, arrumando mais um dos contos que vão para a coletânea e organizando a minha agenda de postagens da semana na Contemporânea Erótica.

sábado, 5 de março de 2022

Capítulo 21 - Conflito

 

Finalmente foi o dia do almoço de domingo na casa dos meus pais e eu trouxe a Helena comigo. Eles ficaram muito felizes de conhecê-la! Indiretamente, acabaram elogiando o trabalho dela com o blog. Confesso que fiquei olhando para ela enquanto minha mãe falava e não pude evitar de abrir um pequeno sorriso. Que droga! Acho que eu tô muito “na dela”!

Enquanto ela foi ajudar mamãe a arrumar tudo, fiquei na sala conversando com meu pai e meu irmão.

- Ela é bonita, irmão! - falou Luís – Tão namorando?

- Não, ela é só uma amiga. - por que as pessoas pensam logo nisso?

- Mas, você está apaixonado por ela né? - meu pai foi direto – Tá estampado na tua cara!

- É tão óbvio assim? - suspirei – Eu sou tão besta! - passei a mão no rosto

Ambos riram de mim.

- Ai, mano, você sempre foi assim. - meu irmão completou – Eu fico feliz de pelo menos ter trazido uma aqui em casa antes dos 30. - riu de novo – Ou seja, eu perdi a aposta com papai.

- Como é? - indaguei cruzando os braços – Apostando pelas minhas costas? Vocês…

- Foi só uma aposta boba! - papai, desta vez – Agora, moleque, me dá meus cinquenta reais. - fez gesto pro meu irmão

- E por 50 reais? - gargalhei

- Mas, sério, mano, tô muito feliz por você. - sorriu

E nesse meio tempo o assunto acabou e meu pai acabou voltando a prestar atenção na TV, porque logo ia começar o seu programa favorito. Logo Helena e minha mãe voltaram e já iríamos embora, porque nós dois tínhamos que trabalhar no dia seguinte.

E assim que colocamos o pé para fora de casa, eis que aparece a pessoa mais improvável ou até mais provável: Pedro. Olhei para Helena e ela parecia paralisada, com os olhos arregalados, sem reação.

- Helena… Que irônico te encontrar aqui. Estava passando por aqui, vi seu carro e vim falar com você. - ele disse, com a maior cara de pau

- Falar o que? - eu perguntei logo – Acho que ela já disse tudo o que tinha para falar.

- Estou falando com ela e não com você, seu merda!

- Que eu saiba, ela tem uma medida restritiva contra você. E sabe muito bem que não é a primeira vez que você a descumpre. - inflei o peito na resposta

- Estou pouco me fodendo para a medida restritiva. É só um papel ridículo! Quero falar com a minha namorada. - falou reforçando as duas últimas palavras

Enquanto isso, Helena só observava a nossa discussão. Ela não tinha forças para fazer algo e eu senti que deveria fazer por ela. Imagino que meus pais e meu irmão não estavam entendendo nada.

- Ex-namorada! - gritei – Caralho, cara, você não se manca de que ela não quer mais nada contigo?

A situação estava escalando e eu estava com medo do que poderia acontecer, até porque eu estava na frente da casa dos meus pais, para esse cara maluco caçar minha família é um pulo! E a Helena já estava agarrada no meu braço e tremendo muito.

Porém, meu pai finalmente decidiu intervir.

- Rapaz, por favor, saia. Ninguém te quer aqui!

- Não saio até falar com a Helena.

- A menina não consegue nem falar. - minha mãe dessa vez – Olha como ela está!

- É porque ela não resiste quando me vê.

Puta que pariu, eu não acredito que estou ouvindo uma merda dessa! Esse cara…

De repente, todo mundo se assustou, pois Helena finalmente soltou meu braço e começou a falar:

- Pedro, eu já fui perfeitamente clara com você. Eu não quero mais nada! Chega de vir atrás de mim! Chega de me procurar, de me perseguir! Chega de atrapalhar a minha vida! Só me deixa em paz! - esbravejou, empurrando-o em seguida

Claro que ele aproveitou a brecha para agarrá-la a força, contudo Helena ainda ficou com a mão livre e lhe deu um tapa que estalou. Ele foi mais incisivo e a puxou com mais força e o meu sangue ferveu, eu agi sem pensar e só fui pra cima dele. Dei um soco que derrubou, igual da outra vez, mas não o levou a perder a consciência!

- Irmão, calma! - gritou Luís

- Paciência nunca tive. Você não cansa? - gritei de novo, me direcionando a ele – Talvez quando eu estourar a sua cara, você aprenda!

E claro, que algumas cabeças de vizinhos já estavam despontando da janela para ver o que estava acontecendo.

Ele se levantou, ainda cambaleando, olhou bem na minha cara e veio querer me bater. Da mesma forma que da outra vez, ele golpeou do pior jeito e que deu a abertura só para nocauteá-lo. Acertei bem no nariz dele! E ele foi para o chão e não se ergueria tão cedo.

- Meu filho! - mamãe gritou preocupada – Pra quê isso?!

- Desculpa, mãe! Eu fiquei fora de controle! Se quiser pode chamar a polícia, uma ambulância, sei lá! - sentei no degrau do portão e passei a mão no rosto

Minha mãe foi lá para dentro buscar um kit de primeiros socorros e gelo para que o Pedro pudesse colocar no nariz!

E para a surpresa de todo mundo, quem passa ali no mesmo instante? O Arthur, irmão da Helena. Não sei se ele estava dando uma volta só ou o amigo o chamou ali. Ele olhou para a irmã, que estava encostada na parede e chorando, e se aproximou, viu o amigo no chão e nos questionou:

- O que houve aqui?

- O rapaz tentou agarrar esta moça à força. Meu filho a defendeu! - papai tratou de responder

- Esta moça é minha irmã. - soltou – E vou chamar a polícia agora mesmo. Isso é um absurdo!

- Pode chamar! Eu não ligo! - falei

- De onde eu te conheço? - indagou olhando para mim

- Sou o namorado da sua irmã! Fui a casa de vocês recentemente. - respondi a ele, tomando cuidado se o ex não estava acordado

- Namorado? - ele olhou para Helena – Não disse que estava namorando ele quando foram lá em casa.

- É recente! - foi apenas o que ela disse

Esse pequeno diálogo ocorreu enquanto Arthur discou o número da polícia e esperou ser atendido. Não demorou muito e ele pediu uma viatura para resolver a situação, nem que fosse para registrar um B.O. na delegacia.

Mamãe voltou com o que foi buscar e pediu ajuda para que colocassem Pedro sentado na calçada. Ele despertou resmungando e tomou um susto com o amigo lá. O irmão de Helena informou que estava resolvendo tudo e que eu iria pagar por aquilo. Espera só até descobrirem que este cara descumpriu uma medida restritiva. Mas, é claro, eu sabia bem que eu estava ferrado!

E o circo logo se armou, porque além de ligar para polícia, o irmão de Helena chamou o resto da família. Deu para perceber como era perto, pois logo apareceram o pai e a mãe de Helena para ver a situação. Era tudo o que a gente precisava nesse momento!

Observei Helena receber um enorme sermão dos pais. Eu queria poder ajudar nessa situação, mas eu já tinha me envolvido nisso mais do que deveria. Olhava a situação e matutava o que dava para fazer, se é que era possível. E eis que óbvio surgiu na minha cabeça. Levantei-me e me virei para os dois:

- Dona Rita e seu Áureo, a culpa disso não é da Helena e sim minha. Eu quem bati nele!

- Ora, ora! - começou Rita – Se não é o seu “amigo”. Te coloquei dentro da minha casa e olha o que você apronta.

- Ele só estava me defendendo. - Helena finalmente falou, pois estava quieta apenas ouvindo os pais – Vocês não viram como o Pedro apareceu aqui, aliás, vocês não sabem a forma que ele sempre surge.

- Minha filha, ele faz isso porque gosta de você. - a mãe dela falou

- Rita, para com isso, por favor. Estou cansada de falar que não quero mais nada com ele. Inclusive, tem uma coisa que vocês não sabem…

- O que? - o pai dela indagou

- Eu tenho uma medida restritiva contra ele, justamente por causa disso.

- E com ordem de quem você fez isso? - Rita atacou

- Minha! - ela esbravejou e bufou em seguida – Esquece! Não adianta falar mesmo. Vem Gustavo!

Enquanto isso, Pedro era amparado pelo amigo e minha mãe terminou de prestar os primeiros socorros e pediu para que ele colocasse o gelo no rosto. 

Deu a impressão de que a viatura demorou, mas foi questão de dez minutos. Explicamos toda a história e mesmo com Pedro muito puto, em momento nenhum me acuei e abracei a merda que eu fiz. Ia levar uma denúncia por lesão corporal, mas ele levou por descumprir a ordem de distanciamento.

Fomos a delegacia e resolvemos tudo o que precisava, o que demorou um pouco. Por sorte, eu só ia trabalhar à tarde na segunda, já que estaria em casa.

Vamos ver mais para frente como essa “briga” vai se desenrolar. Confesso que estou curioso! Mas, com certeza, esse conflito pegou bem mal tanto para a minha família quanto para a da Helena.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Capítulo 20 – Almoço dominical

Acabei conhecendo o amigo sem noção do G. E eu não consegui ficar dois minutos no mesmo ambiente, porque o jeito dele lembra todinho o do meu ex, além de claro, reproduzir os mesmos pensamentos de muitas pessoas que estão à minha volta. E a coisa que menos quero é ter que ficar lembrando e remoendo algo que, mesmo que tenha enfrentado, ainda me fragiliza de certa forma.

Pior que Gustavo tentou me alertar, dando a indireta para que eu fosse antes dele chegar. Porém, não conhecia a peça e deu no que deu. Apesar do desconforto, não fiquei com raiva do meu amigo colorido.

Aproveitei o resto da minha semana para adiantar coisas do blog e começar com a preparação do meu livro, que vai ser com alguns contos mesmo, mas serão inéditos só para os leitores, pois boa parte deles vou aproveitar do meu caderno. Como estes contos nunca vieram a público, mesmo alguns sendo bem antigos – eram até pequenas oneshots que eu escrevi quando adolescente – vão ser novidades. Claro que vou ter um trabalhão para poder transferir do manuscrito para o computador. Vou aproveitar esse processo para revisar e quem saber não acabar alterando e reescrevendo alguns.

Confesso que um dos meus sonhos desde que comecei a publicar algumas coisas na internet – sempre usando um pseudônimo, pois a família nem poderia pensar – é poder transformar todas essas coisas em um livro. Mas, o sonho foi sendo minado e destruído por todos ao meu redor. A começar pela família que dizia que isso não dava futuro, depois o namorado, que acabava com tudo o que tentava construir sem ele. Por fim, até fiz uma faculdade relacionada ao que gostava de fazer, que foi Jornalismo, e segui para um emprego que não tinha nada a ver comigo, mas não o odiava completamente. A hora do meu trabalho era quando podia descansar a minha cabeça dos meus problemas e ainda ser paga por isso. Sei que é esquisito falar isso, mas é a verdade.

Eu estava afundada numa vida triste, vivendo uma merda de relacionamento, sobrevivendo um dia de cada vez. Eu e o Pedro estávamos perto de casar e eu sabia que dali só iria pior, só não tinha ideia de como sair desse fundo do poço em que estava. Quem me ajudou muito foram as minhas amigas de trabalho – que sim eram uns anjos e tenho contato até hoje - me dando a força que eu precisava para sair daquilo tudo.

Primeiro terminei meu relacionamento e saí da casa dos meus pais, já que ainda morava com eles. Arrumei minhas coisas o mais depressa que deu e só sai, explicando para minha família toda a situação, que foi a briga feia com o Pedro e que eu não aguentava mais e eu sabia que ele iria me procurar ali. As mesmas amigas me ofereceram abrigo em suas casas, num revezamento, por um tempo, enquanto eu arrumava um lugar para ficar e comprava as coisas para poder morar sozinha. Foi nessa época em que a Contemporânea Erótica nasceu, como um escape para a minha virada na vida e deu muito certo. Em pouco mais de dois anos, a minha vida melhorou muito e eu agora vivo daquilo que eu gosto de fazer.

Acho que vou acabar escrever tudo isso no prefácio do meu livro. Fica com um ótimo tom de abertura para tal. Eu estou ansiosa para isso!

***

Logo o domingo do almoço da família do Gustavo chegou, tanto eu quanto ele ficamos trabalhando muito e precisávamos de um descanso. Eu espero que a família dele seja legal, porque de embuste já basta na minha.

Combinamos de nos encontrar no estacionamento. Como ele não dirige, fui guiando o carro conforme ele indicava, não reclamo.

É na mesma região em que passei a minha infância, a algumas quadras de distância da casa dos meus pais. Acabei pensando brevemente em como eu e Gustavo não nos conhecemos antes. Provável que frequentamos os mesmos ambientes na adolescência. O mais engraçado é a gente ter se encontrado numa região bem distante de onde nascemos e crescemos, por causa de uma encomenda por engano.

Logo chegamos na rua e ele apontou qual era o portão e dava para ver um casal feliz e animado acenar para nós da calçada. Obviamente os pais de Gustavo. Indicaram que eu deveria estacionar ali na frente mesmo, não tinha problema. O pai de Gustavo foi me guiando durante a baliza e coloquei o carro com as quatro rodas na calçada e descemos do carro em seguida.

G abraçou os pais apertado, dava para ver que tinha muito tempo que não se viam. Logo apareceu o irmão dele e ele tratou de me apresentar:

- Pessoal, esta é a Helena. Uma amiga minha lá do prédio.

- É um prazer! - disse o homem mais velho – Sou Éder.

- E eu sou Alexandra. - falou a mãe dele

- Já eu sou o irmão mais velho do Gustavo: Luís. Seja bem-vinda!

- Obrigada! - sorri

- Agora vamos e entrem logo que a comida está pronta só esperando vocês. E não quero que esfrie. - falou Éder

A casa da família, se comparada com a da minha, é bem menor, mas é muito bonita. Tem ainda o chão de caquinhos, em tons vermelhos, amarelos e azuis, que há muito se perdeu na casa de meus pais em meio a tantas reformas. Na verdade, aquela casa parecia que tinha parado no tempo, parecia uma casa que eu via na rua durante a minha infância. Confesso que acabei observando um pouco demais e o Gustavo percebeu.

- O que foi? Admirando a casa? - questionou

- Sim! É muito bonita. - respondi

- Ela é desse jeito deve ter uns 30 anos. Gostamos tanto dela que nunca quisemos mudar nada. - comentou o pai de Gustavo – Afinal, foi nessa casa que nossos meninos cresceram.

Adentramos a casa e a mesa já estava posta para nós cinco. Sentamo-nos de nos servimos da especiaria da Alexandra: Estrogonofe. Começamos a desfrutar da refeição, que estava uma delícia – e devo confessar que era melhor que o meu mesmo – quando o assunto a mesa se iniciou.

- Alias, filho, - a mãe desta vez – estamos muito felizes que anda trabalhando bastante.

- E achamos lindas as fotos daquela menina… Como é o nome mesmo, querida?

- Echii! – respondeu o irmão, desta vez – E como conseguiu o contato dela irmão? Ninguém sabe quem ela é!

- Bom, ela que acabou falando comigo. Disse que olhou meu perfil e gostou das fotos. Mesmo sendo um fotógrafo desconhecido, quis me dar uma chance.

- Pior que depois eu dei uma olhadinha nas outras coisas dela e fala sobre muita coisa interessante. Não acha, Helena?

- Sim, a Echii escreve sobre muitas coisas importantes. Eu acompanho trabalho dela desde o começo. - menti

- Acho que todas as moças deviam conhecer. Claro que a visão de alguns é bem diferente, acabei lendo alguns comentários, mas acho que ela faz um trabalho bem legal, dando força para muitas outras. Quem me dera na minha época tivesse algo desse tipo.

- Leu os contos, mãe? - Gustavo perguntou curioso

- Claro que li! E gostei muito. Ela escreve muito bem!

Eu estou ficando com o ego inflado com todos estes elogios. Sabe, tem horas que digo que sou super feminista, mas estou um pé atrás com tudo o que estão falando. Claro que eles vão ter orgulho do filho deles. Mas, não deixo de pensar se eles fossem meus pais e eu fosse a garota que tirou fotos seminua para a internet. Deve ser só a minha insegurança batendo, mas eu realmente fico pensando nessas coisas, até porque, vivo vendo um irmão sendo idolatrado.

Eu fiquei apenas observando aquela família conversando e sentindo até um pouco de inveja, pois eu nunca tive tanta abertura assim para falar com meus pais. Nunca tive coragem de falar o que estava pensando e até coisas simples, por exemplo, como tinha sido a escola, sobre tirar uma nota baixa. Todo o mínimo deslize, tanto meu (especialmente) e da minha irmã mais nova com o passar do tempo também, era motivo de comentários e sermões de horas. Mesmo já depois de adulta! Na verdade, se eu der mole, ainda recebo sermão da minha mãe, só reparar a insistência dela com o assunto do meu ex, mesmo que já tenha dois anos que terminei com ele.

O bate-papo a mesa estava leve e divertido. Nem se parecia com um almoço de família e logo num domingo. E eu me senti tão bem recebida e a vontade que mal senti a hora passar. 

Terminamos de comer e eu ajudei Alexandra a arrumar tudo, era o mínimo que podia fazer. Eu e ela estávamos na cozinha, enquanto os homens conversavam na sala, nós duas também falávamos sobre alguma coisa. E ela logo quis saber da vida amorosa do filho:

- Sua relação com meu filho, qual é? São só amigos mesmo?

- Sim, amigos coloridos, na verdade.

- Coloridos? - ela sorriu – Meu filho olha de um jeito tão bonito pra você.

- Você acha? - fiquei sem graça

- Do que eu conheço dele, com certeza te admira muito! Desde novo é assim com as meninas.

- Assim como?

- Paixões platônicas! Ele nunca teve muitas namoradinhas, sabe? Diferente do irmão!

- Gustavo chegou a me contar da época da adolescência. A minha também não foi nada fácil!

- Eu imagino. Mas, você é a primeira moça que ele traz aqui.

- Sério? - desacreditada

- Eu e meu marido estamos até surpresa. Nunca o vi tão feliz!

Apenas sorri. Aquela senhora queria era me deixar de ego inflado.

Não demorou para que terminássemos a limpeza e era a hora de ir embora. Gustavo e eu acordamos que não ficaríamos muito tempo. Despedi-me de todos e agradeci a hospitalidade.

Assim que eu e Gustavo fomos para a varanda e consequentemente para o portão para sair, eis que vejo a face conhecida dos meus pesadelos. Sim, aquele que não deve ser nomeado, mas só de citar já se sabe quem é.

Eu estava tão relaxada e alegre que eu simplesmente congelei, observando-o se aproximar. Não estava preparada – de novo – para outra aparição surpresa dele.

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