sexta-feira, 28 de março de 2014

Capítulo 17 - Acidente de percurso

Tive o resto da semana bem conturbada no trabalho, o que é absolutamente normal.
Apesar de todos os afazeres, arrumei um tempo para continuar lendo o diário, pelo menos umas cinco anotações por dia. Não pude evitar a alegria quando a sexta-feira chegou. Decidi que depois do jantar iria ler. Estou chegando em um momento em que realmente não fazia ideia de como minha esposa se sentia. Passara quase um mês (no diário) e parecia que Kazuko adoecera.
Sentei-me no sofá da sala e abri o diário.

Olá diário,
aconteceu uma coisa comigo hoje de manhã.
Dormi no quarto de Makoto, você sabe o porquê. Eu acordei um pouco enjoada e corri para vomitar. Ele acordou por causa do barulho e perguntou:
Kazuko, tá tudo bem?
Sim, Makoto.
Logo me recuperei e fui tomar café como sempre faço. Não haveria nada de anormal se aquele enjoo não estivesse tirando a minha fome. Dessa vez foi Keiko, que estranhando, indagou:
Você quase não comeu. Tem algo errado?
Devo te comido algo que me fez mal.
Ela vomitou lá no quarto – soltou Makoto.
Então é sério! Vou fazer um chá para você agora mesmo.
Keiko fê-lo rapidamente e me deu. Não sou a maior fã de chá, tomei meio que na marra e fazendo caretas pelo gosto amargo.
Logo Makoto saiu, e eu fiquei na sala, ainda um pouco enjoada. Por sorte, o enjoo foi embora pouco depois. Foi após o almoço que ocorreu uma coisa estranha. Fiquei com um sono e acabei cochilando no sofá mesmo. Keiko que me acordou, um pouco surpresa e em seguida dizendo que Makoto estava retornando.
Sem dúvida, ela vai contar-lhe que eu dormi hoje.
Preciso ir, diário. Vou tomar um banho!”
Ao terminar essa leitura, Kazuko apareceu para me dar um beijo de boas-vindas. Sentou-se do meu lado.
— Você não larga esse diário, né, Makoto?
— Deixa de ser chata! Você que deu mole e eu o encontrei.
E eu comecei a fazer cócegas nela! Kazuko se debatia e ria. Gosto disso, até porque adoro a risada dela.
Depois de muitos pedidos insistentes para que eu parasse. Atendi-os.
— Posso ler agora? Vai se incomodar?
— Pode, amor, eu não vou – respondeu rindo.
Então, ela ligou a TV e procurou algo para ver.
Li mais umas três anotações, equivalendo cada uma a um dia. E continuaram acontecendo as mesmas coisas com ela: Passando mal de manhã e dormindo mais que o normal. Considerando que ela não tinha o hábito de dormir fora de horário, era algo estranho.
Keiko me contara estes episódios naquela semana.
Cheguei no trecho em que perdia a paciência e ia levá-la ao médico. A médica, melhor dizendo.

Bom dia diário,
passei mal hoje outra vez. É o quinto dia seguido. Realmente tem algo muito errado comigo.
Acordei Makoto com os sons do meu vômito de novo. Ele falou irritado e sonolento:
Kazuko, você ainda não melhorou disso?!
Deve ser algo que eu comi.
Por cinco dias?!
Eu ia retrucar, mas tive que “pôr para fora” novamente.
Ouvi-o se arrastar até a porta do banheiro e comentou:
Acho que isso é outra coisa. A Keiko tem me contado que continua enjoada, vomitando, sonolenta.
O que quer dizer com isso?
Só que o filho da puta mandou outra pergunta.
Sua menstruação? Tá atrasada?
Fiz um cálculo mental rápido e respondi:
É para vir essa semana.
A semana termina praticamente amanhã – ele parecia pensativo. – E você já está assim. Quer saber, vamos na Dra. Saho hoje!
Por quê?
Acho que é óbvio, Kazuko.
Eu, grávida? Nem pensar! Eu tomei... todos os meus remédios.
Comecei esta fala confiante e certa, porém lembrei dos dias em que fiquei presa no meu quarto e não tomei as pílulas. Minha voz falhara e olhei para ele. A troca de olhares falou por si só!
Lave o rosto e vamos comer!
O enjoo não me permitiu colocar muita coisa para dentro. Makoto carregava uma expressão preocupada. Antes dele ir embora, pude escutar parte de sua conversa com Keiko na cozinha. Dizia que me levaria na ginecologista mais tarde por conta das suspeitas. Quando ligasse, eu deveria me arrumar para assim que chegasse, podermos ir logo.
Saiu da cozinha e repetiu o monólogo para mim. Apenas assenti.
Eu não sei o que pensar com isso. E se eu estiver mesmo grávida? Será que ele vai me punir? Far-se-á o que do meu bebê?
Só posso pedir que me deseje sorte!”

Os medos de Kazuko são bem compreensíveis. Eu fui sempre bem claro que não queria filhos.
Existem histórias de escravas que engravidaram e foram punidas. Essas punições vão desde um simples castigo, como ficar dias sem comer. Até algo mais severo como, literalmente, tomar um surra ou uma punição sexual.
Passei aquele dia inteiro com aquilo martelando na minha cabeça. Não sabia o que faria se a resposta para a minha pergunta fosse um sim. Liguei para o consultório da Rin e marquei o último horário de encaixe. Continuei trabalhando depois.
Segui diretamente para a anotação seguinte, que era, obviamente, depois que voltamos.

Querido diário,
eu e Makoto acabamos de voltar da Rin. Eu ainda não estou acreditando no que ouvi, descobri e o que aconteceu.
Keiko adiantou o jantar, provavelmente, deve ter saído pouco depois que eu e Makoto.
Nós estávamos em um silêncio mortal e agonizante. Um medo absurdo possuía meu corpo. Não fazia ideia do que seria feito de mim, dependendo do que descobríssemos.
Chegamos ao consultório, que se vazio se encontrava. Ele fez os procedimentos e ficamos a espera. Havia só uma outra mulher, que já estava lá, também parecendo que ia explodir. Ela foi antes de mim. Após a sua saída, Rin me chamou.
Senhorita Kazuko e Senhor Makoto, bem-vindos! – deu uma olhada para nós – O que os traz aqui? Afinal, vieram de encaixe.
Desde o início da semana Kazuko está com enjoos e vômitos. Ela também me disse que houve dias em que não tomou o remédio... – se pronunciou Makoto.
E “as regras” atrasadas? – Rin interrompeu.
Respondi fazendo “sim” com a cabeça.
Ok! Kazuko, vista o avental e vamos para a outra sala. E você, Makoto, pode entrar também.
Fiz conforme ela mandou. Na outra sala, ela me fez deitar naquela espécie de maca e realizou os mesmos passos de um exame comum.
Seus seios realmente estão bastante inchados. Não estão doendo?
Parecem do mesmo jeito quando a menstruação está para vir.
Entendi!
Makoto estava do outro lado da cortina, que separava do canto da “maca” do resto da sala até aquele momento. Rin pediu para que eu me levantasse e fosse ao outro lado, onde ficava a máquina de ultrassom. Mas, ela pegou uma espécie de tubo, comprido. Assustada, questionei:
Para que isso?
Este aqui é interno. Se eu fizer por fora não verei nada. Abra as pernas.
Ele já estava do meu lado, tão apreensivo e com medo quanto eu.
Rin passou um pouco de gel na ponta daquela coisa e a colocou na minha vagina. O gelado me fez ter um leve calafrio. Ela mexeu e mexeu. Eu e Makoto não víamos nada, a estava virada contra nós. Então Rin virou a tela e falou:
Parabéns, Kazuko. Você está grávida.
Tudo era colorido naquela imagem. Pude ver um pequeno aglomerado que Rin indicou ser o bebê. Não tinha nem um mês ainda.
Nem eu e nem Makoto tecemos sequer um comentário. Abaixei a cabeça e senti uma lágrima cair. Ela logo notou o clima pesado e disse:
Bem, vou deixá-los a sós. Com licença.
Ele se virou de costas para mim, apoiado na cama. Ouvi-o suspirar. E eu continuava chorando. O destino deste bebê estava nas mãos dele.”

Pois é, a notícia foi um grande choque. Pelo decorrer de tudo dos dias anteriores, era mesmo essa a resposta. Só que nunca estamos preparados para ouvir algo assim de repente. Em um segundo, eu tinha uma vida em minhas mãos e deveria decidir o que fazer com ela.
Quando uma escrava engravida, o bebê que ela carrega pertence ao dono (assim como ela) e ele escolhe o que acontecerá com ele ou não. Há três opções: abortar; levar a gravidez até o final e dar a criança para adoção; ficar com a criança, como um filho. Bem, em certos casos, não deixa de ser.
Não podia olhar para Kazuko naquela hora, ela influenciaria minha decisão.
Muita coisa rolou em minha cabeça no curto período de tempo. Arrumei os pensamentos e cheguei a uma conclusão.

Makoto se virou para mim. Já pressenti algum tipo de bronca, contudo o seu tom de voz e o segurar na minha mão desmentiram isso.
Kazuko, tá tudo bem. Não vou brigar com você, mas também não tirarei sua culpa. O que aconteceu é culpa nossa devido as circunstâncias. Agora temos que encarar as consequências.
O que decidiu? – Rin voltou, indagando meu dono diretamente
Vou ficar com a criança.
Mais nada falou. Rin pediu para vestir as minhas roupas e disse que eu deveria ir ao consultório de duas em duas semanas para o pré-natal ocorrer corretamente.
Voltamos para casa, e eu quis ficar sozinha.
Não sei o que pensar, sobre o que houve e ainda mais sobre a decisão do Makoto. Também não consigo parar de chorar. Não quero nem imaginar o tanto que tudo vai mudar com esse bebê a caminho.”

Que vida não mudaria com outra pessoa chegando?
Ela já tinha problemas comigo, pela visão dela, sem filhos. Com um pioraria tudo.
Fiquei cansado de ler e resolvi fazer companhia a Kazuko (antes, só estava do lado dela). Jantamos e depois fomos dormir, sem esquecer de umas coisinhas.

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