sexta-feira, 28 de março de 2014

Capítulo 15 - Festa de Makoto

O julgamento no dia seguinte demorou a acabar. Iniciou-se a sessão às 9h da manhã e a sentença saiu pouco após o recesso do almoço. Foi bem difícil, mas consegui ganhar a causa. Era uma partilha de bens entre os entes de um falecido.
Eu me senti liberto quando aquilo acabou. Poderia voltar para casa mais cedo e dar atenção a Kazuko e Takumi, o que não fazia tinha dias.
Peguei o carro e fui para casa. Porém, quando entrei, estava tudo muito quieto. Kazuko e Keiko devem ter saído e sei lá para quê.
Tomei um banho e aproveitei para continuar minha leitura. E do mesmo jeito que na noite anterior, abri o caderno e fui me recordar do meu 22° aniversário.

Olá diário,
hoje (pelo menos até agora) o dia foi bem tranquilo...Entre aspas né? Arrumar festa definitivamente não é uma coisa calma. Afinal, tem que estar tudo impecável.
Mas... Vamos por partes...
A primeira coisa fiz quando vi Makoto foi abraçá-lo e lhe desejar “Parabéns!”.
Keiko deu o seu presente para ele logo de manhã. Era a camisa preta. Sendo assim, a gravata estava comigo. Ele até perguntou se iria dar-lhe um presente, falei que mais tarde.
O dia foi regado a bastante agitação. Tudo ficou pronto bem cedo, no meio da tarde. Nós três ficamos na sala conversando e rindo. As horas passaram e fomos nos arrumar. Já estou com a minha roupa. Eu só tenho que arrumar o cabelo. Farei uma trança mesmo.
Eu nem sei quem Makoto convidou. Deve ter chamado o pai e as suas madrastas. Só espero que a Yoko não. Por favor, ela não!
Agora tenho que ir!”

Acabei este “capítulo” e a porta abriu. Era Kazuko!
–Já em casa, amor?
–Acabou mais cedo. Ainda bem, eu não aguentava mais.
–Ai, que coisa boa! Vou fazer um jantar bem gostoso para nós hoje então.
–E o que vai ser?
–É surpresa! - Ela me deu um beijo – Pode continuar a ler.
Então, prossegui para o próximo trecho.

Diário,
sei que voltei rápido, até demais. Mas é que preciso desabafar!
Só para constar, ainda está acontecendo a festa do Makoto lá fora.
Saí assim que acabei de escrever. Keiko e sua família já estavam presentes. Não demorou muito e o pai dele, as madrastas e Kyosuke chegarem.
E cada vez mais pessoas adentravam ao apartamento de Makoto. Ele me apresentava a todas elas. Colegas de trabalho, amigos de infância, de colégio, de faculdade. Então, apareceu... O chefe de Makoto chegou com a esposa: Yoko. Ela me olhou com uma cara de ódio. Pressenti que aconteceria alguma coisa e não estava errada.
Eu estava ajudando a Keiko a servir os convidados e era perceptível que Yoko estava abusando de mim. Toda hora me chamava pedindo alguma coisa. Ela queria me irritar, mas se tem uma coisa que a minha mãe me ensinou foi a ter educação. Por mais filha da puta que ela seja e que você a odeie.
Yoko notou que não funcionava tão fácil assim e resolveu piorar sua atitude.
Levei o suco para ela, de propósito ela derrubou a bandeja. O copo caiu no chão e quebrou. O chão ficou sujo de suco. Todos tomaram um susto com o barulho.
–Sua desajeitada! Molhou o meu sapato novo.
–Desculpe. Já vou secar e lhe trazer outro suco.”

Eu me lembro bem do que aconteceu nesse dia. Yoko estava tentando irritar Kazuko e logo ela conseguiria.

Keiko me ajudou a limpar a bagunça. Voltei a cozinha para pegar o suco.
No caminho de volta, ao olhar na direção dela, a ouvi falando com a amiga. E eu sei sobre o que falava: sobre mim, contava a história do dia anterior. E pela proximidade pude escutar nitidamente:
–Mas veja como são as coisas, hoje ela está aqui, me servindo. Fazendo como todos os pobres fazem em relação aos ricos. Não há vingança mais doce do que a própria realidade.
Yoko não me percebera aproximando-me dela. Um turbilhão de coisas passaram pela minha cabeça, mas palavras não bastariam. Eu tomei uma atitude!
Peguei o copo de suco que carregava e virei-o naquele cabelo totalmente produzido pelo laque. Ela deu um berro de raiva (que despertou a atenção de todos) e então, finalmente desengasguei:
–Olha só, eu não estou aqui para te servir. Você não me comprou, foi outra pessoa. Infelizmente, é a ela que devo servir e não você, querida.
No momento em que me virei, Makoto me agarrou forte pelo braço e me arrastou para o meu quarto.
Sem contar os comentários que ouvi dos outros convidados: “Nossa, que horror!”, “Essa garota tem que saber o lugar dela!”.
Ao chegarmos na porta, Makoto me indagou, muito irritado:
–Por que você fez aquilo?!
–Porque ela me desrespeitou e me irritou.
–Ela é mulher do meu chefe! Sua atitude pode me trazer sérios problemas!
–Mas é que... - gaguejei
–”Mas é que”, porra nenhuma! Kazuko, você tem que aprender qual é o seu lugar! - ele vociferou”

Por que eu fiz isso? Briguei com Kazuko desse jeito?
Primeiro porque eu realmente não gostei da atitude dela. Apesar da Yoko merecer!
Segundo foram os olhares de todos para mim quando aconteceu. Algo como: Faça alguma coisa!
E deu no que Kazuko contou no diário. E isso praticamente destruiu o meu aniversário.
Pedi auxílio a Keiko quanto a Yoko. Desculpei-me com o meu chefe, com a maior vergonha do mundo. Ele me disse:
–Tudo bem, Makoto. Só tem que aprender a controlar essa fera para não ocorrer outra vez.
E o meu pai?
–Ela tem um gênio forte, filho. Precisa ensiná-la, senão pode acontecer coisa pior.
A festa teve pouco mais de uma hora depois disso. Dispensei todos, tomei um banho e fui dormir.
Agora voltando ao diário...

Ele abruptamente abriu a porta e me atirou no quarto. Eu já chorava a esta altura.
–Castigo por tempo indeterminado. - e bateu a porta
Eu estou chorando até agora, mesmo escrevendo isso. Fiquei assustada com o jeito do Makoto e com medo do que pode me acontecer.
Só me resta fazer duas coisas: Chorar e esperar a poeira abaixar.”

Pude ouvir a voz de Kazuko me chamando, deixei o diário de lado e corri até a cozinha. Senti um cheiro bom de carne.
–Oba! Carne assada.
–É! - Ela falou sorrindo - E o que estava lendo no diário?
–Sobre a minha festa de 22 anos.
–Eu não sei o que tinha na cabeça quando fiz aquilo.
–Você ficou com raiva, Kazuko, é compreensível.
–Do mesmo jeito que teve de mim.
–Pois é! Mas, vamos esquecer isso. Já passou!
Dei um beijo nela e fiquei na sala brincando com Takumi até o jantar estar pronto.

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